Fernando Santos e Fernando Gomes em 2016 (foto: António Azevedo/A BOLA)
Fernando Santos e Fernando Gomes em 2016 (foto: António Azevedo/A BOLA)

FPF arrasa gestão de Fernando Gomes por dívida de milhões: «Impacto altamente gravoso»

Federação lança comunicado sobre notificação recebida da Segurança Social, «relativa aos contratos com a empresa Femacosa, celebrados pela anterior administração»

O passado voltou ontem para bater à porta da Cidade do Futebol e o estrondo ameaça fazer tremer os alicerces da Federação Portuguesa de Futebol (FPF). Em causa está uma notificação da Segurança Social que cai como uma autêntica «bomba» nas contas do organismo: um pedido de liquidação de, pelo menos, 2.603.838 euros, relativos a contribuições em falta entre dezembro de 2021 e dezembro de 2022.

A questão prende-se com a polémica «arquitetura laboral» montada pela anterior administração para o pagamento à equipa técnica nacional, então liderada por Fernando Santos, através da empresa Femacosa. A Segurança Social não tem dúvidas: houve «desconformidade legal» no recurso a sociedades comerciais em detrimento de contratos de natureza desportiva, um modelo que a atual Direção já abandonou, regressando ao figurino clássico com Roberto Martínez.

Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol
Pedro Proença, presidente da Federação Portuguesa de Futebol

Um rombo no orçamento

O impacto desta decisão é «altamente gravoso». A FPF, que previa fechar a presente temporada com um saldo positivo de 3,1 milhões de euros, vê agora o seu equilíbrio orçamental em risco. É que aos 2,6 milhões agora exigidos — referentes apenas ao capital — acrescerão ainda juros de mora e coimas, o que fará disparar a fatura final para valores substancialmente superiores.

Perante o cenário e apoiada em pareceres jurídicos independentes, a Direção da FPF, reunida de emergência na passada terça-feira, decidiu não prolongar a agonia judicial. O organismo deliberou, por unanimidade, pagar de imediato, assumindo que a probabilidade de êxito num recurso seria mínima e que a manutenção do diferendo apenas serviria para engordar os juros e as custas processuais.

A herança

Mas, se o pagamento serve para estancar a ferida financeira, a ferida política está longe de fechar. No comunicado emitido, a FPF faz questão de sublinhar, por diversas vezes, que este processo foi «herdado da anterior Administração», marcando uma distância clara (e gélida) entre a atual gestão e as decisões tomadas no consulado anterior.

A Direção reafirma o seu compromisso com as «boas práticas de gestão» e a «total transparência», lembrando que já em abril de 2025 tinha desistido de recursos no Tribunal Constitucional relativos ao acesso da Comunicação Social a documentos deste processo.

Assembleia Geral à vista

O caso não vai ficar pelos gabinetes. A gravidade dos factos levou a Direção a decidir levar o dossiê ao conhecimento formal dos Órgãos Sociais e dos Sócios Ordinários em sede de Assembleia Geral. O objetivo é claro: escrutinar as responsabilidades do que aconteceu entre 2021 e 2022 e explicar aos sócios como é que um excedente previsto de 3 milhões de euros pode ser «comido» por uma engenharia contratual do passado que a Segurança Social agora chumbou sem apelo nem agravo.

A Cidade do Futebol vive dias de agitação. A fatura chegou, é pesada, e o fantasma da Femacosa promete continuar a assombrar o debate federativo nos próximos meses.

OS NÚMEROS DO CASO

  • 2.603.838 €: Valor base da dívida à Segurança Social.

  • DEZ 2021 a DEZ 2022: Período das contribuições em falta.

  • 3,1 MILHÕES €: Resultado positivo que a FPF previa para esta época (agora em risco).

  • UNANIMIDADE: Decisão da Direção para liquidar o montante de imediato.

Comunicado da Federação Portuguesa de Futebol
«Face à gravidade de uma notificação recebida da Segurança Social relativa aos contratos com a empresa Femacosa, celebrados pela anterior administração, a Federação Portuguesa de Futebol convocou a sua Direção para uma reunião de emergência, que ocorreu na última terça-feira, dia 20 de janeiro. Da notificação recebida da Segurança Social resulta o pedido de liquidação de um montante de, pelo menos, 2.603.838 euros, relativa a contribuições consideradas em falta no período compreendido entre dezembro de 2021 e dezembro de 2022, a que se juntarão juros de mora e coimas, os quais não se encontram ainda contabilizados. Estima-se, pois, que o valor global a liquidar venha a ser substancialmente superior, com impacto altamente gravoso e significativo na situação financeira e no equilíbrio orçamental da Federação Portuguesa de Futebol para a presente época, a qual previa um resultado positivo de 3,1 milhões de euros. A Segurança Social imputa desconformidade legal à arquitetura laboral concebida no período em questão, assente na interposição de diversas sociedades comerciais em detrimento da celebração de um contrato de natureza desportiva com a equipa técnica - ao contrário do que era até então procedimento comum e que é, de resto, praticado com o atual Selecionador Nacional. A Direção da Federação Portuguesa de Futebol mantém o absoluto compromisso com as boas práticas de gestão, bem como a total transparência e intransigente defesa do bom nome e da reputação desta instituição, princípios que nortearam outras deliberações referentes a este caso, nomeadamente quando, em abril de 2025, decidiu desistir do recurso interposto para o Tribunal Constitucional quanto às sucessivas decisões, nas mais diversas instâncias, relativas ao pedido de órgãos de Comunicação Social para o acesso a um conjunto de documentos relacionados com este processo. Em consonância com as deliberações anteriores, a que se juntam pareceres jurídicos independentes que concluem a manifesta inutilidade da manutenção do diferendo - atendendo às reduzidas probabilidades de êxito de uma eventual contestação e aos elevados custos associados, designadamente encargos judiciais, acréscimo de juros de mora e agravamento de coimas -, a Direção da Federação Portuguesa de Futebol deliberou, por unanimidade, proceder à liquidação imediata dos montantes em dívida. Ficou, porém, deliberado que, atenta a circunstância de o presente processo ter sido herdado da anterior Administração e tendo em conta a gravidade dos factos em apreço, a Direção dará oportuno e formal conhecimento do mesmo aos Órgãos Sociais da FPF, bem como aos seus Sócios Ordinários, em sede de Assembleia Geral, para os efeitos que se entenderem pertinentes.»