José Mourinho — Foto Miguel Nunes
José Mourinho — Foto Miguel Nunes

Ruben Amorim, respostas «foleiras» e gargalhadas: Mourinho na íntegra

Treinador do Benfica lançou com boa disposição, e não só, o jogo com o SC Braga

— Tendo em conta o quadro clínico e o mês que o Benfica está a viver, há necessidade de uma reinvenção ou as bases da identidade da equipa já estão solidificadas o suficiente? 

— Há sempre necessidade, não diria de reinventar, mas de adotar, e principalmente porque nos vão faltar opções em termos de rotatividade, em termos de um segundo jogador para cada posição. Vamos ter obviamente de fazer um bocadinho de exercício. Se não há António Silva e se há Tomás e Otamendi, obviamente que o terceiro virá de baixo, neste caso o Gonçalo Oliveira, e por aí fora. Ontem, a equipa B foi claramente prejudicada [clássico com FC Porto B, para a Liga 2, 1-1] pelas necessidades da equipa A. Obrigaram [Nélson] Veríssimo a tirar ao intervalo Prioste e João Rego, prejudicou-os naquele jogo, mas vão estar no banco amanhã. Dentro deste tipo de colaboração nasce a proteção aos problemas de lesões que nós temos neste momento, sem ter de reinventar grande coisa, espero eu, se as coisas ficarem por aqui e se formos progressivamente recuperando, em vez de perder mais ativos, tentando equilibrar as coisas. Às vezes há um jogador que está lesionado duas semanas e não joga dois jogos, neste caso um jogador que esteja lesionado duas semanas não joga seis jogos, portanto não é fácil, mas vamos embora. 

— Neste quadro, pode dar mais minutos a jovens e até promover estreias?

— Estamos numa situação em que ainda não nos conseguimos equilibrar. Gonçalo Oliveira amanhã estará no banco, está ali à porta.  Podia dar, obviamente, mais exemplos. Sem Enzo [Barrenechea], Prioste está à porta. Com Dahl, a porta para José Neto está fechada, mas, eventualmente, pode abrir-se, ele está perto da porta. Temos vindo a abordar os nossos problemas praticamente sempre da mesma maneira. Recordo o drama da lesão do Lukebakio, como ele se lesionou, nós abordámos as coisas no sentido de, ‘ok, nós sabemos o jogador que ele é, ok, nós sabemos a importância que ele tem na equipa’. Nós estamos a tentar desenvolver a equipa numa outra direção, com a perda do Lukebakio. Ok, internamente algumas lágrimas, mas tentámos sempre passar uma ideia de que vamos encontrar soluções e fomos encontrando soluções. Agora a coisa está, efetivamente, mais difícil, mas este campeonato de segunda liga é muito bom para o desenvolvimento dos jogadores, portanto eles quando vêm e têm de jogar connosco têm uma preparação de base já muito boa.

— Podemos esperar jogo mais calculista de SC Braga e Benfica tendo em conta o último encontro?

— Acho que às vezes as vossas perceções de fora, que são obviamente legítimas e muitas vezes têm como base aquilo que vêem no campo ou na TV, não são coisas que os treinadores quisessem que acontecessem. Às vezes os jogos vão em direções que os treinadores não querem. Não acredito que o Braga, a ganhar 2-1 ao intervalo, tenha entrado na segunda parte a dizer, ‘ok, nós agora vamos só defender porque estamos a ganhar 2-1’. Não acredito de todo, mas quem visse a segunda parte poderia pensar que o Braga veio para defender o resultado de 2-1. Da mesma maneira que alguém estará errado se disser que o Benfica depois de ter feito 1-0, sem ter feito muito até aquele momento para fazer um golo, a partir dali tentou simplesmente defender 1-0 até ao final do primeiro tempo. Mas este é um jogo que tem de acabar com vencedor. Conheço bem o Carlos [Vicens] e conheço o seu processo de formação até chegar a treinador do Braga e também não acredito que vá a pensar: ‘vamos aguentar até o minuto 90, que depois há penáltis’. Penáltis é uma loucura e eu não acredito nisso. Tem tudo para ser um bom jogo. 

— Ruben Amorim foi despedido, consegue entender a situação que ele passou? E a saída dele é um fator de pressão para os treinadores em Portugal? 

