Camila Gómez Ares é uma das vozes que publicamente condenou o caso. IMAGO
Camila Gómez Ares é uma das vozes que publicamente condenou o caso. IMAGO

Escândalo de abuso e assédio sexual na Argentina já tem oito denúncias

Mais de 20 jogadoras acusaram selecionador das camadas jovens, mas FIFA arquivou o processo por falta de provas. Agora, às cinco atletas que decidiram avançar juntaram-se mais três com relatos arrepiantes de ameaças de morte e de violação

Três novas denúncias públicas juntam-se às cinco que já tinham sido apresentadas à FIFA contra o treinador argentino Diego Guacci. As jogadoras relatam um clima de intimidação por parte de Guacci e da sua esposa, que as processaram judicialmente.

O número de jogadoras que acusam o treinador argentino Diego Guacci de assédio e abuso sexual subiu para oito. Aos cinco casos já denunciados à FIFA em 2021, juntaram-se agora mais três testemunhos públicos, apresentados durante o evento «A voz na primeira pessoa: falam as jogadoras», realizado no Senado da Nação, na Argentina.

Durante o encontro, que durou duas horas, futebolistas e jornalistas desportivas relataram situações de abuso sexual, psicológico e assédio por parte de Guacci, revelou o Clarín. Recorde-se que, há quatro anos, a FIFA decidiu não sancionar o treinador, que na altura orientava as seleções femininas sub-15 e sub-17 da Argentina.

Aldana Videla Quintana, jogadora do Platense, foi uma das que quebrou o silêncio. «Ele assediava-me por causa da minha sexualidade, em cada treino repetia que o meu rendimento dependia de eu estar ou não com a minha parceira. Fazia-me entender que para estar na seleção tinha de ter os mesmos ovários que tinha para demonstrar a minha sexualidade publicamente, como se ser lésbica fosse mau. Mandava-me tomar banho sozinha, longe da equipa, num balneário gigante onde eu tinha medo que me acontecesse alguma coisa», contou.

Outro testemunho forte foi o de Florencia Mercau, jogadora do Morón, cujas palavras foram lidas pela advogada Andrea Lucangioli. «Quando cheguei ao River tinha 20 anos. O Diego Guacci assediava-me, pedia-me fotos nua e, se eu não as enviasse, não jogava. Dizia-me que, se eu contasse alguma coisa, me procuraria por céu e terra para me matar. Tive de deixar aquele clube que tanto amo por medo». A advogada explicou que a jogadora não esteve presente «pelo medo que ele lhe provoca» e revelou que Mercau «teve uma tentativa de suicídio e ainda não recuperou do que ele lhe fez».

Mabel Velarde, internacional pelo Equador, também falou: «Decidi falar ao fim de onze anos, faço-o pelas meninas, pelas novas gerações, pelas mulheres. É muito importante que existam processos de reparação, processos restaurativos e que as pessoas que transgridem limites possam assumir a responsabilidade pelas suas ações».

As denúncias originais, apresentadas em maio de 2021 através do sindicato mundial de futebolistas (FIFPRO), continham frases atribuídas a Guacci como «És capaz de te deixares violar para chegar à Seleção», «És uma fracassada. És horrível, gorda» e «Se voltarem a jogar assim, meto-vos nos chuveiros e f#%@*-vos pelo r@5€».

Segundo a advogada Lucangioli, apesar de os nomes das denunciantes não constarem no processo, Guacci descobriu as suas identidades e tornou-as públicas. «Ele e a sua esposa processaram quatro delas por danos e prejuízos, exigindo 25 milhões de pesos a cada uma. Não processaram a quinta jogadora porque ela tem muita documentação comprometedora no telemóvel, como fotos e mensagens que ele lhe enviava», explicou, acrescentando que quatro jornalistas desportivas também foram processadas pelo mesmo valor por terem noticiado o caso.

Luana Muñoz, jogadora do Club Belgrano de Córdoba e uma das primeiras denunciantes, afirmou no Senado que Guacci «representava um perigo muito grande» para as jovens da seleção e «para todas as mulheres e dissidentes que queiram participar no futebol profissional».

