Das distritais para a Liga em menos de dois anos: «Já sabia que era melhor do que os outros»
O duelo contra o Casa Pia (0-1), desta segunda-feira, teve sabor amargo, já que marcou o regresso às derrotas no D. Afonso Henriques - e logo na despedida na presente temporada. Ainda assim, duas estreias conseguiram adocicar um bocadinho a noite…
Um dos debutantes foi Zeega. O campeão da Europa e do Mundo de sub-17 por Portugal (em 2025), entrou ao minuto 59, rendendo Gonçalo Nogueira, e tornou-se no mais novo de sempre a jogar de Rei ao peito, na Liga, com 17 anos, seis meses e seis dias, neste século. O menino superou Herculano Nabian, lançado por Pepa em agosto de 2021, quando tinha 17 anos, seis meses e 14 dias, numa partida contra o Portimonense (0-1).
O médio começou a época nos sub-19, mas, logo no início, foi recrutado por Gil Lameiras para a equipa B, pela qual cumpriu 22 encontros e marcou um golo. Desde a Era Luís Pinto, Zeega já tinha sido chamado várias vezes aos treinos da equipa principal. Teve agora oportunidade de brilhar - e fê-lo destemidamente.
O centrocampista, de 17 anos, ficou a milímetros do golo, aos 83’ (com o jogo ainda em 0-0), através de um belo remate de fora de área. Fletindo da esquerda para o meio, o craque rematou em arco de pé direito, com o esférico a passar muito perto do ângulo esquerdo da baliza dos gansos. Teria sido memorável.
A rápida ascensão «do Chico»
O outro estreante foi Francisco Dias. O lateral-esquerdo, de 23 anos, roubou o lugar a João Mendes - o jogador dos vitorianos com mais minutos (2790) nesta temporada - e foi titular. Há dois anos, este defesa estava no Povoense, da AF Lisboa, a descer para a segunda divisão distrital.
A A BOLA esteve à conversa com Nuno Lopes, mister «do Chico» (como o trata, carinhosamente) na Póvoa de Santa Iria, que recordou as qualidades do ala: «Percebemos logo que era um jogador diferenciado, com capacidade para atingir outros patamares. Era de fácil perceção. Já na altura era muito forte nos processos defensivo e ofensivo, era rápido, ganhava bem a profundidade, era intenso e forte no transporte, e depois tinha uma boa capacidade de cruzamento.»
«Essas são as melhores armas do Chico», prosseguiu o técnico, admitindo que não ficou espantado com o facto de ter chegado tão rápido à Liga. No início da temporada passada, Francisco Dias mudou-se do Povoense para o Sintrense, do Campeonato de Portugal. As boas exibições despertaram a atenção da estrutura vitoriana e o lateral voou para a cidade berço em janeiro de 2025, para integrar a equipa B.
«Quando soube que ele tinha ido para a equipa B do Vitória de Guimarães, achei que ia chegar à equipa principal. Achei que o facto de passar a trabalhar com os melhores lhe daria uma grande margem de progressão. Quando treinas com os melhores, acabas sempre por ser mais competitivo, e essa era uma das fragilidades que, às vezes, percebia nele. Como ele também sabia que era melhor que os outros, poderia não ter a rentabilidade exigida no treino. Portanto, ao treinar com os melhores, iria, com certeza, ficar mais forte e atingir patamares superiores», afirmou o treinador.
Há duas épocas, Nuno Lopes assumiu o Povoense a oito jornadas do final do campeonato (depois de ter lá estado na temporada anterior e treinado Francisco Dias). No entanto, já não conseguiu livrar a equipa da descida - e muito por culpa do atual jogador dos conquistadores: «Na reta final, quando assumi a equipa, não pude usar muito o Chico, porque teve uns problemas físicos e essa até foi uma das causas para não termos conseguido a manutenção, porque a equipa era muito dependente dele.»
«Nas distritais, há muitos Franciscos»
O atual treinador do Santa Iria revelou haver muitos mais atletas com qualidade para atingir a Liga «perdidos» nas distritais, considerando que os grandes clubes deviam arriscar mais na aposta neste tipo de jogadores: «Há muitos Franciscos pelas distritais, este não é um caso único. Acho que, se os clubes chamados grandes estiverem atentos, encontrarão muitos. O scouting se calhar até é feito, mas depois acho que há medo de arriscar.»
Ainda sobre o seu Chico, Nuno Lopes afirma estar «muito contente», perspetivando que «ainda pode ir mais longe».