Da festa à fresta
Neymar quer ir ao Mundial. E bater penáltis na Kings League. E fazer cruzeiros com os amigos e amigas. E jogar póquer com os parças. E curtir o carnaval. E ir para a balada sem que ninguém o recrimine. E que toda a gente esteja de acordo com ele mesmo quando joga mal, joga pouco ou nem joga.
Neymar, que assinou o primeiro contrato no início da adolescência, logo por valores muito acima da média salarial dos brasileiros, e depois foi multiplicando o valor por dois, por dez, por mil, por um quadrilhão, não passa, aos 34 anos, de uma criança mimada. Daquelas que faz birras se não comer o bolo, o chocolate e o gelado, daquelas que não entende que antes do bolo, do chocolate e do gelado tem de comer a sopa e o arroz e o feijão.
Maradona também adorava o lado chocolate da vida. Ronaldo Fenómeno idem. Mas quando um sentiu que era a sua oportunidade de conquistar o mundo fez um intervalo de todos os vícios para se preparar, com a faca entre os dentes, para o Mundial dele. E o outro comeu, em vez de chocolate, o pão que o diabo amassou para recuperar do joelho.
Bilardo e Scolari escancararam-lhe, por isso, as portas dos Mundiais de 1986 e 2022. Ancelotti, mal chegou ao Brasil, deu sinais de que estava disposto a fazer o mesmo por Neymar. Mas agora, sem mais nenhum jogo do Brasil e míseros 14 do Santos até à convocatória final de 18 de maio, a Neymar resta-lhe uma fresta.
Guarda-redes serão três: Alisson, certo, e dois de entre Ederson, Bento ou Hugo Souza. Laterais cinco, Wesley e Militão (caso o merengue não esteja apto, será Ibañez o central-lateral substituto), Alex Sandro e Douglas Santos, com Danilo Luiz para ambos os lados. Aos titulares Marquinhos e Gabriel Magalhães vão juntar-se mais dois zagueiros de entre meia dúzia de candidatos.
No meio, há lugar para um sexteto com Casemiro, Fabinho, Bruno Guimarães, Andrey Santos, Paquetá e Danilo Santos certos ou quase certos.
No ataque, os concorrentes, ao contrário da estrela santista, bateram com fé à porta de Carletto e foram entrando, pedindo licença, mas mostrando trabalho. Desde logo, Vinícius Jr e Raphinha, da elite mundial do futebol; depois, Estêvão, Matheus Cunha, João Pedro mais Gabriel Martinelli, todos na exigente Premier League; e agora, nesta última data FIFA, Endrick e Luiz Henrique.
Oito atacantes, já não cabe mais ninguém, provavelmente nem Richarlison, nem Igor Thiago, nem Rayan, nem, claro, o lesionado Rodrygo.
Agora, para Neymar ir ao Mundial só por uma fresta. Caso vá, fará uma festa. E se não for provavelmente também.
Neymar não passa, aos 34 anos, de uma criança mimada. Daquelas que faz birras se não comer o bolo, o chocolate e o gelado