Jogadores do Chelsea em pausa para se refrescarem no Mundial de Clubes, no verão de 2025
Jogadores do Chelsea em pausa para se refrescarem no Mundial de Clubes, no verão de 2025

Calor extremo: um quarto dos jogos do Mundial podem pôr em risco saúde dos jogadores

Vários jogos de alto risco em estádios abertos, nomeadamente em Miami, Kansas City e Nova Iorque/Nova Jérsia; cientistas pedem intervalos de hidratação mais longos

Um quarto dos jogos do Mundial deste verão poderá ser disputado em condições de calor extremo, com temperaturas mais elevadas do que no torneio anterior nos EUA em 1994, devido às alterações climáticas, alertaram vários investigadores esta quinta-feira.

«A nossa investigação mostra que as alterações climáticas têm um efeito real e mensurável na viabilidade de acolher Campeonatos do Mundo no verão no Hemisfério Norte», afirmou Friederike Otto, professora de climatologia no Imperial College London e cofundadora da World Weather Attribution (WWA).

Os estádios onde poderá ser perigoso jogar

Galeria de imagens 16 Fotos

«Desde a última vez que os Estados Unidos acolheram o Campeonato do Mundo em 1994, o risco de uma onda de calor duplicou devido às alterações climáticas, o que ameaçará jogadores e adeptos», reagiu na quinta-feira o chefe da ONU para as alterações climáticas, Simon Stiell, apelando a «ações mais rápidas para proteger o desporto que amamos e todos os que o assistem, duplicando os esforços para uma transição decisiva para a energia limpa.»

A FIFA esteve atenta ao problema e o Mundial terá duas pausas obrigatórias para hidratação de 3 minutos em cada jogo (uma por parte, aos 22 minutos), independentemente das condições meteorológicas.

Para facilitar as transmissões dos jogos para a Europa, muitas partidas vão decorrer à hora de almoço no continente americano. Por exemplo o Portugal-RD Congo, em Houston, vai jogar-se ao meio-dia local, tal como o Portugal-Uzbequistão - no entanto, o recinto, o estádio NRG, tem teto para poder ser fechado; já o Colômbia-Portugal, em Miami, será às 19h30 locais.

Os investigadores da WWA baseiam-se num índice que considera não só a temperatura, mas também a humidade, a luz solar e a nebulosidade. Este índice, que afeta a capacidade do corpo de arrefecer, é frequentemente utilizado como referência para atividades ao ar livre, por exemplo, pelos militares ou em eventos desportivos.

Uma temperatura do ar aparentemente moderada pode, na verdade, tornar-se insuportavelmente quente ou mesmo mortal quando combinada com a humidade. Um índice WBGT elevado de 28°C é equivalente a 38°C em condições secas ou 30°C em condições muito húmidas.

Cerca de um quarto dos jogos (26 partidas) provavelmente será disputado em condições equivalentes ou superiores a 26°C WBGT, o que exigiria medidas adicionais de arrefecimento, pede também a FiFPro, sindicato dos Jogadores, baseando-se neste estudo. Cerca de cinco jogos serão disputados a 28°C ou mais, quase o dobro da temperatura de 1994, um limiar perigoso no qual o sindicato sugere que os jogos «sejam cancelados», sublinhou Otto.

Os cientistas identificaram vários jogos de alto risco em estádios abertos, nomeadamente em Miami, Kansas City e Nova Iorque/Nova Jérsia. Outros estádios são climatizados, o que reduz os riscos para jogadores e espetadores, mas existem também riscos para os adeptos que se possam reunir no exterior. Estes estão expostos a um risco ainda maior, porque não serão assistidos por muitos médicos, observa Friederike Otto.

Já no verão de 2025, durante o Mundial de Clubes nos EUA, houve várias paragens por causa do calor.

Medidas pedidas

Também esta quinta-feira, numa carta aberta, 20 especialistas do Reino Unido, Estados Unidos, Canadá, Austrália e Europa propuseram algumas medidas, para reforço da proteção da saúde dos jogadores:

  • Adiar ou suspender jogos quando o índice WBGT ultrapassar os 28ºC;

  • Introduzir pausas de arrefecimento mais longas, com pelo menos seis minutos;

  • Melhorar as condições e os equipamentos de arrefecimento disponíveis para os jogadores;

  • Atualizar regularmente as diretrizes com base nos mais recentes dados científicos.

Andrew Simms, diretor do New Weather Institute e coordenador da carta, afirmou à BBC Sport que a segurança dos jogadores é uma preocupação «imediata e urgente», alertando que situações graves podem surgir rapidamente em condições de calor extremo. «Estamos preocupados com o facto de a FIFA estar a agir de forma irresponsável em relação à saúde e segurança dos jogadores», afirmou.

A iniciar sessão com Google...