Alireza Beiranvand - Foto: IMAGO
Alireza Beiranvand - Foto: IMAGO

Contrariou o pai, dormiu na rua e defendeu penálti de Ronaldo: a história da muralha iraniana

Alireza Beiranvand 'secou' a Bélgica e voltou a brilhar no terceiro Mundial da carreira. Guardião que passou pelo Boavista teve de fintar oposição do pai e acumular empregos e camas temporárias

Alireza Beiranvand foi um dos protagonistas do nulo entre Bélgica e Irão (0-0), no domingo. O guardião iraniano de 33 anos efetuou sete defesas. Uma delas é uma séria candidata à melhor do torneio: De Cuyper tinha a glória a parcos metros, mas a mão esquerda do guarda-redes, que parecia batido, concretizou um milagre, aos 59'.

Momento inesquecível para o guarda-redes... que abdicou de tudo em prol de um sonho. Alireza nasceu no seio de uma família nómada na província do Lorestão, perto da fronteira com o Iraque, e começou a trabalhar cedo como pastor. Nos tempos livres, as horas eram passadas a jogar Dal Paran, que consistia no lançamento de pedras.

A verdadeira paixão do futuro guarda-redes era, ainda assim, a bola. Beiranvand começou a jogar aos 12 anos como avançado, recuou para a baliza e, pouco depois, enfrentou uma enorme contrariedade: a oposição do pai.

«O meu pai não gostava de futebol de todo. Ele até rasgou as minhas roupas e as luvas», recordou em entrevista ao The Guardian, em 2018. As tentativas de dissuasão do pai precipitaram uma decisão radical: aos 15 anos, Alireza saiu de casa, pediu dinheiro emprestado a um amigo e rumou à capital, Teerão.

Bélgica-Irão: Alireza Beiranvand
Alireza Beiranvand foi o homem do jogo do Bélgica-Irão

Uma chance numa equipa local custava cerca de 30 euros, quantia que o guardião não detinha. Alireza trabalhou na limpeza de ruas, em lavagens de carros e em restauração guiado pelo sonho. O especialista em lavar SUVs devido à idade chegou a lavar a viatura da lenda iraniana Ali Daei, mas ficou «demasiado envergonhado» para pedir conselhos. Em paralelo, acumulava casas emprestadas, dormia no próprio emprego... ou até à porta do clube onde treinou à experiência.

«Uma vez acordei e apercebi-me que as pessoas me deram moedas. Pensaram que era um sem-abrigo. Comi o melhor pequeno almoço em muito tempo», recordou ao The Guardian. Alireza continuou acumular empregos e camas temporárias, apesar de estar a dar os primeiros passos no Naft, clube que o dispensou e voltou a convidá-lo num espaço curto de tempo.

Alireza afirmou-se no clube a partir de 2013 e as portas da seleção abriram-se, dois anos depois. Além do desempenho entre os postes, o guardião destacava-se por uma capacidade pouco comum de lançamento do esférico. A culpa foi do Dal Paran.

O guarda-redes iraniano detém mesmo o recorde do lançamento mais longo já registado no futebol: 61 metros em duelo contra a Coreia do Sul, em 2016.

A glória na Rússia

Alireza subiu na hierarquia na seleção e assumiu a baliza no Mundial 2018, quando já representava o Persepolis. A primeira experiência em Mundiais ficou marcada por um momento inesquecível... contra Portugal, a 25 de junho de 2018. Já depois de ter sofrido um golaço de trivela de Quaresma, Alireza defendeu um penálti assinado por Cristiano Ronaldo, aos 53', e segurou a desvantagem mínima.

A glória em 2018 - Foto: IMAGO

O Irão empataria aos 90+3' e Alireza correu mundo. As portas da Europa abriram-se em 2020. O guardião somou 12 jogos pelos belgas do Antuérpia, antes de rumar ao Boavista na temporada seguinte. O internacional iraniano passou sem brilho pelo Bessa, tendo disputado apenas nove partidas.

Beiranvand no Boavista - Foto: IMAGO

Alireza Beiranvand regressou ao Irão, voltou a ser titular no Mundial-2022... e foi protagonista de um choque violento com um colega de equipa, logo no primeiro jogo contra a Inglaterra. Quatro anos depois, o guarda-redes de 33 anos regressa a ribalta foi razões bem menos dolorosas.

É caso para dizer que a decisão arriscada tomada há 18 anos valeu a pena.

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