Saibari, avançado de Marrocos, celebra golo apontado à Escócia - Foto: IMAGO - Foto: IMAGO

Há algo de mágico no trajecto das equipas que superam o que se espera. Os maiores epítomes nas recentes edições serão Marrocos, semi-finalista em 2022, ou a Croácia, finalista em 2018. Recuando no tempo, também os coreanos de Guus Hiddink chocaram o mundo, em 2002. Ou, claro, a parceria transgeracional Ronaldo – Figo em 2006, bem como o sonho britânico de Eusébio, há 60 anos.

Os tempos mudaram. O futebol vive a era dos algoritmos e, em retrospectiva, talvez algumas destas surpresas fossem possíveis de antever. Repare-se, por exemplo, na prevalência de equipas que, ao receberem a prova, se transcendem.

Jogar em casa ajuda, mas às vezes é um pretexto para a emancipação de uma base de talento que já lá estava. Hakimi, Modric e Park Ji-sung foram e são, nos exemplos que dei, jogadores de elite. Já o eram.

Pochettino é o rosto de uma seleção que chega com vários jogadores a jogar em campeonatos de elite, Pulisic é o símbolo de uma geração a que faltava dar um salto coletivo. A mobilidade e a flexibilidade que apresentam permitem-lhes circulação à largura e criação de oportunidades nos três corredores. É verdade que Paraguai e Austrália são equipas que se apresentaram frágeis, mas o projecto coletivo é ambicioso. A equipa chega com uma pujança significativa, pressiona e reage à perda com uma capacidade física anormal para esta fase da época. Atenção a McKennie, Dest e Freeman. Pochettino afirmou que a equipa não vinha apenas participar e arrisca-se a ter razão.

Já todos estávamos preparados para esta nova realidade em que o duelo entre Marrocos e Brasil se antevia equilibrado. Até ao golo de Vinícius, contudo, o desequilíbrio aconteceu a favor da equipa marroquina: meia-hora em que o carrossel de Ouahbi amassou a tradição canarinha sem pedir licença. É uma geração que surge com o percurso de 2022 e o título africano às costas, claro. À liderança de Hakimi, junta-se o talento de Brahim Díaz, a frieza de Saibari (que golaço frente à Escócia) ou, claro, a revelação Bouaddi – impressionante como quebra a pressão com passe ou marca o ritmo de jogo.

Estão em patamares diferentes – Marrocos é melhor que os Estados Unidos – mas será difícil atirar qualquer uma destas duas equipas para fora da competição: pelo que jogam, pelo clima que os rodeia, mas também pela existência de um espírito de quem se torna favorito pelo futebol que apresenta, ao invés de pelo estatuto que traz antes do começo da prova. Estas competições, por serem curtas, também são o ambiente que se cria em redor da equipa.

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