— A saída do Ruben é um fator de pressão para os treinadores em Portugal? Não percebo porquê, mas cada treinador responderá por si próprio. Para mim não. Conheço bem a minha carreira no Manchester United, obviamente, e o motivo porque acabei por sair também o conheço bem, mas quando saio de um clube fecho a porta, não faço comentários, não analiso muito externamente aquilo que aconteceu. Fecho uma porta, abre-se uma outra, foi o que aconteceu quando eu saí do Manchester United. A história ficou lá, os números ficaram lá, as três medalhas que ganhei vieram para casa e já está. A situação que se passou com o Ruben neste ano e meio, mais ou menos, 14 meses, é uma coisa que só o Ruben poderá analisar. Conhecendo o Ruben mais ou menos bem como conheço, acredito que o fará, ele e o seu staff. Se depois o fará convosco e tornará pública a sua visão da situação, já é uma coisa que eu não conheço. 

— A conquista da Taça da Liga chegará para pensar que é uma boa época do Benfica ou não chega para si?

— É tudo muito hipotético, nem sequer sabemos se chegaremos à final e se chegarmos à final também não sabemos se ganhamos ou perdemos, não sabemos se trazemos a taça para casa ou não. Não gosto de ver as coisas nesse sentido de ‘isto será suficiente ou isto não será suficiente’. Suficiente é fazer aquilo que nós fazemos, é chegar ao limite daquilo que nós temos para dar, no meu caso como treinador, no caso dos jogadores como jogadores. Cada um nas suas funções tem de dar o seu máximo, independentemente da situação ser boa, ser menos boa, ser má, ser péssima, esse é o desafio que eu ponho sempre a mim próprio e ponho àqueles que trabalham comigo. Não é agora com 62 anos e 11 meses e mais alguns dias que eu vou mudar, não consigo ser assim. 

— Já tem previsão para a ausência de Enzo Barrenechea? E que significado pode ter esta situação para Manu Silva?

— O que eu posso dizer do Enzo é que foi decidido tratamento conservador, não tratamento cirúrgico. Se houvesse tratamento cirúrgico a época tinha acabado, tendo em conta que nós precisamos dele  e tendo em conta a avaliação que ele e o departamento médico fizeram, há boas possibilidades de poder recuperar de maneira, digamos, não cirúrgica, de modo mais conservador, reforçando a área e tudo mais. Nesse sentido, vamos ver, pode ser que chegue para o jogo com o FC Porto na próxima semana, se não chegar pode ser que chegue ao jogo com o Rio Ave. Para amanhã não e eventualmente para uma final no sábado também não. Em relação ao Manu Silva, há portas que se fecham e portas que se abrem. Temos dois jogadores para aquela posição, dois jogadores, digamos, já com estabilidade na primeira equipa, Manu e Aursnes, podemos jogar perfeitamente com o Aursnes e não com o Manu, mas as opções estão ali. E depois o Prioste, que tem meia dúzia de minutos na equipa principal do Benfica na época passada, mas tem muitos minutos na equipa B, a demonstrar maturidade, a demonstrar conhecimento do jogo. É um jogador da equipa principal que vai à B, não é o inverso.

— Luciano Gonçalves, presidente do Conselho de Arbitragem, deu uma entrevista exclusiva a A BOLA e defendeu que o futebol português não está preparado para a forma como os árbitros comunicam e revelou igualmente que iria suspender programas de arbitragem no Canal 11 e na Sport TV. Concorda com a ideia de que o futebol português não está preparado para a forma como os árbitros comunicam e que os problemas da arbitragem em Portugal têm a ver com programas de televisão?

