Campeão olímpico vai doar um dólar por cada centímetro que saltar
Mais de 120 atletas profissionais de várias modalidades juntaram-se ao fundo Sport One, Carbon Zero (SOCZ), uma iniciativa inovadora que permite aos atletas de elite apoiar a ação climática através de doações ligadas aos seus resultados desportivos.
Entre os nomes que aderiram ao projeto estão várias estrelas do atletismo, como o campeão olímpico de salto em altura da Nova Zelândia, Hamish Kerr, que se comprometeu a doar um dólar por cada centímetro que saltar durante a época de 2026. A sua motivação foi reforçada pelas cheias extremas em Auckland em 2023 e pela necessidade crescente de competir sob calor extremo.
El campeón olímpico en París de salto de altura, el neozelandés #HamishKerr se compromete a pagar un $ por cada cm que salte este año, calculando que saltará un total de 5.000, como parte de su compromiso medioambiental y dentro de la campaña “Sport One, Carbon Zero” #Atletismo pic.twitter.com/QVpg26pREJ
— Historias de los Juegos (@HistoriasdlosJJ) April 28, 2026
«Há cada vez mais situações em que temos de tentar ativamente diminuir a nossa temperatura corporal para evitar insolações e sensações de sobreaquecimento, o que obviamente prejudica o desempenho», afirmou Kerr. «Todos os anos parece que temos de o fazer cada vez mais, e não é essa a situação que queremos», acrescentou.
Outros atletas de renome juntaram-se à causa. O lançador de disco norte-americano Sam Mattis, que recentemente bateu o recorde dos EUA, doará 25 cêntimos por cada metro que lançar. A neozelandesa Eliza McCartney, do salto com vara, contribuirá com um dólar por cada 200 quilómetros voados para competir, enquanto o marchador australiano Rhydian Cowley doará 10 cêntimos por cada quilómetro percorrido registado no Strava.
Eliza McCartney - Neo Zealander track & field athlete 🇳🇿 pic.twitter.com/fpIYgTJyka
— WOMEN OF SPORT (@wmnfsprt) September 2, 2024
Lançado em novembro de 2025 pela High Impact Athletes, o fundo SOCZ é orientado por investigadores independentes da Giving Green. O objetivo é identificar as soluções climáticas sistémicas de maior impacto nos setores com a maior pegada de carbono no desporto: aviação, energia e infraestruturas. Segundo a investigação, cada dólar doado ao SOCZ evita a emissão de uma tonelada de dióxido de carbono equivalente (CO2e), tornando-o cerca de 50 vezes mais eficaz do que plantar árvores.
Muitos atletas reconhecem o conflito interno de uma carreira que exige muitas viagens. «Passo muito tempo em aviões todos os anos. É a realidade do meu trabalho», admite Kerr. «Prefiro reconhecer isso e fazer algo com a minha plataforma do que fingir que não está a acontecer». Mattis partilha da mesma opinião, acreditando que a sua «responsabilidade de fazer algo pelo clima também é maior» por viajar mais do que a média das pessoas.
A nearly 45-year old record has fallen 🚨🇺🇸
— USATF (@usatf) April 10, 2026
Sam Mattis threw 72.45m in the discus at the Oklahoma Throws Series World Invitational breaking the record of 72.34 set by Ben Plucknett in 1981 🤯 #USATFTour pic.twitter.com/dRod5hgM3Q
Eliza McCartney sublinha a importância da ação, mesmo que imperfeita. «Ninguém é perfeito, mas isso não significa que devamos ficar calados e não fazer nada. Devemos normalizar a ação imperfeita», defende. Rhydian Cowley concorda, afirmando que, embora «a preocupação persistente de ser um hipócrita nunca desapareça completamente», agir através do SOCZ «ajuda a construir a confiança para tornar a ação climática um tema de conversa mais regular».
A iniciativa procura posicionar a ação climática como uma questão de sobrevivência para o desporto, que é cada vez mais afetado por ondas de calor, fumo de incêndios e danos em instalações. Cowley acredita que os atletas têm um papel fundamental a desempenhar. «As pessoas em todo o mundo preocupam-se com o desporto e conectam-se com os atletas de uma forma mais profunda do que com os políticos ou cientistas do clima», explica, acrescentando que os atletas têm «a responsabilidade de comunicar sobre as alterações climáticas» e de envolver os adeptos.
Para Hamish Kerr, que ambiciona bater o recorde mundial de salto em altura de 2,45m, estabelecido por Javier Sotomayor em 1993, esta iniciativa complementa os seus objetivos desportivos. «As alterações climáticas podem ser avassaladoras e parecer muito distantes, mas quando começamos a dividi-las em pontos de ação, tornam-se mais fáceis de gerir e focadas no que se pode controlar aqui e agora», conclui.George Timms para a World Athletics