Gabriela Garton, ex-guarda-redes da seleção argentina, lamentou a revitimização. «Em vez de se procurarem formas de castigar as vítimas, é preciso encontrar formas de facilitar as denúncias, facilitar o processo e acreditar nas vítimas», defendeu.

Camila Gómez Ares, jogadora do Boca Juniors, concluiu com um apelo: «A mensagem que estão a passar é triste e perigosa: se falares, vais acabar pior do que estavas. Não podemos permitir que o futuro do futebol feminino seja o silêncio por medo».

Um grupo de jogadoras avançou com processos por calúnia e difamação contra o treinador Guacci, acusando-o de orquestrar uma campanha de intimidação após uma queixa de assédio ter sido arquivada pela FIFA por falta de provas. As atletas alegam que o técnico e a sua esposa estão a usar o caso para promover um projeto de lei contra «falsas denúncias», com o objetivo de silenciar futuras vítimas.

A origem do conflito remonta a 2018, quando várias jogadoras, ao saberem que Guacci assumiria o comando das seleções jovens femininas (Sub-15 e Sub-17), decidiram formalizar uma denúncia devido a comportamentos anteriores que consideravam perigosos. Após o Mundial de 2019, com o apoio da FIFPRO, foram recolhidos testemunhos de cerca de 20 mulheres que relatavam situações de assédio e abuso. No entanto, por receio de represálias profissionais e danos psicológicos, apenas cinco decidiram avançar.

O caso foi inicialmente analisado pelo Comité de Ética da FIFA, que recomendou uma sanção para o treinador. Contudo, a decisão final, tomada pela Câmara Adjudicatória, considerou as provas «insuficientes». É importante notar que as jogadoras não puderam recorrer desta decisão, uma vez que, nos processos administrativos internos da FIFA, não são consideradas «parte» no processo, sendo representadas pelo sindicato.

O relatório final da FIFA, com 40 páginas, ressalva explicitamente que a conclusão não deve ser interpretada como um reconhecimento da inocência do treinador nem como uma declaração de que este agiu em conformidade com o Código de Ética do organismo. As jogadoras e a sua advogada sublinham que, por se tratar de um processo administrativo e não judicial, termos como «absolvição» não se aplicam.

Por sua vez, o treinador Guacci defende-se, afirmando que as acusações fazem parte de uma «rede de falsidades» criada para arruinar a sua carreira e que tanto ele como a sua esposa são «vítimas de falsas denúncias». A sua mulher é, aliás, a principal impulsionadora de um projeto de lei contra «falsas denúncias», apresentado pela senadora Carolina Losada, o que as jogadoras veem como uma manobra para desacreditar as suas queixas.

Desde que a denúncia foi formalizada, as atletas afirmam ter sido alvo de «assédio, ameaças e campanhas de difamação» nas redes sociais por parte do círculo próximo do treinador. Em resposta, as jogadoras Luana Muñoz, Aldana Cometti e Camila Gómez Ares processaram Guacci por calúnia e difamação, por as ter usado como exemplo no referido projeto de lei no Senado e por uma campanha online liderada pela sua esposa.

A jornalista Agustina Vidal também avançou com um processo pelos mesmos crimes, por ter sido acusada de pertencer a uma «rede criminosa» contra o casal. Segundo a sua advogada, o trabalho das jornalistas limitou-se a «relatar o que a FIFA tinha feito e a expressar o seu desacordo».

A advogada acrescentou ainda que Florencia Mercau irá processar criminalmente Guacci por assédio, alegando que, após a sua história ter sido lida no Senado, o treinador acedeu ao seu perfil de Instagram «claramente como forma de ameaça», o que a deixou «em choque» e lhe provocou ataques de pânico.

«Estão claramente a usar o poder para atingir outro objetivo, para que as vítimas que ganham coragem pensem dez vezes antes de denunciar, para que o preço a pagar seja caríssimo», afirmou Agustina Vidal, uma das jornalistas processadas por Guacci e pela sua esposa.

A iniciar sessão com Google...