«FC Porto foi justo vencedor, mas foi o Sporting que mais gostei de ver jogar»
— Qual é a visão do Paulo Fonseca sobre o futebol português?
— Não temos a possibilidade de ver todos os jogos, mas tenho os meus clubes preferidos. Tenho muita pena que o Paços tenha descido divisão. Tenho acompanhado sempre o SC Braga também, um clube de que eu gosto muito. E tenho acompanhado os clubes. O campeonato foi extremamente competitivo e acho que o FC Porto foi, no fundo, um justo vencedor, porque foi a equipa mais constante, mais equilibrada. Mas confesso que a equipa que eu gostei mais de ver jogar foi o Sporting. O Sporting fez grandes jogos tanto na Liga como na Liga dos Campeões. O final do Sporting não reflete aquilo que foi a época. Não nos podemos esquecer que o Sporting teve uma semana muito difícil no primeiro jogo em casa, com o golo do Arsenal nos descontos. Depois joga com o Benfica, perde nos descontos. Aquilo tem um impacto. Por vezes as pessoas têm dificuldade em perceber isto, mas isto é um impacto mental na equipa. E depois refletiu-se, obviamente, também na final da Taça de Portugal. Não fico admirado com o que aconteceu na Taça. O Sporting, obviamente, não fez um grande jogo. O Torreense defendeu muito bem, com muitos jogadores, o que é sempre difícil, e o Sporting está com desgaste físico e mental natural da época que fez. E o Benfica com a entrada de Mourinho reavivou a sua esperança.
— Esteve no Milan, saiu, entrou Sérgio Conceição. Não correu bem a ambos? O problema é mais do Milan do que dos treinadores?
— Aliás, saiu mais um [treinador] não é? Mas eu não sou uma pessoa de desculpas, de olhar para trás e achar que a culpa é dos outros. Mas a verdade é que, desde aí, os tempos vêm confirmar que há algo que não está bem estruturalmente no clube e que não favorece, obviamente, o trabalho dos treinadores. Aquilo que me foi proposto quando me convidaram para ir para o Milan foi uma mudança no estilo de jogo e foi aquilo que fiz. Sem querer falar nos outros, no trabalho do Sérgio ou agora do Allegri, posso dizer do meu trabalho que a equipa jogou bom futebol, teve realmente momentos grandes. Quando saí estávamos à beira de nos qualificarmos para a Liga dos Campeões, mas as pessoas entenderam que a prioridade já não era a mudança, mas os resultados imediatos. Se as pessoas querem mudanças, precisamos de tempo, que não foi dado.
— O que espera de Portugal no Mundial?
— O trabalho de um selecionador é talvez o mais difícil. O tempo para trabalhar é extremamente reduzido e é muito difícil criar uma forma de estar, de jogar, com jogadores que estão juntos três dias, quatro dias e que jogam jogos completamente diferentes em campeonatos completamente diferentes. E é extremamente difícil o trabalho do selecionador quando se fala a questão do jogar bem. Raramente há seleções que jogam bem. Posso dar exemplos de seleções que jogam bem, mas são seleções onde a maioria dos jogadores pertencem a determinados clubes. A Alemanha foi forte quando teve muitos jogadores do Bayern, a Espanha continua a ser muito forte, mas quando teve o seu melhor período havia muitos jogadores do Barcelona. Acho que Portugal vai fazer um bom Mundial, mas não me atreveria a criar essa pressão de ser campeão. Talvez tenhamos, a nível de jogadores, a melhor Seleção de todos os tempos, com jogadores nos melhores clubes da Europa, com muita qualidade, que já jogam juntos há algum tempo, mas atribuir o favoritismo a Portugal, acho que não. Não é justo. Mas acredito muito na Seleção de Portugal. Acho que o selecionador tem feito um excelente trabalho e vendo de fora faz-me um bocadinho de confusão este ruído que se criou à volta do selecionador. Não tem sido justo para uma pessoa que tem feito realmente um bom trabalho com a nossa Seleção.
— Cristiano Ronaldo continua a ser tema central na Seleção. Uns defendem a sua titularidade, outros não. É uma solução ou um problema para a Seleção Nacional?
— Um jogador que marca tantos golos? Que continua a marcar tantos golos? Não pode ser visto como um problema. Há muitas coisas extra que ele possivelmente dá ao grupo. Também a sua capacidade de liderança, a sua capacidade de proteger o grupo em função da figura que é. E também golos.
— Quem é o seu favorito para vencer o Mundial?
— Estou muito curioso em relação ao Brasil. E também em relação a França. Argentina, Brasil, França e Espanha. Para mim, são os grandes quatro candidatos à final, mas como português acredito que Portugal pode intrometer-se no meio destas quatro seleções.
