Do 80 ao 8
Dou hoje início ao meu texto, e porque apenas agora tenho oportunidade de o fazer publicamente, deixando palavras de profundo lamento pelo falecimento de Luís Azevedo. Expresso os meus sentimentos à sua família e amigos, transmitindo-lhes uma mensagem de coragem e de força neste momento de tremenda dificuldade. Que possam encontrar conforto na memória e no legado que o Luís deixa e que o Luís possa descansar em paz.
Há duas semanas, no dia da publicação do meu último artigo neste espaço, em véspera de Benfica-Braga na meia-final da Taça da Liga, estaria longe de adivinhar a sucessão de acontecimentos que se seguiriam.
Nesse texto, procurava dar voz a alguma frustração com resultados recentes, apelando a um aumento no nível de exigência. No dia seguinte, o Braga foi significativamente superior ao adversário e garantiu, inequivocamente, a passagem à final. Uma exibição superlativa de Rodrigo Zalazar catapultou a equipa e voltáramos a ver uma das melhores versões do Braga na época.
Sábado, dia 10 de janeiro, era já um dia histórico. O dérbi do Minho, o melhor dérbi do País, tomou por assalto o palco da Taça da Liga, com os dois rivais a sobreporem-se aos três autoproclamados grandes, contrariando as projeções e desejos dos demais. O Vitória chegava com o moral em alta, depois de uma reviravolta algo fortuita nos descontos contra o Sporting, mas foi insuficiente perante o domínio braguista nos primeiros 45 minutos. Foram várias as oportunidades de golo criadas, com escasso aproveitamento. Eis que, novamente, a equipa de Carlos Vicens mudou ao intervalo. Do 80 passou para o 8.
Uma abordagem apática, excessivamente cautelosa e sem personalidade, de muito difícil compreensão. O adversário acabou por empatar através de um lance muito peculiar, com intervenção inesperada do VAR, e ganhou confiança, sem capacidade de resposta anímica da equipa do Braga. Seguiram-se minutos de pouco futebol, com um segundo golo vitoriano a surgir novamente de bola parada.
Tudo o que se sucedeu a partir do minuto 86 é, no mínimo, revelador da superioridade bracarense. Em pouco mais de 10 minutos, foram criadas três claras oportunidades de golo, a última das quais com uma defesa assinalável de Charles ao único penálti desperdiçado por Zalazar em terras portuguesas. A sorte sorriu aos de Guimarães, para quem esta competição acabou por ganhar um valor que muitos não acreditavam que ela tivesse.
Ora, seria de prever que a resposta dos jogadores do Braga fosse o mais contundente possível. Sem tempo a perder, e sem a possibilidade de sarar as feridas, havia jogo em Fafe, a eliminar. Apesar de uma forte onda de apoio na bancada, a equipa voltou a apresentar-se num registo similar, de apatia, indiferença e desleixo.
Uma exibição tremendamente desrespeitosa para o símbolo que carregam ao peito culminou numa humilhante eliminação, frente a uma equipa de um escalão inferior, e consequente desperdício de uma oportunidade de regressar ao Jamor. Nem o mais pessimista dos adeptos do Braga adivinharia, ao intervalo do jogo em Leiria, que, em breve, ambas as taças estariam de fora do seu alcance.
A contestação sobre Carlos Vicens voltou a níveis elevadíssimos, altura em que António Salvador, enquanto figura principal do clube, veio a público responsabilizar-se pela indigna prestação da equipa, sem deixar de contestar e de assinalar a paupérrima atitude apresentada por alguns dos intervenientes.
Ficou claro, e bem, que Vicens é visto por Salvador como um nome de futuro, mas que esta sequência de acontecimentos e exibições não pode, nem deve, ser repetida. Num clube que se quer em crescimento, e num processo de mudança que se prevê ascendente, serão normais os erros de percurso. A presença em finais, significará, invariavelmente, a derrota em finais, umas mais amargas que outras. Que os jogadores consigam virar a página e levantar a cabeça, porque ainda há muito para jogar, uma imagem a limpar no campeonato e uma UEFA Europa League para aproveitar.
Não podia deixar de realçar, novamente, que o dérbi do Minho é, à data, o melhor do futebol português. A final de Leiria, pautada por mútuo respeito, foi extremamente rica tanto dentro do campo, como nas bancadas. Apoio inexcedível de parte a parte e imensa emoção no relvado. Exceção feita às inenarráveis atitudes de um dos capitães do Vitória SC (Nélson Oliveira), que, de forma indigna, e num momento que deveria ser de celebração com os seus colegas de trabalho, optou unicamente por dirigir gestos e palavras puramente provocatórias e grosseiras na direção dos adeptos adversários.
Esta sequência de jogos levou o Braga, e os seus adeptos, do 80 ao 8. Desânimo e desesperança serão, neste momento, palavras de ordem. Que do 8 se consiga volta ao 80 com a maior brevidade possível. Apoio não faltará. Falta responder e recuperar confiança. De dentro para fora.