Causa do enfarte de Casillas divide especialistas em tribunal
A origem do enfarte sofrido por Iker Casillas em 2019 continua a gerar debate entre especialistas. Em tribunal, o cardiologista Luís Seca defendeu que o treino intenso foi o gatilho para o problema cardíaco, enquanto o médico de medicina legal Duarte Nuno Vieira apontou para uma causa natural, por falta de provas de um esforço físico excecional.
O processo judicial em curso visa o reconhecimento do enfarte do antigo guarda-redes como acidente de trabalho. Luís Seca, médico da CUF do Porto, revelou que o próprio Casillas lhe confidenciou que o incidente ocorreu após um esforço de máxima intensidade, o que, na sua opinião, foi o «gatilho mais provável para a rutura da placa aterosclerótica».
O cardiologista foi categórico quanto à impossibilidade de um regresso à alta competição, afirmando que nunca autorizaria tal cenário. «Quando é um atleta de alta competição, a sequela do enfarte aumenta o risco. (...) O homem teve um enfarte; a partir do momento em que tem um episódio major, tem um risco permanente. Deve praticar desporto, deve, mas não é desporto de alta competição», sublinhou, citado pela Lusa.
O homem teve um enfarte; a partir do momento em que tem um episódio major, tem um risco permanente. Deve praticar desporto, deve, mas não é desporto de alta competição
Aproveitando o caso, Luís Seca defendeu uma revisão dos protocolos médicos para atletas com mais de 35 anos, sugerindo exames como a AngioTAC cardíaca e o Ecocardiograma com Doppler. «Não podemos olhar para um atleta de 35 anos como olhamos para um de 20. (...) O caso de Iker Casillas vem lembrar-nos isso: não tem excesso de peso, não fuma, pratica desporto e tinha doença aterosclerótica», explicou, acrescentando que um diagnóstico precoce poderia ter permitido a Casillas continuar a jogar.
O caso de Iker Casillas vem lembrar-nos isso: não tem excesso de peso, não fuma, pratica desporto e tinha doença aterosclerótica
Em sentido oposto, Duarte Nuno Vieira, especialista em medicina legal, argumentou que, embora o exercício físico possa desencadear um enfarte, tal esforço teria de ser «vigoroso» e diferente do habitual para o atleta. «Se o tribunal demonstrar que foi um treino particularmente intenso, diferente do habitual, não tenho dúvidas de que poderia ter sido um trigger», admitiu. No entanto, com base na documentação analisada, considerou que essa circunstância não está provada.
«Não existe nenhum elemento, qualquer evento externo que possa ser apontado como fator precipitante», afirmou Duarte Nuno Vieira, sustentando que a hipótese mais provável é a de uma causa natural. «Teríamos de admitir como causa muito mais provável doença natural», concluiu, notando que «a maioria dos enfartes ocorrem sem qualquer efeito precipitante».
Não existe nenhum elemento, qualquer evento externo que possa ser apontado como fator precipitante
Questionado sobre a sua relação com a seguradora Fidelidade, Duarte Nuno Vieira confirmou ter prestado consultoria e ter sido diretor clínico na empresa, mas negou qualquer vínculo atual direto, embora preste serviços a empresas que trabalham para a Fidelidade. Garantiu ainda que entre 60% a 70% dos seus pareceres não são favoráveis à seguradora.
Na mesma sessão, Hugo Esteves, diretor de Recursos Humanos do FC Porto, confirmou que o clube pagou o salário integral a Casillas até ao final do seu contrato, em junho de 2020, complementando o subsídio de doença. Explicou que, após essa data, o vencimento deixou de ser processado. Questionado, afirmou não ter recebido comunicação dos serviços clínicos sobre a inaptidão do jogador, nem ter conhecimento pessoal de que Casillas continuou a reabilitação no Olival após o enfarte.
Recorde-se que o antigo guarda-redes do FC Porto sofreu um enfarte agudo do miocárdio a 1 de maio de 2019, durante um treino ao serviço dos dragões, episódio que ditou o fim da sua carreira profissional.
Iker Casillas interpôs uma ação judicial contra o FC Porto e a seguradora Fidelidade, procurando que o enfarte agudo do miocárdio que sofreu seja reconhecido como acidente de trabalho.
No processo, o ex-futebolista exige uma indemnização total que ultrapassa os 2,2 milhões de euros. Deste montante, Casillas reclama à Fidelidade o pagamento de 750.821,91 euros, referentes à incapacidade temporária absoluta, e um valor adicional de 1.521.780,82 euros, devido à incapacidade permanente absoluta para a sua profissão habitual.
Adicionalmente, a ação visa a condenação do FC Porto ao pagamento da parcela das indemnizações que não esteja coberta pela apólice de seguro. O pedido estende-se ainda à cobertura de futuras despesas médicas e medicamentosas, bem como ao capital de remição da pensão anual que venha a ser determinada pelo tribunal.