«Messi é um génio, Cristiano Ronaldo não nasceu assim... mas fez-se»
Luiz Felipe Scolari voltou a falar de Cristiano Ronaldo e deixou vários episódios e elogios ao capitão da Seleção de Portugal, com quem trabalhou entre 2003 e 2008. Numa entrevista ao programa Abre Aspas, o treinador brasileiro recordou o primeiro contacto com o avançado português, a dedicação obsessiva ao treino e até o momento em que lhe deu a notícia da morte do pai.
Felipão começou por explicar que nem sequer foi ele quem descobriu Cristiano Ronaldo. «Foi o Murtosa [adjunto] e o Paulo Bento. O Paulo tinha dito ao nosso diretor que tínhamos de olhar para aquele jogador. Eu dizia: ‘Vou olhar para um jogador de 17 anos? A Seleção Portuguesa tinha o Quaresma, o Simão…’. Mandei o Murtosa ir ver os jogos dele. Depois surgiu a oportunidade e ele foi convocado. No segundo jogo marcou logo. Foi convocado pelas qualidades dele, mas foi o Murtosa que incentivou.»
«É uma pessoa espetacular. Tudo aquilo que vocês conhecem dele é real. É um tipo vaidoso, veste-se bem, arranja-se… Mas o que ele faz de solidariedade e ajuda a muitas entidades ninguém sabe. É espetacular.»
O técnico contou ainda uma conversa curiosa com Lionel Messi sobre a Bola de Ouro, explicando porque sempre privilegiou Cristiano Ronaldo nas votações. «O Messi disse-me: ‘Chefe, nunca votou em mim para a Bola de Ouro, votou sempre no Cristiano’. E eu respondi: ‘Tenho de votar no Cristiano, ele é como um filho para mim’. O Messi é um génio. Se fechar os olhos, sabe onde a bola está. O Cristiano não nasceu génio. Fez-se génio pela vontade e pela dedicação.»
O antigo selecionador português falou também da obsessão do craque português pelo treino e revelou um episódio com Alex Ferguson, na altura em que Cristiano representava o Manchester United: «O Ferguson ligava-me e dizia: ‘Felipão, diz-lhe para não bater faltas hoje, porque ele já chutou 30 aqui’. E depois ele chegava à Seleção e queria bater mais 30. Eu dizia: ‘Pelo amor de Deus, já fizeste isso’. Mas essa é a dedicação dele.»
«Estive com ele há um ano e perguntei-lhe: ‘Estás a trabalhar por causa dos mil golos? Vais mesmo atrás disso?’. E ele respondeu-me: ‘Não, professor, não’. E eu disse-lhe: ‘Ah… não me enganas.' Ele estava na Arábia Saudita e dizia-me: ‘Estou satisfeito, tratam-me maravilhosamente bem’. Mas eu sei que ele está a trabalhar para chegar aos mil golos. Acho que vai conseguir. Ele tem uma dedicação especial. Desde criança, quando saiu da ilha para perseguir este sonho.»
Um dos momentos mais emocionais da entrevista surgiu quando Scolari recordou o dia em que comunicou a Cristiano Ronaldo a morte do pai, antes de um jogo da seleção portuguesa na Rússia. «Chamaram-me e disseram-me o que tinha acontecido. Achei que tinha de ser eu a dar-lhe a notícia. Chamei-o ao meu quarto, abracei-o, chorei com ele e disse-lhe que estava livre para ir embora. E ele respondeu: ‘Primeiro a Seleção. O meu pai gostaria que eu jogasse’. E foi o melhor em campo nesse jogo. Foi assim que passei a ter uma amizade maior com a família também.»
Em defesa de Abel
Na mesma entrevista, Felipão também saiu em defesa de Abel Ferreira, treinador do Palmeiras, garantindo que compreende perfeitamente a personalidade do técnico português. «O Abel sempre foi assim. Uma pessoa preocupada com o dia a dia e com tudo o que o rodeava. Lembro-me de que já se preocupava com certas coisas naquela altura, ainda como jogador. Gostava de falar, conversar, pedir uma coisa ou outra pelos colegas.»
«Hoje, vejo o Abel, em determinadas situações, a reagir exatamente como reagiria se estivesse em Portugal ou se ainda fosse jogador. Lembro-me bem dele nessa altura. Por isso compreendo, aceito e acho que, às vezes, possa agir de forma mais impulsiva, tal como eu também agi em algumas ocasiões. Não me arrependo, era a minha maneira de ser. Aconteceu. Mas acho que ele é um homem preocupado e autêntico desde essa altura.»
A história com Luís Filipe Vieira e Diego Souza
Já perto do final da conversa, Scolari recordou também uma história envolvendo Luís Filipe Vieira, antigo presidente do Benfica, e a contratação de Diego Souza pelo Grêmio.
«Estava em Portugal, fui jantar com o Mano Menezes e com o Luís Filipe Vieira. O Diego Souza foi oferecido ao Grêmio, mas o Vieira já não queria fazer o negócio por causa de problemas que ele tinha tido no Flamengo. E eu disse: ‘Presidente, pode mandar o Diego para o Grêmio que eu garanto’. E ele acabou por jogar muito bem.»