Com Artur Jorge ao leme, o FC Porto superou eliminação traumática da Taça das Taças frente ao Wrexham, em 1984 - Foto: A BOLA
Com Artur Jorge ao leme, o FC Porto superou eliminação traumática da Taça das Taças frente ao Wrexham, em 1984 - Foto: A BOLA

Dos fracos não reza a história

'Tribuna livre' é um espaço de opinião em A BOLA aberto ao exterior, este da responsabilidade de José Neto, Metodólogo de Treino Desportivo; Mestre em Psicologia Desportiva; Doutorado em Ciências do Desporto; Formador de Treinadores FPF/UEFA; Docente Universitário – Universidade da Maia; Embaixador nacional da Ética e Fair Play no Desporto

«Os seres humanos são maravilhosamente imprevisíveis. Quando colocados num estádio e as suas esperanças e medos são expostas perante milhares de espectadores, são capazes de fazerem coisas extraordinariamente interessantes ou potencialmente inoperantes.»

Patmore C. (1823-1896)

«O rendimento ótimo tem muitas vezes como primeiro obstáculo a incapacidade de o jogador ultrapassar o seu próprio receio para enfrentar a competição. Por vezes existe uma diferença abismal em participações excelentes no treino, com performances verdadeiramente chocantes nas competições realizadas. É como se tudo fosse desaprendido ou esquecido.»

Buceta, J. M. (1996)

«Uma das grandes dúvidas de um treinador de hoje é saber como se pode ir além da motivação dos seus jogadores, como é possível tornar o grupo impermeável a pressões que chegam de fora, como ajudar o jogador a ter mais confiança em si próprio e a ter menos medo dos momentos decisivos, como conseguir alta competência a elevadíssimos níveis de pressão psicológica.»

Artur Jorge (1987)

Perante as reflexões acima expressas, muito em especial a que se refere a Artur Jorge (no momento meu líder da equipa técnica no FC Porto), que me moveu um extravasante entusiasmo, no sentido de partir para uma viagem de sonho no estudo desenvolvido (1994/1997) no primeiro Mestrado em Portugal em Psicologia Desportiva na Universidade do Minho, superiormente orientado pelo Professor Doutor José Cruz. Frente a uma notável equipa de docentes (nacional e internacional), permitiu-me olhar a dinâmica do treino absolutamente contextualizada no valor do homem para além das vertentes físico e biológicas e que mais tarde (2004/2011) conferi com o esfuziante apoio do meu tão amado e saudoso Professor Doutor Manuel Sérgio, associando a magistral competência técnico pedagógica e científica dos Professores Doutores Pedro Guedes de Carvalho e José Antunes de Sousa, o Doutoramento em Ciências do Desporto, com base na temática do Futebol estudado à luz da motricidade humana no reencontro com o sucesso.

De facto e de acordo com algumas estratégias, que ao longo do tempo procuro explorar perante os meus estimados e distintos leitores, volto a reafirmar que tudo é treinável. Através duma dinâmica de intervenção (no campo e fora dele também), é possível a reconstrução dum modelo operacional de treino, que, após a avaliação de várias competências dos jogadores, podemos atestar comportamentos, ajustar desejos, invocar convicções e partir para uma viagem onde habita o sucesso.

Mais do que apelar para as condicionantes de ordem biológica, fisiológica, atlética ou funcional, devemos controlar os pensamentos que, submetidos ao primado duma consciência mobilizadora para a conquista de objetivos, que podem ser difíceis, mas encorajadores, os jogadores colocam em campo um estado de bravura dum guerreiro e, movidos por uma cultura de honestidade, autenticidade, ética, resiliência e altruísmo, podem aperfeiçoar os seus desempenhos.

A capacidade humana para superar adversidades é fenomenal. Então quando entramos no domínio da conquista desses valores que colocam na história do tempo a circunstância de ser validada pela conquista do aplauso, ficamos perante uma vigilante expectativa.

No conjunto da recente eliminatória da Taça de Portugal verificámos que uma grande parte das equipas que teoricamente se definiam como mais frágeis renovaram perante adversários potencialmente mais fortes um estímulo avassalador. O resultado confirma que 43% das equipas da I Liga foram afastadas por equipas do escalão inferior, sendo duas do Campeonato de Portugal e três da Liga 3, não deixando de referir outras equipas de escalão inferior, que obrigaram a prolongamentos na eliminatória.

