Cristiano, o mais inteligente jogador do mundo

O Cristiano Ronaldo é um homem invulgarmente inteligente. Bastaria para se chegar a essa conclusão assistir aos seus desempenhos dentro do campo: qualquer desportista que atinge a craveira do português tem uma inteligência muito para além do comum. Mas não é só nos noventa minutos que isso se manifesta.

Em primeiro lugar, na forma como foi gerindo o seu posicionamento no terreno. Passou de extremo para avançado porque percebeu - ele é que percebeu - que as suas características fariam dele um extraordinário extremo, mas, nessa posição, nunca atingiria o nível de excelência que alcançou como avançado com maior raio de ação. Essa transformação levou a que se tivesse tornado no mais produtivo goleador da história do futebol sem ser um ponta de lança clássico. Depois, com o avançar da idade, foi-se fixando mais na área sem que as suas marcas deixassem de ser impressionantes.

Em segundo lugar, na gestão da sua carreira. Penso que a sua ida para Manchester foi decisiva, apesar de neste caso, a sorte teve um papel fulcral - não será preciso nomear jogadores que com aquela idade mostravam o mesmo talento e que foram para clubes e encontraram treinadores que não os ajudaram a evoluir, pelo contrário. Claro que o seu génio, a sua invulgar capacidade de trabalho e a sua dedicação foram fundamentais, mas sem Alex Ferguson e o ambiente especial de Manchester Cristiano não teria sido o que é. No Real Madrid geriu os seus contratos e o seu papel no clube com mestria: as dúvidas na altura de renovar, a forma como nunca consentiu que outros jogadores tivessem mais notoriedade do que ele e sobretudo como impôs que a equipa fosse formatada em sua função. No mesmo sentido, cedo se percebeu que tanto no clube como na seleção que ele não aceitaria ter colegas que não afirmassem claramente que ele era o melhor jogador do mundo - ninguém me convence que algumas convocatórias ou compras de jogadores não foram feitas por alguns jogadores não seguirem esse guião. O desempenho e fundamental, mas montar uma perceção e não deixar que colegas próximos fujam ao guião tem importância.

Em terceiro lugar, percebeu como ninguém o tempo em que vive. Vivemos numa época em que a imagem é quase tudo. A sua associação a marcas de prestígio, as obras de beneficência, as fotos com outras megaestrelas contribuíram muito para uma imagem que não só aumentou o seu prestígio como lhe trouxe ainda mais dinheiro. E, claro, o culto do corpo. A constante exibição do físico será também vaidade, mas faz parte integrante dos cânones do nosso tempo.

Agora, deu mais um passo perfeito: a ida para a Juventus. A idade pesa e, é óbvio, o Cristiano já não é rapaz para aguentar quarenta ou cinquenta jogos de grande exigência. Deu-me vontade de rir a crítica que lhe fizeram por não ir para a Liga Inglesa. Lá - e ele sabe melhor que ninguém - não dá para gerir esforços, cada jogo é uma final jogada no limite das capacidades físicas. Na Juventus vai ter uma equipa que não precisou dele para ganhar sete campeonatos seguidos e, já se percebeu, com ou sem Cristiano não vai voltar a ter rival à altura. O madeirense vai poder concentrar-se naquilo que é o grande objetivo da equipa de Turim, a Liga dos Campeões, e utilizará o campeonato como uma espécie de aquecimento. Pode ganhar ou não a Liga dos Campeões, mas certamente fará a diferença na competição. Por outro lado, dada a superioridade da Juventus, não lhe será muito difícil marcar no campeonato e quase de certeza somará mais um ou dois títulos nacionais.

Mais uma jogada perfeita de um dos maiores desportistas de todos os tempos.

Viva o Clube de Futebol ‘Os Belenenses’, abaixo os abutres

O Clube de Futebol ‘Os Belenenses’ vai jogar na terceira divisão da Associação de Futebol de Lisboa. Tenho pena que um clube que tem um lugar importante na história do futebol português e pelo qual pessoas de que gosto muito sofrem, tenha que percorrer uma via sacra, que espero dure o menos possível, até que volte para junto dos outros grandes.

Consta que há uma espécie de organização empresarial que vai jogar na primeira liga portuguesa e que diz ser ‘Os Belenenses’. Não é, será outra coisa qualquer. Não é o clube que já foi campeão nacional, que venceu Taças de Portugal, aquele que ganhou ao Barcelona com o golo do Mapuata. Nesse mandavam os sócios, nesse eram todos os homens que fizeram nascer e viver o grande Belém que estavam em campo.

A tal organização empresarial não passa de um grupo que tanto podia mandar numa retrosaria ou noutro clube de futebol qualquer que lhe trouxesse lucros ou outro tipo de proveitos. Igual a tantas outras que estão a matar o futebol que amamos e que vão aparecendo como ervas daninhas, enquanto as entidades que deviam olhar pelo bem do jogo olham para o lado ou até colaboram.

Que o que se está a passar com ‘Os Belenenses’ sirva para que os sócios de outros clubes percebam o que significa perder o controlo da sua equipa de futebol; o que pode acontecer quando se entrega a bandeira a gente que não tem a mais pequena ideia do que é amar um clube; o preço que se pode pagar por meia dúzia de ilusões.

Antes perder mil campeonatos a vender a alma. Força, Belém.

‘O meu coração só tem uma cor’

Não há portista de que não me sinta próximo. Temos uma ligação indestrutível, sofremos e festejamos juntos e dedicamos boa parte das nossas vidas a esse amor único e eterno. Claro está, que, por esta ou aquela razão, há gente do brasão abençoado de quem estamos mais próximos.

Toda esta conversa para dizer que adoro a minha irmã de fé Joana Marques. Da sua qualidade de portista tenho verdadeiro pânico de falar. Como de certeza absoluta eu não seria capaz de explicar todo o imenso amor que ela tem pelo nosso clube, ainda se sentia ofendida e era menina para me dar um bailarico tal que me impediria de sair de casa por semanas - eu bem sei o que passei quando me apanhou a fazer uma cena, digamos, menos avisada.

A Joana é uma mulher com um talento só comparável ao seu amor pelo FC Porto: gigantesco (estou a conseguir não fazer piadas com a altura dela), atenta ao mais pequeno pormenor (não, não, não é nada disso) e, mais que tudo, inteligente.

Deu-lhe para escrever um livro sobre amor. Chama-se ‘O meu coração só tem uma cor’ e, claro, o tema é o FC Porto e os momentos  e figuras do clube que ela escolheu. Mostra bem que até no amor há lugar para umas valentes gargalhadas.

A Joana que me perdoe tentar tirar-lhe os trezentos milhões de benfiquistas e de outros tantos sportinguistas, mas o livro é só para portistas.

Um livro que qualquer portista vai adorar.