Centralização: estudo aponta rota de fuga aos erros de outros países
O mais recente estudo sobre os direitos audiovisuais no desporto rei, intitulado «O Preço do Futebol na TV» e publicado neste mês de junho de 2026 pela plataforma especializada Futebol e Negócios, traz um aviso severo aos decisores do futebol nacional.
O documento analisa de que forma o negócio televisivo europeu mudou drasticamente, deixando de ser uma discussão meramente limitada a contratos para passar a focar-se no bolso do adepto, na capacidade de distribuição e no risco financeiro assumido pelos compradores.
De acordo com as conclusões, o modelo tradicional que parecia consolidado na Europa mostra agora fragilidades evidentes. A fragmentação galopante da oferta e a alteração profunda dos hábitos de consumo estão a afastar o público dos ecrãs.
O custo de ser adepto e o incentivo a pirataria
O relatório destaca que Portugal combina uma fatura mensal pesada tendo em conta um rendimento médio disponível consideravelmente mais baixo do que a média europeia.
Atualmente, o cabaz estimado para acompanhar a Liga Portugal e as competições europeias situa-se entre os 45 e os 70 euros por mês, dependendo do operador e do plano contratado. Este custo divide-se principalmente entre a Sport TV, a BTV e a DAZN.
Para o adepto português, a reduzida presença de janelas gratuitas em sinal aberto agrava significativamente o problema. Esta barreira financeira e a fricção no acesso funcionam como um incentivo direto à pirataria digital, uma realidade que afeta o valor real do produto desportivo no mercado.
Os avisos de França e Bélgica
A análise aponta para cenários alarmantes em mercados que avançaram para a centralização sem salvaguardas robustas. O caso francês é o mais dramático de todos.
A Ligue 1 passou de uma promessa de 1,153 mil milhões de euros por ano com a Mediapro em 2018 para uma projeção brutal na época de 2026/27. Devido à instabilidade das operadoras e à dependência de uma plataforma própria direta ao consumidor, a Ligue 1+, estima-se que apenas 112,5 milhões de euros líquidos sejam partilhados de forma comum por todos os 18 clubes gauleses.
Na Bélgica, a centralização também expôs os riscos económicos do contrato. A DAZN tentou mesmo abandonar o vínculo com a Pro League antes de recompor à pressa a distribuição através das operadoras tradicionais.
A consolidação da DAZN e o fenómeno CazéTV
O xadrez dos direitos televisivos em Portugal ganhou novas peças importantes em abril de 2026. A DAZN Portugal assegurou os direitos das competições de clubes da UEFA para o ciclo entre 2027 e 2031, garantindo a transmissão de 93% dos jogos. Esta concentração de ativos torna a operadora um ator central, mas também pode limitar a concorrência no concurso dos direitos domésticos.
Paralelamente, o modelo da UEFA aprofunda as desigualdades financeiras, uma vez que a Champions concentra 74% de todas as receitas de prémios, deixando as fatias da Liga Europa e da Liga Conferência reduzidas a 17% e 9%, respetivamente. Como contraponto, a entrada da LiveModeTV e da CazéTV no mercado nacional, impulsionada pelo investimento de Cristiano Ronaldo, traz uma nova abordagem baseada no alcance digital gratuito através do YouTube. Este modelo demonstra que janelas abertas bem selecionadas funcionam como ferramentas de captação de novos adeptos e valorização comercial.
O Caminho Obrigatório para 2028/29
Portugal tem a obrigação regulatória de avançar para a centralização dos seus direitos televisivos a partir da época de 2028/29, em conformidade com o Decreto-Lei n.º 22-B/2021.
Os cenários comerciais apresentados publicamente pela Liga Portugal apontam para uma receita média na ordem dos 225 milhões de euros anuais.
Contudo, o estudo recorda que estes valores pertencem apenas ao campo das metas teóricas até surgirem propostas vinculativas com garantias reais de execução. Em abril de 2026, a Liga avançou no processo ao receber sete manifestações de interesse de operadores nacionais e internacionais. A chegada tardia do futebol português a este modelo confere-lhe uma vantagem estratégica rara, permitindo aprender com os erros europeus antes de vender o seu produto.
O Valor do Alcance e do Sinal Aberto
Para que a centralização seja um sucesso estrutural, a Liga Portugal precisa de encarar os direitos audiovisuais como uma estratégia integrada de produto e distribuição, avalia o documento.
Os dados de audiência da época de 2025/26, recolhidos pela GfK e destacados no relatório, demonstram que existe uma enorme procura pelo futebol nacional quando a distribuição elimina fricções.
É imperativo desenhar uma matriz inteligente onde cada ativo cumpra a sua função específica. Os jogos de elite devem servir para maximizar a receita premium, enquanto os resumos digitais e as janelas em sinal aberto devem proteger o alcance, assegurando a sustentabilidade de médio prazo de todo o ecossistema desportivo português.
As três competições profissionais portuguesas superaram a barreira dos 50 milhões de telespectadores agregados, impulsionadas grandemente pelos jogos dos três grandes transmitidos em sinal aberto pela TVI.
O estudo conclui que <a matriz de centralização não deve focar-se apenas no cheque mais alto do pay-per-view. É crucial equilibrar os jogos exclusivos com janelas gratuitas e clips digitais no YouTube, garantindo simultaneamente receita imediata e a captação de novas audiências para o futuro.