Sanjoanense, Fátima, Mafra, Tondela, Aves SAD e Paredes merecem por isso especial destaque nos confrontos com equipas a disputarem a I Liga do futebol profissional, respetivamente: Nacional, Académico de Viseu, Santa Clara, Alverca, Moreirense e Famalicão… e o que acontecerá na próxima eliminatória, quando entrarem em cena os clubes que estão a disputar as provas internacionais!...

Perante estes factos registados, vem-me à memória o célebre segundo jogo da eliminatória da Taça das Taças entre FC Porto e Wrexham (quarto escalão inglês), no Estádio das Antas, a 3/10/1984, em que embora vencendo o jogo (4-3), tendo em conta o resultado negativo da 1.ª mão (0-1), fomos eliminados, colocando em desespero os adeptos e a estrutura do FC Porto, onde eu estava inserido.

Recordo que Artur Jorge, João Mota, Octávio Machado e eu próprio parece que ficámos bloqueados pelo silêncio, com o olhar vítreo e respiração ofegante, sentados no gabinete no final do jogo até às tantas da madrugada.

Lembro-me bem que planificámos um estágio de dois dias antes do encontro seguinte do campeonato com a Académica e, nesse jogo em Coimbra, numa tarde que chovia que Deus a dava, e com dificuldades acrescidas, perante um relvado absolutamente encharcado, vencemos por 3-0.

Creio que essa eliminatória internacional marcou de forma decisiva essa época e as posteriores. Tivemos a humildade para admitir que e como errámos, a inteligência coletiva para com o erro aprender, e a disciplina para o corrigir, e fizemos dessa mesma angústia o trampolim para alcançar os sucessos do futuro. Consagramo-nos campeões nacionais nessa época, repetimos na seguinte o bicampeonato e na seguinte vencemos a Taça dos Clubes Campeões Europeus (Viena, 27 de maio de 1987). No ano seguinte, com Tomislav Ivic no comando, vencemos quatro títulos: Campeonato Nacional, Taça de Portugal, Supertaça Europeia e Taça Intercontinental no Japão.

Como é que um resultado tão dramático referente a uma eliminatória absolutamente inconcebível foi capaz de criar um sentimento coletivo absolutamente transcendental, em que fomos ao fundo da alma e dela sacar tudo o que nos restava!...

Ilustrada a história que o tempo jamais deixará esquecer e voltando agora ao nível interno nos jogos referentes à recente eliminatória da Taça de Portugal, penso que, à medida que os resultados se iam mostrando favoráveis para estas equipas consideradas hipoteticamente mais fracas, se foi transformando num sentimento de orgulho participativo exemplar e como sabemos quando a crença como força motora de intencionalidade operante se converte em convicção profunda, os resultados o confirmam.

Por outro lado, as equipas que tinham obrigatoriamente a necessidade de demonstrar a sua superioridade e ganhar, vendo por parte do adversário um comportamento balizado pela excelência competitiva, foram baqueando pela maldita crise de ansiedade participativa, acusando um estado de perturbação e negligência emocional com as consequências conhecidas.

Quanto a mim, e como o tenho referido, quando o medo de perder supera a vontade de ganhar, perde-se quase sempre, os nervos e a angústia fazem aumentar o estado de fadiga e o tempo de jogo avança como um pesadelo demolidor.

Entusiasmo, confiança, alegria, felicidade, otimismo, foram gerando um ciclo virtuoso onde se viram estimulados os mecanismos do encontro com o êxito pensado para o sucesso conseguido, transferindo para a oportunidade rara de poder fazer o jogo das suas vidas e dando razão ao ditado português bem conhecido de que... dos fracos não reza a história.

Interessante será agora continuar a estudar o estado competitivo dessas equipas nas provas dos seus campeonatos e verificar o estado comportamental em relação ao rendimento e resultado. Um bom indicador para qualificar as razões que estarão ou não patentes no registo da sua verdadeira identidade.

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