— O presidente dos árbitros será a pessoa indicada para fazer esse tipo de análise. Eu acho, obviamente, que o debate público encerra uma dose maior de pressão. Sem ele acho que seria muito mais fácil, obviamente, para os intervenientes no jogo. Imagine eu, treinador, imagine a minha equipa fazer um jogo horrível e perder. Era muito melhor para mim acabar o jogo e não ir à sala de Imprensa, por exemplo. Era muito melhor para mim que durante uma semana não se falasse sobre os erros que eu cometi, sobre os erros que a minha equipa cometeu. Portanto, obviamente, não haver debate público acho que dá maior estabilidade. Mas, por outro lado, o debate público, o confronto, as perguntas também dão um sentido de responsabilidade diferente, porque te obrigam a enfrentar as coisas, a enfrentar os problemas que tu tiveste, que tu criaste, os problemas que te foram criados. Não sei o que é que será melhor, o que que será pior. Honestamente, não consigo. Acho que seria bom, e não é obviamente estar a fazer um autoelogio, seguir a minha perspetiva de que, antes dos jogos, os árbitros são todos bons. Não há um único árbitro que não seja bom, não há um único árbitro que não seja competente,  não há um único árbitro que não seja honesto. Não estou a vender fumo nem a fazer teatro, é verdade, é verdade. Para mim, todos os árbitros que possam apitar de jogos do Benfica são bons, são todos bem-vindos. Depois do jogo, em função da performance, eles são bons ou são maus, eles estiveram bem ou estiveram mal. Não há nada a fazer, nós treinadores vamos sempre dizer ‘não estou contente por isto’. Vocês ou os programas de arbitragem na televisão vão sempre analisar,  mas depois também dá para perceber que há muitas situações que mesmo analisadas, por experts ou hipotéticos experts, em que não há unanimidade. Pode acontecer perfeitamente um penálti assinalado e aparecem 10 comentadores de arbitragem, seis dizem que é penálti e quatro dizem que não é penálti. E é neste tipo de situação que eu continuo a dizer que o VAR perturba o desenvolvimento natural do jogo. O VAR ajuda, ajuda em situações claras e inequívocas. E eu acho que o árbitro ficará super feliz por ter alguém que fala com ele ao auricular e que lhe diz, ‘amigo, tu cometeste um erro inequívoco, anda cá, vais pôr as coisas no seu devido lugar. O árbitro vai ver, muda a sua decisão e saímos todos felizes. Aquilo que verdadeiramente me perturba são as situações duvidosas. E são exatamente as situações duvidosas que depois vão dar origem a que se fale muito durante a semana e que obviamente cria instabilidade maior nos árbitros.

— Taça da Liga é importante para si ou é apenas mais uma taça?

— Eu não consigo olhar para as coisas desta maneira. Se calhar não jogo a final da taça da Allianz Cup. Portanto, já aí um se. Depois, se jogar a final, pode ser que ganhe e pode ser que não ganhe. Estou habituado a jogar finais, ganhei muitas e perdi algumas e isso dá um know-how, uma certa estabilidade emocional. Mas acho que não ajuda a ganhar ou a não ganhar. E o facto de eu ter já ganho tanta coisa não me retira o mínimo apetite de continuar. 

— Se o Benfica passar à final da Taça de Liga, terá um jogo com o FC Porto muito próximo. Envolverá alguma gestão? E Aursnes entrará nessa gestão?

— Não temos, neste momento, condições para pensar em qualquer tipo de gestão. E estes jogos não dão muito espaço a pensar em rotatividade. Principalmente numa meia-final, que pode significar que vais diretamente para casa. Não temos condições para fazer muita rotatividade. É a questão do Aursnes e de todos os outros. Não há jogadores suficientes, não há duplos ou réplicas, como queiram chamar. Vamos como vamos. Vamos até ao limite. Tem de ser jogo a jogo. Ele joga, será titular, depois se houver jogo no sábado logo se vê como é que ele reagiu ao jogo com o Braga.

— O Benfica é o clube com mais Taças da Liga, aumenta a responsabilidade?

— Não. Mas faça outra pergunta, que a minha resposta foi muito foleira. Se quiser, faça outra. Se quiser fazer outra pergunta para tentar que eu diga alguma coisa... [risos]

— Não tendo Samuel Soares, haverá rotatividade na baliza? 

— Não! Faça mais uma! Faça mais uma, então. [risos]

— Que importância tem voltar a Leiria? Algum simbolismo?

— Não há. É igual. Jogar em Leiria ou jogar no outro sítio, é igual. Faça a quarta pergunta! As perguntas são boas, só que as respostas são fáceis [risos].

— Que importância teria para si ganhar o primeiro troféu pelo Benfica?

— Gostava muito que acontecesse. Para o Benfica, mais uma Taça da Liga, menos uma Taça da Liga, mais um troféu, menos um troféu no Museu, não vai mudar a história do Benfica. Agora, a alegria dos adeptos e um grupo que merece muito… é aquilo que no fundo cativa a que haja esta ambição de conseguir. Este grupo é muito bom, de gente muito boa, de gente muito amiga, de miúdos que não criam um único problema, é um grupo que trabalha muito e bem, é um grupo solidário, as pessoas que trabalham à volta da equipa, dos jogadores, uma dedicação muito grande e por todos eles é que eu gostava muito de conseguir ganhar o troféu. Quatro perguntas para uma resposta!