A renovação de Rui Borges, oficializada quando o Sporting passou para o 3.º lugar, ganhou uma dimensão simbólica — Foto: MIGUEL NUNES
A renovação de Rui Borges, oficializada quando o Sporting passou para o 3.º lugar, ganhou uma dimensão simbólica — Foto: MIGUEL NUNES

Como se de um título se tratasse

A vitória no Estádio dos Arcos e mais um deslize do Benfica na Luz devolveu o Sporting ao lugar por onde mais andou ao longo desta época, o segundo, desde a 5.ª à 29.ª jornada. A Bola é redonda. O Verde é futuro, é o espaço de opinião de Pedro Ângelo, CEO da NAV e sócio do Sporting Clube de Portugal

O Sporting chega à derradeira jornada do campeonato sem o título que muito ambicionava, sem o tricampeonato que alimentou o imaginário dos adeptos durante largos meses da competição, mas deve encarar com a máxima responsabilidade o jogo com o Gil Vicente no próximo sábado, como se de um título se tratasse, pela importância de assegurar o segundo lugar de acesso à UEFA Champions League.

Sabemos da relevância do acesso à prova milionária para a construção de orçamentos, retenção e atração de jogadores, no agendamento do calendário da próxima época (penalizando quem joga numa UEFA Europa League às quintas-feiras e remetendo os jogos do campeonato para o encerramento das jornadas, aos domingos à noite e, em Portugal, pelos direitos televisivos para muitas segundas-feiras), no fundo a pertinência para a afirmação e consolidação do projeto desportivo do clube. 

Como é evidente, numa cultura de exigência e fazendo jus ao voto do fundador José Alvalade, querendo que o Sporting seja um grande clube, tão grande como os maiores da Europa, não se permite sequer equacionar celebrações pela conquista do segundo lugar. Ainda mais para um clube que recuperou alguma da hegemonia de outrora e hábitos vencedores de tempos idos, das primeiras décadas do pretérito século, não pode haver espaço ou retrocessos para regozijos por atingir esse lugar.

Não obstante, para sermos tão grandes como os maiores da Europa, temos de sistematicamente competir e crescer nos palcos mais competitivos da UEFA Champions League, não devendo ser menosprezado o elevado valor desse objetivo mínimo.     

Depois de tantas voltas, tropeções, desilusões e algumas contas feitas com a calculadora na mão durante o mês de abril, o Sporting voltou a depender de si próprio para garantir o acesso aos milhões da UEFA Champions League. Não há mais margem de erro, não pode haver sequer interesse em saber o resultado do eterno rival, dependendo única e exclusivamente da sua prestação, o Sporting deve fitar o próximo jogo como se de uma final se tratasse. 

É o tempo também para desfazer o registo de não levar de vencida as equipas classificadas nas primeiras posições da tabela, ainda que o Gil Vicente já não esteja no quinto lugar, por onde muito tempo andou. A equipa liderada por César Peixoto foi durante largo tempo a equipa sensação do campeonato, não somente pelo lugar na tabela ocupado, mas acima de tudo pelo futebol praticado e a ideia de jogo. Foi uma das surpresas da Liga e confirmou o perfil de um treinador que se perspetiva destinado a outros voos, caso surjam para o efeito oportunidades em clubes de maior grandeza num futuro próximo.

A vitória no Estádio dos Arcos e mais um deslize do Benfica na Luz, que registou o décimo primeiro empate esta época, o sexto em sua casa, devolveu o Sporting ao lugar por onde mais andou ao longo desta época, o segundo, desde a quinta à vigésima nova jornada. Esta oportunidade concedida, esta segunda oportunidade não pode por isso ser desperdiçada.

Para isso não devemos olvidar exibições recentes menos conseguidas, onde faltou equilíbrio emocional para segurar jogos e os respetivos pontos necessários para a permanência nessa posição. Aquilo que se passou com as duas equipas últimas classificadas nesta Liga deve ser uma ferida sarada, mas com uma cicatriz bem visível para apelar ao sentido de alerta, evitando repetir erros próprios e não forçados. 

Foi sintomático de algum desnorte, por exemplo, consentir o empate com o Tondela em casa com dois lances de bola parada, ambos na sequência de pontapés de canto, já no tempo de compensação. Há resultados menos felizes que se explicam pela qualidade do adversário, outros pelo acaso do jogo, como foi a derrota com o Benfica também permitida nos descontos, outros ainda por uma arbitragem infeliz ou por uma sucessão de imponderáveis.

O resultado contra o Tondela, em Alvalade, não cabe confortavelmente em nenhuma dessas gavetas de ideias. Foi muito mais uma falha de concentração generalizada, uma falta de agressividade competitiva, de controlo emocional e de sentido de responsabilidade, perante uma equipa que lutava, e ainda luta muito graças a esse empate, pela sobrevivência no principal escalão.

Neste contexto, a renovação de Rui Borges, oficializada depois desse empate e quando o Sporting passou para o terceiro lugar, ganhou uma dimensão simbólica que não deve ser despercebida. A estrutura tomou uma decisão de continuidade, valorizando o processo, o trabalho acumulado no último ano e meio e aquilo que entende ser o fator da estabilidade como necessário e crucial para enfrentar o futuro.

Compreende-se a decisão de Frederico Varandas à luz do êxito desportivo do passado recente. Foi, precisamente, quando promoveu essas condições de estabilidade na liderança do balneário que o Sporting conquistou títulos. Inclusive renovando a confiança quando a equipa atravessara resultados menos positivos, referindo-me à decisão de firmar novo contrato com Ruben Amorim, mesmo quando este terminou num desonroso quarto lugar, na época de 2022/23. 

Estando de acordo que o Sporting não deve ser refém da espuma dos dias e de resultados circunstanciais, muito menos de regressar à instabilidade crónica dos anos 80 e 90, em que cada derrota abria uma crise existencial, resistem-me algumas reservas se deve ser comparado o momento da renovação de Ruben Amorim, com esta decisão de continuidade de Rui Borges. O perfil de liderança, a empatia com os adeptos, a confiança do grupo, parecem-me distintas. 

Mas tomada a decisão mais crítica para o sucesso desportivo, a escolha do treinador, Rui Borges reúne agora as condições para exercer a sua liderança com renovada confiança da estrutura do Sporting, atrevendo-me a antecipar que terá mais dedo no planeamento da próxima época com a satisfação de reforços por si expressamente identificados e moldando o grupo à sua imagem.

Na última semana assistimos a uma aceleração na abordagem do mercado com vários nomes a serem ventilados como reforços, parecendo que a reflexão já teve lugar entre a estrutura que Frederico Varandas fez questão de se acompanhar no momento da cerimónia da renovação de contrato do treinador.  

Mais um sinal de confiança e também de repetição de processos na contratação de jogadores que garantiram o sucesso desportivo no passado recente, não só no timing, mas também por, aparentemente, estarem a privilegiar soluções e alvos que já competem no nosso campeonato. 

Se vencer o Gil Vicente, o Sporting terminará o campeonato com 82 pontos, precisamente a mesma pontuação com que se sagrou bicampeão na época passada, num registo estatístico, aliás, muito semelhante: no presente, menos três golos sofridos, menos dois golos marcados e a possibilidade de repetir as mesmas 25 vitórias, sete empates e duas derrotas. A frieza dos números é esta. 

Não podendo ser alcançado o sonho do tricampeonato, impõe-se garantir o objetivo mínimo do acesso à UEFA Champions League. Pelo impacto no planeamento, no prestígio e nas contas do clube, o jogo do próximo sábado tem de ser jogado — não comemorado — como se de um título se tratasse.

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