Escritor Afonso Reis Cabral vive em centro comercial
O escritor Afonso Reis Cabral, vencedor do Prémio Literário José Saramago em 2019, está a viver numa loja no Centro Comercial Colombo, em Lisboa. A ideia, à partida excêntrica, é um projeto para encontrar inspiração literária.
O autor de 36 anos, que é trineto de Eça de Queirós, anunciou o projeto nas redes sociais, explicando que se instalou no centro comercial para uma «residência literária» com a duração de uma semana.
«Estou a viver no Colombo desde segunda-feira. A administração do Colombo teve a ousadia de aceitar este meu desafio. Agradeço-lhes receberem-me generosamente de portas abertas», partilhou o escritor. «Os centros comerciais sempre me fascinaram: pelo Colombo passam milhares de pessoas por dia. Tanta gente, tanta humanidade, só pode resultar em boas histórias. Estou a descobrir o funcionamento desta cidade, quem a visita, quem nela trabalha, quem aqui namora, quem vem espantar a solidão. Em suma, quero descobrir quem vive aqui quase mais do que eu. Às sete da manhã, numa das praças, um casal de pássaros canta como em liberdade. Não sabem que estão num gigantesco viveiro. Durante a noite, depois do fecho, outra população substitui as multidões do dia: os seguranças, os agentes da polícia, os operários das obras de requalificação que – sem culpa nenhuma – não me deixam dormir. É que a minha casa, uma antiga loja de sapatos onde montaram um apartamento, fica ao lado de uma intervenção que exige martelo pneumático. Embora com mais barulho, os operários trabalham o cimento como uma caneta trabalha o papel», continuou.
Este não é o primeiro projeto invulgar de Afonso Reis Cabral. Em adolescente, viajou de camião até à Alemanha e, mais recentemente, percorreu a pé os mais de 700 quilómetros da Estrada Nacional 2, uma experiência que deu origem ao livro «Leva-me Contigo».
Desta nova vivência deverá nascer um novo livro, que será integrado na coleção «Retratos» da Fundação Francisco Manuel dos Santos. O objetivo é observar o quotidiano do centro comercial, que o escritor descreve como uma «cidade dentro da cidade».