Com a cabeça na Alemanha, as contas saíram furadas (crónica)
O SC Braga está a meio de uma meia-final europeia e, compreensivelmente, a cabeça dos guerreiros já estava na Alemanha, onde, na quinta-feira, defendem diante do Friburgo a vantagem de 2-1 alcançada na 1.ª mão.
Carlos Vicens, consciente do momento histórico para o clube, procurou jogar nos dois campos, mas as contas saíram furadas. Ao contrário do que tinha feito na jornada anterior, o treinador não poupou toda a equipa e apresentou mesmo um onze semelhante ao que iniciou o jogo com os germânicos. Percebeu-se. O Famalicão na véspera tinha encurtado a diferença para quatro pontos para o 4.º lugar e só uma vitória permitiria aos guerreiros acabar já com a matemática do campeonato.
Assim, o espanhol, que estava privado de Víctor Gómez, Ricardo Horta (lesionados) e Gorby (castigado), só não fez mesmo entrar Paulo Oliveira - Moscardo completou o trio de centrais. A ideia era boa mas as pernas nem sempre responderam. Muito também por responsabilidade do Estoril, que se apresentou desinibido na Pedreira e complicou (e muito) a tarefa dos arsenalistas.
A pressionar alto e aproveitar todas as transições para se acercar da baliza de Hornicek, a equipa de Ian Cathro cedo deu a entender que podia complicar as contas. Quem esperava um adversário fragilizado por cinco derrotas consecutivas… enganou-se.
O SC Braga sentia dificuldades em impor o seu jogo de posse, mas pensou-se que a tarefa ficaria mais facilitada quando Mario Dorgeles inaugurou o marcador. Jogada de insistência, com Leonardo Lelo a trabalhar no flanco esquerdo até descobrir Zalazar na área. O uruguaio serve o médio, que, à meia volta, atira cruzado e bate Turk. O costa-marfinense a mostrar que está de pé quente, depois de já ter feito o golo da vitória sobre o Friburgo.
Em vantagem, o SC Braga foi tentando adormecer o jogo, mas o Estoril nunca se conformou. Holsgrove atirou mesmo ao poste, num livre (40’). De aí que a segunda parte tenha começado com os guerreiros bem mais determinados, procurando o golo da tranquilidade.
Os canarinhos, contudo, não concediam espaços e, pouco a pouco, reequilibraram o jogo e depois partiram em busca do empate. Primeiro por Begraoui, que se isolou mas estava fora de jogo (71’), depois por Gonçalo Costa, que solto pela esquerda, obrigou Hornicek a grande interveção (76’).
Não foi à primeira, não foi à segunda, foi à terceira. Begraoui (quem mais?...) tabela com Ricard Sánchez e à saída do guarda-redes checo pica-lhe a bola por cima. 1-1. Justo. Fran Navarro, lançado por Luisinho — uma das apostas de Vicens para refrescar a equipa e simultaneamente poupar alguns trunfos para a Alemanha — quase que conseguia desviar para a baliza e dar os três pontos aos guerreiros (87’), mas Turk foi rápido a sair dos postes e a fazer a mancha. Isto já depois de Peixinho ter também ameaçado o 2-1. Os canarinhos bem mereceram o ponto.
O médio costa-marfinense está de pé quente e depois de ser o herói frente ao Friburgo, voltou a marcar. Belo trabalho na área, a rodar à procura do pé esquerdo e a rematar cruzado, com a bola a fugir de Turk. Tentou sempre canalizar jogo pelo corredor direito, procurando levar a equipa para o ataque, mas a tarde coletivamente não era de inspiração.
E vão 20 golos na Liga! O avançado voltou a marcar, depois de dois jogos em branco, e já ameaça Pavlidis na lista de melhores marcadores- o grego soma 21 e o líder, Luis Suárez, 25. Sempre bem posicionado, nunca deu descanso à defensiva bracarense e sempre que foi solicitado disse presente. Primeiro foi apanhado em fora de jogo e depois marcou mesmo, frio, na cara de Hornicek. À ponta de lança.
As notas dos jogadores do SC Braga: Hornicek (7); Vítor Carvalho (4), Lagerbielke (5) e Gabriel Moscardo (5); Mario Dorgeles (7), Zalazar (5), Tiknaz (5), João Moutinho (6) e Leonardo Lelo (6); Pau Víctor (7), El Ouazzani (4), Luisinho (6), Fran Navarro (5) e Paulo Oliveira (5).
As notas dos jogadores do Estoril: Turk (7); Felix Bacher (6), Ferro (6) e Tsoungui (7); Ricard Sánchez (7), Holsgrove (7), Xeka (5) e Pedro Amaral (5); João Carvalho (6), Begraoui (7), Rafik Guitane (6), André Lacximicant (5), Gonçalo Costa (6), Peixinho (6), Alejandro Marqués (5) e Pedro Carvalho (5).
Carlos Vicens (treinador do SC Braga)
«Queria ganhar, os jogadores também. Quem conhece o contexto entende que as forças começam a ficar mais justas, mas os jogadores deram tudo pela camisola, pelo clube, pelos adeptos e tenho de reconhecer o esforço. A equipa vem de muito esforço, muitos jogadores indisponíveis. A equipa esforçou-se, deu tudo, mas faltou frescura. Nada a apontar aos jogadores. Temos de dar tranquilidade para conseguirmos qualificação para a final. É um jogo difícil, mas que nos motiva muito.»
Bryant Lazaro (treinador adjunto do Estoril)
«Jogo entre duas equipas fantásticas, que sempre procuraram ganhar. Mais uma vez mostrámos que temos uma mentalidade diferente, respeitamos sempre a nossa identidade e não temos medo de ninguém. Os jogadores tiveram um mérito incrível pelo que fizeram. O Estoril sempre olha para dentro e para o processo. Há uma crença grande e quando as coisas não saem bem é trabalhar. A mentalidade é a mesma nos bons momentos ou nas dificuldades. É aí que as pessoas revelam o seu caráter. Desejo ao SC Braga sorte e que tudo corra bem na Alemanha, pois sua vitória também será nossa.»