Do abalo à reviravolta épica
Há noites em que o futebol deixa de ser apenas jogo e passa a ser uma experiência. Alvalade viveu uma dessas noites esta terça-feira. São momentos como este que tornam o desporto, e o futebol em particular, algo tão apaixonante. Uma reviravolta épica que marca não só a passagem aos quartos de final da UEFA Champions League, mas, acima de tudo, a personalidade e atitude coletiva da equipa. Mais uma vez, a psicologia ajuda-nos a compreender como a mente humana responde ao desafio, revelando que, sob determinadas condições, somos capazes de superar limites que, à partida, parecem intransponíveis.
O desporto de alto rendimento raramente se constrói em linha reta. Analisemos a sequência. O Sporting vai a Braga e deixa escapar a vitória ao permitir o empate já nos minutos finais, este não é um empate qualquer, pois não permite aproximarem-se do título quando os adversários diretos se confrontam e onde o clube poderia ganhar vantagem entre ambos aproveitando também a igualdade nesse jogo. É claro que em termos psicológicos isto abala a equipa, o tempo e as oportunidades tornam-se cada vez mais curtos para conseguir atingir o título e inevitavelmente isso ecoa na mente dos atletas podendo mesmo conduzir a dúvidas internas e overthinking.
Dias depois, na Noruega, num contexto exigente e adverso, a equipa foi derrotada por 3-0. Neste caso, depois do resultado anterior, basta o primeiro golo do adversário para que o efeito psicológico se sinta. As memórias negativas coletivas são desencadeadas e isso é o suficiente para uma diminuição da perceção de controlo, acompanhada por maior hesitação na tomada de decisão e por um aumento do ruído cognitivo.
A confiança deixa de ser um dado adquirido e passa a ser uma variável instável, vulnerável ao contexto e ao resultado imediato. E isto explica não só o resultado desfavorável, mas também a exibição desastrosa da equipa contra o Bodo/ Glimt. 3-0 era um resultado pesado que rapidamente alimentou a perceção de que a passagem aos quartos de final da UEFA Champions League estaria fora de alcance. As críticas à equipa e treinador não tardaram e foram bem audíveis e visíveis.
Este resultado poderia ditar claramente o fim da época para o Sporting Clube de Portugal, não pelo afastamento da equipa nos oitavos de final da Champions, pois isso não envergonharia ninguém, mas sim pela forma como esta sequência poderia afetar a dimensão psicológica. A forma como estes acontecimentos são interpretados pode deslocar a equipa de um estado de desafio ou para um estado de ameaça.
A equipa claramente preferiu o desafio. Perante a derrota pesada, a equipa conseguiu reconfigurar o seu estado psicológico coletivo, transformando um momento potencialmente negativo numa oportunidade de afirmação. Isto não seria possível num grupo sem coesão! A solidez, a coesão e o espírito de corpo muitas vezes invisíveis em momentos de estabilidade foram a alavanca para esta recuperação.
Esta reviravolta surge também de outro fator, a resposta emocional às críticas, que não afetaram negativamente o grupo, pelo contrário, tornaram-se alicerce à união e à sua defesa, ampliando a crença partilhada de que era possível inverter o cenário, canalizando a pressão externa para foco e compromisso interno.
Já durante o jogo, as sucessivas oportunidades de golo foram funcionando como sinais progressivos de validação dessa crença, culminando no primeiro golo, que teve um efeito decisivo ao nível da perceção coletiva. Foi nesse momento que se consolidou um novo estado psicológico: a equipa passou a acreditar de forma inequívoca que era capaz.
Instalou-se um momento psicológico positivo, traduzido em maior confiança, fluidez na tomada de decisão e eficácia na execução, que sustentou o desfecho expressivo que se seguiu.
Nem todas as vitórias se explicam só pelo jogo ou pelo talento. Algumas explicam-se pela forma como uma equipa acredita quando tudo parece improvável. O futebol joga-se com os pés, mas a mente ajuda a decidir. E o que se viveu em Alvalade, esta terça-feira, foi a prova disso mesmo.
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