Critsiano Ronaldo, jogador do Al Nassr e detentor de 25 por cento do Almería - Foto: IMAGO
Critsiano Ronaldo, jogador do Al Nassr e detentor de 25 por cento do Almería - Foto: IMAGO

Craques dos relvados, patrões fora dele: porque Ronaldo, Messi ou Mbappé compram clubes

Grandes craques não esperam pelo fim das carreiras

A iminente aquisição do Eldense por Lionel Messi, noticiada nesta terça-feira pela pelo jornal Marca e pela ESPN, confirma uma tendência da última década e que se reforça de ano para ano: os grandes craques do relvado estão a tornar-se patrões ainda em atividade. O argentino alcançou um princípio de acordo para adquirir a totalidade das ações do clube da Segunda Divisão espanhola, dependendo apenas da aprovação formal do Conselho Superior de Esportes de Espanha (CSD). Este passo de gigante — que se segue à aquisição do UE Cornellà — consolida uma transformação estrutural na gestão do desporto: superestrelas no ativo a converterem os seus salários estratosféricos e influência planetária em pequenos impérios de gestão clubística.

O fenómeno está longe de ser isolado e abrange figuras como Cristiano Ronaldo, Luka Modric, Thibaut Courtois ou Kylian Mbappé. Contudo, esta nova vaga de futebolistas-proprietários coloca também desafios inéditos aos órgãos reguladores do futebol.

Um dos casos mais emblemáticos desta nova realidade envolveu Vinícius Júnior. O internacional brasileiro do Real Madrid tornou-se o acionista maioritário do FC Alverca, em Portugal, ao adquirir entre 70% a 80% do capital da SAD do clube ribatejano, num negócio à época avaliado em €8 milhões. Este tipo de operação acendeu os alarmes nas instâncias desportivas. A FIFA e a UEFA mantêm regulamentos rigorosos no que toca à integridade das competições e aos conflitos de interesse (como as diretrizes de Multi-Club Ownership), proibindo que pessoa ou entidade exerçam controlo direto ou influência decisiva sobre um clube enquanto participa em provas onde possa surgir um conflito desportivo direto.

Embora atletas no ativo não tenham até agora enfrentado sanções diretas por investirem em divisões inferiores ou ligas estrangeiras, a hipótese de um clube detido por um jogador vir a disputar uma competição oficial contra a própria equipa onde esse futebolista atua cria um dilema do ponto de vista regulatório e ético.

Atuais e antigos craques donos de clubes

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Apesar destas ambiguidades legais e das restrições regulatórias no horizonte, o que continua afinal a motivar as estrelas do relvado a investirem montantes tão elevados em clubes?

Além dos casos de notória relação sentimental, em primeiro lugar destaca-se a transição planeada de carreira pela via executiva. Em vez de seguirem o percurso tradicional de treinadores, dirigentes ou comentadores televisivos, os futebolistas asseguram uma posição no topo da hierarquia desportiva, assumindo a definição estratégica do projeto desportivo e tendo assento direto nas decisões estratégicas.

Em segundo lugar, sobressai a alavancagem comercial e o valor da marca pessoal. Tal como recordou recentemente o jornal espanhol As, citando relatórios de entidades de referência da área financeira e marketing, a entrada de uma figura com visibilidade mundial como Messi ou Ronaldo num clube modesto gera um efeito multiplicador imediato. A perceção de valor da instituição, a atração de patrocinadores globais e as receitas digitais disparam assim que o negócio é anunciado.

Por fim, reside a lógica financeira de alto retorno (upside). Especialistas citados pelo jornal El Mundo sublinham que a aposta em equipas de escalões secundários exige um investimento inicial contido face ao enorme potencial de valorização em caso de promoção. Apoiados por veículos profissionais como a CR7 Sports Investments ou os gabinetes de gestão patrimonial de Messi, estes atletas aplicam a sua experiência direta num modelo de negócio que pretendem ser rentável e de longo prazo.

Numa era marcada pela cada vez maior privatização dos clubes de menor dimensão, os grandes ícones dos relvados não quiseram esperar pelo fim das respetivas carreiras para vestir o fato e gravata quando necessário. E à margem das galas.

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