Pepê e o sportinguista Luís Guilherme disputam a bola - Foto: Imago
Pepê e o sportinguista Luís Guilherme disputam a bola - Foto: Imago

FC Porto: quando há fogo atrás, Pepê aparece com o extintor

Amarelo a Alberto antes do intervalo, em Alvalade, fez Farioli recorrer à polivalência do brasileiro para repor ordem na defesa. Nem tudo foi perfeito, mas o brasileiro abraçou a missão com sacrifício e alma — um autêntico bombeiro de plantão.

O clássico da Taça de Portugal frente ao Sporting recuperou memórias recentes: aquelas noites em que a versatilidade de Pepê o empurrava, mais vezes do que ele desejaria, para a posição de lateral-direito. Formado e pensado para ser extremo, é nesse território mais adiantado que o brasileiro se sente mais realizado.

Ainda assim, Farioli conhece bem a fiabilidade do camisola 11 e sabe que, nas noites grandes, pode chamá-lo para as missões mais delicadas. Em Alvalade, sem um lateral-direito de raiz no banco (Martim ainda não estava disponível para este clássico), o italiano percebeu que era arriscado manter Alberto em campo, depois de uma primeira parte feita de duelos intensos e de um cartão amarelo que deixava o defesa vulnerável.

Daí nasceu a decisão que mudou o desenho do FC Porto: Pepê recuou para a linha defensiva, assumindo de novo o corredor direito. Nessa função, somou dois cortes decisivos dentro da área, mostrando tempo de entrada, leitura de jogo e aquela agressividade controlada que o distingue. Porém, acabaria também por ficar ligado ao 1-0 do Sporting, ao cometer a falta que deu origem ao livre lateral (agarrou a bola com as mãos) e, já no desenrolar da jogada, à infração de Fofana sobre Hjulmand. Da marca dos 11 metros, Luis Suárez não tremeu e colocou os leões em vantagem na 1.ª mão da meia-final da Taça de Portugal.

Mesmo com esse momento a comprometer a ficha, Pepê voltou a expor a razão pela qual é uma das peças em que Farioli mais confia, independentemente de os números ofensivos estarem longe dos que o brasileiro apresentou no arranque da época. A sua capacidade de reagir à perda, de fechar por dentro e de proteger a linha defensiva oferece uma segurança que, por exemplo, William Gomes ainda não consegue garantir. O compatriota é um jogador talhado para a vertigem, para o um contra um constante, e em Alvalade passou grande parte da noite a pôr Maxi Araújo em sobressalto, mas sem o mesmo instinto defensivo.

Adaptado a lateral-direito por Sérgio Conceição, sobretudo em 2022/23, Pepê fez dessa polivalência uma marca. Nessa temporada chegou aos 55 jogos, incluindo a final da Taça de Portugal, e acabou mesmo eleito jogador do ano nos Dragões de Ouro, apesar de a sua matriz ser claramente mais ofensiva. A facilidade com que alterna entre linhas, fecha dentro como médio, salta para extremo ou recua para lateral tornou-o numa espécie de solução total para diferentes contextos de jogo.

É essa soma de valências que o mantém como unidade preponderante. Se a influência direta em golos já não é tão alta como a de William Gomes, o camisola 11 compensa com uma taxa de sucesso defensivo assinalável, crucial quando a equipa é obrigada a baixar linhas e o adversário procura os corredores para criar perigo. Entre o prazer de atacar e a exigência de defender, Pepê continua a ser o jogador que liga tudo — mesmo quando a noite lhe cobra, na mesma jogada, o melhor e o pior do ofício.