Boavista: clube afasta-se da SAD para «ressurgimento»
Perante a crise financeira e desportiva que atingiu o Boavista, uma vez mais, a Direção do Clube está empenhada em assumir um novo rumo, desligado da SAD.
Para além do processo de insolvência e da descida administrativa aos campeonatos distritais da equipa de futebol, o emblema axadrezado lida ainda com suspeitas de crime, que levaram a Polícia Judiciária a realizar buscas no Estádio do Bessa, esta quinta-feira, por alegada «fraude fiscal, frustração de créditos e branqueamento de capitais», que podem ter gerado «lucros ilícitos estimados em cerca de 10 milhões de euros», de acordo com o comunicado da própria PJ, que não identificou o clube.
Neste contexto, o presidente boavisteiro decidiu publicar uma carta aberta a todos os sócios e adeptos, na qual assume o momento «particularmente delicado e decisivo». «O projeto do futebol profissional falhou, para grande desilusão de todos nós», acrescenta Rui Garrido Pereira, que garante que a Direção do clube não teve responsabilidade, na medida em que «procurou sempre garantir todas as condições necessárias para que pudessem ter sucesso, mesmo tendo sido colada à margem de muitas decisões».
«Chegou, pois, o momento de virar a página. Durante os últimos 24 anos, vivemos o tempo da SAD, numa altura em que o Clube investiu tudo em nome do futebol profissional, aceitando, muitas vezes, um papel secundário. Na presente data, tudo mudou e muito colapsou, mas é justamente neste momento de transição que se abre uma nova oportunidade para o verdadeiro ressurgimento do nosso Clube», analisa o líder axadrezado, que lembra que o mandato «não é de seis meses, é de três anos, e o caminho faz-se passo a passo», defende.
A Direção decidiu solicitar à Assembleia Geral a marcação de uma reunião extraordinária de associados, mas esta carta assinada pelo presidente deixa, desde já, um conjunto de respostas a perguntas com as quais tem sido confrontada.
Rui Garrido Pereira garante que o clube não está em risco de fechar portas, e encara o Plano de Recuperação, que seguiu os trâmites legais, como «uma resposta responsável e estruturada para assegurar o futuro», com o objetivo de «proteger o património, assegurar a viabilidade das modalidades, regularizar passivos antigos e construir um caminho novo com autonomia».
É assumida a responsabilidade de «garantir que o futebol sénior continua a existir, independentemente do futuro da SAD». «Vamos começar de forma limpa, com as nossas próprias decisões, sem dependências externas, com os nossos valores», acrescenta a carta aberta, que diz ainda que a equipa sénior «será inscrita na divisão compatível com a sua realidade atual». «Estamos em conversações com as várias entidades, no sentido de encontrar uma solução que cumpra os regulamentos desportivos. O importante, neste momento, é que o futebol sénior seja assegurado, com seriedade e ambição para crescer com consistência», acrescenta o documento.
A carta aberta faz referência a um «diálogo construtivo» com credores, através de uma «postura aberta e responsável», e assegura também que já existem «manifestações concretas de interesse» por parte de investidores, mas no pressuposto de um investimento «sustentável e alinhado» com os valores do clube. «A identidade do Boavista não está à venda», reforça Rui Garrido Pereira, que encara este momento como «uma oportunidade histórica de recomeçar com dignidade, com os pés no chão e os olhos no futuro».
Relativamente às responsabilidades na gestão da SAD, o presidente explica que o clube «manteve uma posição de exigência e vigilância, mas não tinha controlo». A Direção «está disponível para recorrer a todos os mecanismos de verificação que os sócios considerem adequados», nomeadamente auditorias independentes, mas entende que o mais importante agora «é garantir que os recursos disponíveis são usados para recuperar o Boavista».