Editorial: Acima do clube não está ninguém
Há cerca de dois meses, quando começou a perceber-se que o Benfica estava a formar um plantel com pelo menos duas opções de valor aproximado para cada posição, escrevi em A BOLA que essa política iria representar «um teste à liderança do treinador, e outro à coesão do balneário». A situação com Odysseas Vlachodimos, que confrontou Roger Schmidt por ter perdido a titularidade depois do jogo do Bessa, veio, se calhar mais cedo do que se esperaria, colocar à prova o técnico alemão e, além da unidade do grupo de trabalho, testar a sensibilidade e agilidade da SAD.
Com o devido respeito pelos direitos dos jogadores, há no futebol uma relação bem hierarquizada entre eles e o treinador, este escolhe quem joga, e os outros dão o melhor dentro de campo. Se não for assim, se o técnico não mostrar força quando deve e tiver dois pesos e duas medidas, mais cedo ou mais tarde é inevitável que o caldo se entorne. Veja-se, por exemplo, o que se passou entre Guardiola e Cancelo. Alguém duvida que o lateral português, um top mundial, não tinha lugar no City? Claro que não. E mesmo assim Guardiola decidiu prescindir dos seus serviços, primeiro encaminhando-o para Munique e agora procurando vê-lo em Montjuic. Porquê? Porque João Cancelo questionou a autoridade do treinador perante o grupo e, das duas uma, ou ganhava o jogador e o restante plantel deixaria de ver o técnico com os mesmos olhos, ou impunha-se Guardiola e, assim, continuaria a ter a equipa na mão.
Roger Schmidt está perante um dilema semelhante. Vlachodimos, ao longo de cinco anos, foi importante em inúmeras ocasiões e ficará na história como um dos bons guarda-redes que defenderam a baliza dos encarnados, mas esse facto, embora insofismável, não altera o quadro em que o treinador deve movimentar-se.
E é aqui que entra a agilidade da SAD que, para minimizar danos, precisa de encontrar solução satisfatória para Vlachodimos, por empréstimo ou definitiva, fora da Luz e, em contrarrelógio, contratar mais um jogador para a mais ingrata das posições no futebol. Se há, no universo encarnado, alguém que perceba, em todas as vertentes e nuances, o que está em jogo neste momento, é Rui Costa, que esteve em balneários apinhados de estrelas (como ele), e lidou com alguns dos melhores treinadores do mundo. O presidente do Benfica sabe, melhor que ninguém, que não há quem possa estar acima do clube, sob pena de o castelo se desmoronar, como se fosse de cartas.
A única solução em que todos - Vlachodimos, Schmidt e Benfica - podem sair a ganhar, passa pela partida do guardião grego, em condições dignas, e para um clube de primeiro plano internacional. Caso contrário, não só será sempre uma pedra no sapato de Roger Schmidt, como um fator de instabilidade no clube: porque se vier a jogar dirão que o treinador é fraco; e se não jogar haverá quem acuse o técnico de vingativo. E com Anatoliy Trubin no plantel, a que se junta Samuel Soares, que está a ter uma real oportunidade de afirmação, (e um terceiro elemento, se Vlachodimos sair) o Benfica poderá dormir descansado quanto à defesa da sua baliza.