Suárez derrubou o campeão europeu (Foto IMAGO)

Começar a patinar no gelo e acabar a dançar no vulcão (crónica)

Durante uma boa parte do jogo Rui Borges teve paciência, os jogadores souberam ter paciência e os adeptos aprenderam a ter paciência. Ao intervalo, a posse de bola do PSG era de 71 por cento, mas posse de bola não ganha jogos, e Suárez esteve no sítio certo à hora certa para Alvalade fazer a festa...

Num jogo em que a frieza estratégica e a disciplina tática estiveram na ordem do dia sportinguista, o bicampeão nacional derrotou o campeão europeu, e deu um passo de gigante rumo ao apuramento para a fase seguinte da Champions. 

O treinador verde-e-branco optou pela via em que pessoalmente corria mais riscos, a mesma em que a sua equipa se expunha menos à capacidade dos parisienses. E corria mais riscos, porquê? Porque, apesar de estar a jogar em casa, não se deixou levar pelo canto da sereia, sujeitou-se a muitos suspiros e até alguns assobios durante os primeiros 45 minutos, e pôs-se a jeito para, em caso de derrota, ser acusado de falta de ambição. E porque é que o Sporting, assim, correu menos riscos? Porque pouco se expôs, optou por uma defesa à zona, deixou o PSG trocar a bola tantas vezes quantas quis, e esperou, cinicamente, por alguns momentos em que foi capaz de contra-atacar com perigo.  

Frente a um conjunto como o de Luís Enrique, foi precisa muita maturidade para resistir ao apelo da cavalgada atacante e manter posições, sabendo que naquela fase era mais importante ser conservador do que revolucionário. Traduzido para vocabulário bélico, o Sporting apostou na guerrilha dos ataques rápidos e deixou ao adversário as despesas da guerra convencional. E viu-se premiado da forma mais compensadora, com um golo nos segundos finais da partida que transformou Alvalade num vulcão, depois de durante a primeira parte e algumas fatias da segunda ter sido uma planície gelada. Foi uma vitória islandesa, em que do gelo brotou o fogo que aqueceu o coração-de-leão. 

CALMA, MUITA CALMA 

Frente a um PSG que fez a sua interpretação do tiki-taka, com o excelente Vitinha a pautar jogo, Dembelé a descair demasiado da zona da verdade e Doué e Barkola e ganharem muitas vezes as alas sem terem finalizadores na área, o Sporting fechou-se com uma defesa zonal que começava na linha de meio-campo, sustentada por um 4x2x3x1 que muito rapidamente se transformava em 4x5x1, com organização e plasticidade, graças à defesa por dentro ou de Fresneda, ou de Mangas, acompanhadas pelo recuo, conforme os casos, de Catamo ou Maxi, para as laterais. O PSG, barrado na progressão pelo meio, foi ensaiando meias-distâncias a que Rui Silva foi correspondendo com boas defesas, mas foi sempre mais fumo que fogo, faltando instinto matador aos campeões da Europa que ainda gritaram golo aos 30 minutos (Zaire-Emery), anulado por falta anterior Mayulu sobre Catamo. 

Na primeira parte, que terminou com uma posse de bola 29/71, os leões apenas deram um ar da sua graça contra-atacante aos 14 minutos, quando Catamo teve um disparo à malha lateral que ainda deu a sensação de golo. 

CALMA, MENOS CALMA 

O segundo tempo não foi igual ao primeiro. Embora o comando do jogo continuasse a pertencer aos forasteiros, o Sporting deu logo aos 47 minutos um sinal de que queria mais, ao conseguir a primeira recuperação de bola através de pressão alta. E quatro minutos depois, o PSG foi apanhado em contra-pé pela velocidade de Trincão, que assistiu Suárez para um falhanço inglório. Ainda Alvalade estava a aplaudir esta ação e Catamo recuperou uma bola no primeiro terço do campo parisiense, endossou-a a Trincão, que rematou forte, pouco ao lado.  

O PSG sentiu o perigo, voltou a encadear boas sequências de passes, e o Sporting decidiu uma vez mais recolher as garras, à espera da altura certa para desferir um golpe fatal.  

Foi então a vez dos treinadores começarem a mexer, Rui Borges (63) tirou Mangas, baixou Maxi para lateral, colocou Vagiannidis numa posição em que teoricamente era médio à frente de Fresneda, mas fazia de lateral quando o espanhol ia para terceiro central, ao mesmo tempo que puxava Catamo para as costas de Suárez e encostava Trincão à esquerda. Luís Enrique respondeu primeiro com Kvaratskhelia  para a direita, e um pouco mais tarde com Gonçalo Ramos para o centro do ataque (saiu Barcola e Kvaratskhelia foi para a esquerda, 70). Mas o PSG já tinha perdido o tempo de ganhar, era uma equipa mais hesitante e menos confiante e o Sporting acabou por colcar-se em vantagem, graças a um remate de Catamo que bateu em Vagiannidis e sobrou para Suárez, aos 73 minutos. Porém a festa leonina durou pouco porque uma iniciativa individual de Kvaratskhelia, culminada com um relate portentoso, empatou o jogo (79). 

Foi então que as substituições correram bem a Rui Borges e mal a Luís Enrique. O treinador asturiano tinha colocado Zabarnyi na direita da defesa (80), mas este deu-se muito mal com a entrada de Alisson Santos (87), que lhe trocou os olhos logo de seguida, ganhando a linha de fundo e, ao minuto 90, serpenteou e serviu Trincão que, em posição frontal obrigou Chevalier a uma defesa difícil e incompleta, aproveitada por Luís Suárez para fazer 2-1, de cabeça, perante a apatia de Nuno Mendes.  

Alvalade explodiu, a festa preparou-se para sair à rua, e nos cinco minutos de compensação que se viu foi um PSG emocionalmente tocado e um Sporting que foi capaz de manter a bola quase sempre longe da baliza de Rui Silva.  

Uma grande vitória do Sporting, para mais tarde recordar, num jogo em que os leões começaram com gelo nas veias e terminaram com fogo na alma.