Maxi Araújo foi decisivo no 5-0 do Sporting ao Bodo/Glimt
Maxi Araújo foi decisivo no 5-0 do Sporting ao Bodo/Glimt

Europa: da desilusão à euforia

Marcado de valores é o espaço de opinião de Diogo Luís, antigo futebolista, economista e comentador

Esta semana foi perfeita para o futebol português na Europa com o pleno de vitórias. O Sporting com uma noite épica, o SC Braga com personalidade e qualidade, e o FC Porto com maturidade competitiva para saber sofrer. Quando olhamos para as diferentes competições, há um dado que começa a ganhar força: a probabilidade de Portugal voltar a colocar uma equipa numa final europeia já não é um cenário distante, mas sim uma possibilidade real.

Do erro à reação perfeita

O jogo na Noruega expôs tudo o que o Sporting não pode ser. A equipa nunca se encontrou — nem estratégica nem emocionalmente — e a imagem foi a de um conjunto sem intensidade.

Em Lisboa, o cenário foi totalmente diferente. Desde o primeiro minuto percebeu-se uma equipa mais ligada, equilibrada e, acima de tudo, consciente do que o jogo pedia. Os regressos de Pote e Maxi foram determinantes. Pote trouxe critério e inteligência ao jogo interior: fecha por dentro, equilibra o meio-campo e aparece entre linhas. Maxi deu profundidade e imprevisibilidade, mas sobretudo intensidade competitiva, joga no limite e contagia a equipa e o estádio.

Também o regresso de Morita teve impacto direto. Ao contrário de João Simões, mais atraído pela bola, Morita garante equilíbrio, algo fundamental frente a estes adversários.

O Sporting foi, acima de tudo, uma equipa ligada ao jogo. Reagiu melhor à perda, teve critério com bola e nunca entrou em desespero. Houve ainda fatores que ajudaram a este rendimento: o regresso à relva natural e a ausência de jogo no fim de semana. A equipa apresentou-se mais fresca, mais intensa e mais disponível, algo que se sentiu ao longo de todo o encontro.

E depois há Rui Borges. Se na primeira mão falhou, na segunda respondeu como se exige a um treinador deste nível: corrigiu, ajustou e preparou melhor a equipa. Na conferência de imprensa no final do jogo demonstrou que sentiu a forma como algumas críticas lhe foram dirigidas. Acho que não o devia ter feito, uma vez que a resposta já estava dada em campo.

Vivemos num mundo que adora o imediato e o explora até ao limite. Há quem prefira ver a árvore e quem prefira ver a floresta. Eu enquadro-me no segundo grupo. Rui Borges pode ter falhado em Bodo, mas desde que chegou o seu trabalho é evidente. Conseguiu alterar a forma de jogar da equipa, depois de anos ligados a um sistema rígido.

Hoje, o Sporting joga um futebol atrativo, que leva os adeptos ao estádio com expectativa. Não se queixa das adversidades — enfrenta-as, dá oportunidades e demonstra confiança nos jogadores. A tudo isto juntou algo decisivo: títulos. Venceu o campeonato e a Taça e, esta semana, levou o Sporting aos quartos de final da Liga dos Campeões pela primeira vez desde 1983.

Pode não ser perfeito a comunicar, mas dentro do relvado o seu trabalho merece destaque. Há depois um impacto menos visível, mas igualmente relevante: a valorização do plantel. A evolução coletiva, aliada aos resultados europeus, tem reflexo direto no valor dos jogadores e nas receitas do clube. Nesse plano, a estrutura financeira liderada por Francisco Salgado Zenha terá certamente motivos para olhar para este momento com particular satisfação.

O SC Braga mostra ambição europeia

Depois de uma primeira mão sem expressão, o SC Braga respondeu como as equipas com ambição europeia sabem fazer.

Entrou forte, pressionante e com uma ideia clara de jogo. Aos 15 minutos a eliminatória estava empatada; aos 35 estava resolvida. A equipa jogou à imagem do treinador: intensidade, ambição e a coragem de assumir o jogo, independentemente do contexto. Não se deixou condicionar e fez aquilo que melhor sabe. O SC Braga conseguiu impor um ritmo alto e constante, algo decisivo neste tipo de eliminatórias. Há jogadores que aparecem e há jogadores que decidem. Zalazar e Ricardo Horta continuam a estar nesse segundo grupo. Têm qualidade técnica, personalidade e não se escondem nos momentos decisivos.

Sem grandes objetivos internos neste momento, o SC Braga pode concentrar-se totalmente na Liga Europa. E é precisamente aí que pode acontecer algo de especial. Olhando para o médio prazo, o clube minhoto está perante uma oportunidade clara.

Com estabilidade financeira e uma base competitiva sólida, tem condições para preparar o próximo passo. E esse passo tem hoje um enquadramento muito concreto: na época 2027/28, Portugal voltará a ter duas equipas com entrada direta na Liga dos Campeões e uma terceira a disputar o play-off.

Ficar entre os três primeiros deixa, por isso, de ser apenas um objetivo desportivo e passa a ser uma decisão estratégica com impacto direto no crescimento do clube. A diferença entre se afirmar definitivamente entre os grandes do futebol português ou continuar a ser o melhor dos restantes pode estar já na próxima temporada. O embate frente ao FC Porto será mais do que um grande jogo, será um teste à ambição do SC Braga. Não apenas para esta época, mas como indicador daquilo que o clube quer ser no futuro.

Porque crescer na Europa é importante, mas afirmar-se de forma consistente nestes jogos é o que separa quem participa de quem quer, verdadeiramente, competir a outro nível.

A valorizar: Diogo Costa
Tem sido fundamental na época do FC Porto. Frente ao Estugarda demonstrou mais uma vez porque é considerado um dos melhores guarda-redes do Mundo.
A valorizar: Froholdt
Com 20 anos já é um jogador incrível. Forte fisicamente e com qualidade técnica. O golo frente ao Estugarda é fantástico. É um grande ativo desportivo e financeiro do FC Porto.