Entre o sucesso e o risco: duas faces da alta competição
A alta competição desportiva ocupa hoje um lugar central na sociedade contemporânea e revela talvez um dos maiores paradoxos do desenvolvimento humano: pode ser simultaneamente uma escola de excelência e um terreno fértil para vulnerabilidades psicológicas. Sim, hoje não me apeteceu escrever sobre os temas quentes do desporto nacional, mas sim refletir mais sobre um dos objetivos do desporto: o desenvolvimento humano.
O percurso desportivo de alto rendimento contribui para o desenvolvimento de competências psicológicas e comportamentais chave. Entre estas competências destacam-se a disciplina, a definição e monitorização de objetivos, a autorregulação emocional, a gestão do tempo, a resiliência perante o fracasso e a capacidade de trabalhar em equipa. Estudos sobre transição de carreira de atletas demonstram que estas competências facilitam a integração no mercado de trabalho e estão associadas a níveis mais elevados de empregabilidade e liderança em contextos organizacionais. Ou seja, de uma forma extremamente positiva, alguns fatores críticos do alto desempenho, como a pressão extrema e constante, mas não só, promovem o desenvolvimento de recursos psicológicos, como a forte orientação para resultados, elevada tolerância à frustração e uma capacidade notável de persistir perante adversidades, que são igualmente valorizados em contextos profissionais de elevada exigência.
Contudo, a mesma intensidade que promove o desenvolvimento destas competências pode também constituir um fator de risco para a saúde mental dos atletas. Nos últimos anos, a investigação em psicologia do desporto tem alertado para a prevalência significativa (entre os 6% e os 34% dependendo da modalidade e momento da carreira) de sintomas de ansiedade e depressão em atletas de alto rendimento. Fatores como a pressão competitiva, o medo da falha, as lesões, a exposição mediática e a instabilidade associada à carreira desportiva são frequentemente identificados como determinantes relevantes. A estes, juntam-se ainda a identidade desportiva (construção da identidade pessoal em torno do desempenho desportivo) e a cultura desportiva, na qual muitas vezes impera uma norma implícita de invulnerabilidade psicológica.
A alta competição continuará inevitavelmente associada à exigência, à pressão e à busca constante pela excelência, porque faz parte, porque é isso que nos apaixona. No entanto, reconhecer que o sucesso desportivo tem duas faces, uma que potencia o desenvolvimento humano e outra que pode gerar vulnerabilidade, permite promover uma abordagem mais equilibrada que facilite aos atletas alcançar o máximo desempenho sem comprometer o seu bem-estar psicológico.