— E a Liga dos Campeões? Arsenal ou PSG, quem vence?
— Será difícil, mas neste caso sou claramente adepto do PSG. E também por ser adversário. Reconheço um grande mérito ao trabalho de Luís Campos e o Luis Enrique, o PSG é talvez o melhor exemplo do que é o futebol hoje em dia, que já não há grande espaço para galáticos. As equipas que ganham são mais equipa. O PSG teve os melhores jogadores do mundo, com exceção de Cristiano Ronaldo, e nunca ganhou a Liga dos Campeões. Gosto também muito do Arsenal. Fiquei contente por ter ganho a Liga Inglesa.
— Tiki-taka, pressão na primeira fase de construção do adversário, ataque à profundidade, marcação homem e homem. Onde é que encontramos Paulo Fonseca nestas ideias?
— No meio disso tudo… [risos]. Nós, treinadores, temos de ser quase tudo. O jogo mudou tanto nos últimos anos que nos obriga a tudo. Por exemplo, a questão do homem a homem, eu já vivi um pouco isso em Itália, quando estava na Roma, mas o que víamos em Itália vemos agora em Espanha, em Portugal, em Inglaterra, em França. Hoje há muitas equipas que defendem homem a homem e isso dificulta imenso o nosso trabalho.
— E há solução para esse homem e homem?
— Eu ainda não encontrei. Acho que ninguém encontrou. A solução é a qualidade individual dos jogadores. Nós podemos. A grande referência desta questão são os dois jogos entre PSG e Bayern. Duas equipas a marcarem homem a homem, com a qualidade individual dos jogadores a resolver.
— Uma das imagens que ficam, é a de Marquinhos várias vezes apanhado no meio campo ofensivo.
— Vemos os centrais pressionarem avançados na área… no fundo é um caos controlado por uma organização que é de homem a homem. Se perguntarem se gosto imenso, não, porque eu gosto do jogo de equipa e nestes dois jogos vemos um jogo individual. As equipas não fazem mais de quatro, cinco passes seguidos. É difícil até perceber o jogo. Eu vi o jogo num canal português e até os comentadores tinham dificuldade em perceber aquilo que se estava a passar. Mas acho que é uma tendência que vai continuar. Também o faço em determinados jogos, como a maioria dos treinadores. Portugal ainda está um bocadinho longe disso. Este ano tivemos o FC Porto, que tirou grande vantagem desse momento.
— Por causa das ideias que viajaram com o treinador, o italiano Francesco Farioli.
— É um excelente treinador e é um treinador facilmente identificável, mas difícil de contrariar. Percebemos aquilo que ele fez aqui e é precisamente o que ele fazia em França [Nice], mas que é difícil de contrariar. E ele teve a capacidade de levar uma coisa que eu acho que é nova no campeonato português, a questão de pressionar alto, homem e homem. As equipas não estão habituadas, têm tido grandes dificuldades nesse momento e acho que ele tirou muito partido desse desse momento do jogo. É um excelente treinador e tem todo o mérito naquilo que fez este ano pelo FC Porto.
— É possível derrotar o PSG?
— Num jogo? Sim, nós fizemo-lo este ano. Acho que no campeonato é extremamente difícil. É um investimento totalmente diferente, qualidade individual totalmente diferente.
— Consegue definir em poucas palavras casa um dos internacionais portugueses do PSG?
— Vitinha é extraordinário, é o exemplo máximo de jogador da equipa. É difícil ter palavras para qualificar o que está a fazer no PSG. Está a provar que é único e é um jogador que realmente comanda aquela equipa. A equipa sem o Vitinha não é a mesma. João Neves é um trabalhador incansável. Damos muito pouco por ele, mas é extremamente eficiente. Tem a qualidade de também conseguir marcar em momentos decisivos, aliás ele derrotou-me com um golo de cabeça aos 90 e tal minutos. Estudámos muito a questão da bola parada do PSG e a grande referência no PSG é realmente o João. Nuno Mendes é, para mim, o melhor lateral do mundo neste momento. Capacidades física e técnica que eu ainda não noutro lateral. Tivemos grandes laterais, Roberto Carlos, Maldini — e Maldini era o meu ídolo —, mas o Nuno tem tudo ofensivamente. Defensivamente é rápido, é explosivo, é impressionante. Para mim, sem dúvida o melhor lateral-esquerdo do mundo. Por fim, Gonçalo Ramos, que sofre um bocadinho com a forma de jogar do PSG, que joga praticamente 100 sem um nove. Mas ele tem sido bastante efetivo, entra e marca muitas vezes. Em França fala-se muito na cobiça de grandes clubes.