Pedro Neto fez 1-0 a meio da primeira parte. Foto António Pedro Santos/LUSA
Pedro Neto fez 1-0 a meio da primeira parte. Foto António Pedro Santos/LUSA

Ensaio geral firme e pouco brilhante. Mas a partir de agora é que conta (crónica)

Seleção vence com relativa segurança, longe de deslumbrar. Na verdade jogaram duas equipas, uma em cada parte. E agora é que vai ser a sério!

Portugal venceu a Nigéria por 2-1 no último ensaio antes do Campeonato do Mundo, em Leiria, num encontro que significou mais que o futebol em si, na medida em que contribuiu para auxiliar a recuperação da região Centro do País, fustigada no início do ano pela tempestade Kristin.

A equipa nacional jogou mais do que o suficiente para o triunfo e este até poderia ter sido mais alargado, mas isso, a sete dias da estreia no Mundial, não é o mais importante. O essencial foi perceber que existe foco e uma ideia de jogo.

Nos primeiros dez minutos jogou-se mais ou menos como no recreio da escola, tudo muito aberto e sem grandes preocupações táticas, equipas descontraídas a ver o que a coisa daria. Poderia ter dado Portugal aos 2 minutos, num remate de Ronaldo, ou Nigéria aos 7, com Diogo Costa a blocar com segurança uma tentativa de Adams. E aos 10 aconteceu qualquer coisa parecida, outra vez com Adams ao barulho.

Por volta do quarto de hora chegou ordem à mesa, sob a batuta da dupla parisiense João Neves-Vitinha, a alternar nas saídas para o ataque e na solidez de uma boa circulação de bola portuguesa. Francisco Trincão e Bruno Fernandes davam continuidade ao fluxo, Ronaldo e Neto entravam no carrossel e Portugal dominava.

Sem precisar de pressionar muito alto, o 4x2x3x1 da Seleção recuperava a bola cedo e sucediam-se as investidas junto da área africana. Em mais um episódio de posse de bola e passes sucessivos, Pedro Neto fez 1-0 após triangulações a envolverem Ronaldo, Trincão, Dalot e Neto.

Até ao empate, surgido de uma sucessão de erros na última linha nacional (primeiro Inácio, depois Dalot, perante maior proatividade de Adams, que acabaria por encostar para o golo), Portugal somou bons movimentos e oportunidades para resolver de vez as contas de Leiria. Umas a partir de bola parada, outras a partir dos movimentos de Trincão. A verdade é que se chegou ao intervalo com tudo a nulos e esperavam-se, então, as mudanças prometidas por Martínez na rotatividade dos jogadores de campo.

Ficaram Diogo Costa e Cristiano Ronaldo, o resto mudou tudo. Tudo? Não — a ideia de jogo manteve-se, embora em espelho: se o 4x2x3x1 da primeira parte tinha em Trincão o elemento que vinha da direita povoar o centro e criar momentos, o da segunda inverteu para um João Félix que derivava da esquerda para o meio, com Francisco Conceição mais apegado à linha. A verdade é que Félix, no mesmo minuto (logo aos 48), esteve muito perto do golo, e se calhar com VAR ou tecnologia da linha de fundo o segundo remate teria mesmo contado.

Sempre com um dos médios a juntar-se aos centrais para a saída de bola, Portugal foi dominando, com firmeza mas sem grande brilho. Cristiano Ronaldo ia-se mantendo em campo mas perdia algum fulgor que tinha demonstrado na primeira parte, o que motivaria, mais tarde, a entrada de Gonçalo Ramos.

A 15 minutos do final, Francisco Conceição decidiu pintar mais um quadro de assinatura inconfundível, fletindo da direita para o meio e rematando de pé esquerdo para o segundo poste sem perguntar primeiro ao defesa ou ao guarda-redes se estavam preparados. Ficou aí garantida a vitória, que nem era o mais importante da noite.

Além da solidariedade face aos infortúnios do inverno, importava a Portugal sair com a convicção de que tem bases sólidas para tentar uma boa campanha no Mundial. E isso aconteceu. Agora vem a competição, e agora é que vai mesmo contar...

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