O logótipo em vez do símbolo, caro José Mourinho?
Uma das palavras que começou a entrar bem fundo no léxico futebolês é «contexto». Ainda bem. No entanto, é menos utilizado ainda do que deveria. O contexto pode transformar o certo em errado e a verdade em mentira sobretudo dentro, mas também fora das quatro linhas. É a parcela mais importante de qualquer equação futebolística.
Esqueçam as frases feitas que vêm do tempo em que nos deixávamos maravilhar com tudo o que víamos na caixinha mágica, embelezada a naperons e anjinhos de gesso, na nossa juventude, ou ponham-nas um pouco de lado. Se apanharem pela frente um holandês, o povo mais frontal que existe, serão desmontadas em três tempos. Como repetiria Cruijff se fosse vivo, depois de tanto o ter dito a contemporâneos, «se tens o recorde de quilómetros percorridos é porque estiveste quase sempre mal posicionado».
Muitas vezes, ouvimos que «os melhores devem estar sempre em campo». Em tese, sim. Desde que se consiga equilibrar o coletivo — com nomes, dinâmicas ou características — para também encontrarmos nesse plano o ponto mais alto da equipa. Se dois ou três apagam ou diluem outros do processo, ofensivo ou defensivo, então há dois caminhos: impôr-lhes o mais possível do modelo sem que percam o que os torna únicos; ou, se não for possível, trabalhar no futuro para trazer atletas multidimensionais, que não se deixem prender a um único talento.
Claro que Haaland deu algo a Guardiola que este não tinha, e foi com o norueguês que o espanhol conheceu a glória continental, mas a quebra do princípio levou a abdicar de outros e ao afastamento cada vez maior da sua identidade. Guardiola colocou a sua bandeira com força no Elbrus, mas nunca mais encontrou as fórmulas que tinham feito dele o que é e que desapareceram na avalanche que provocou. As épocas tornaram-se difíceis e mesmo que ganhe nesta será sempre mais o Arsenal que a perdeu do que ele a conquistá-la, tal a vantagem perdida.
Também o Mourinho de 2000 fazia sentido na Luz, ao contrário de hoje. Há 25 anos, aquela energia e fé inabaláveis, o trato dos jogadores quase como iguais, oferecendo para exigir depois, e picando-lhes os miolos para extrair o que davam sem ter, elevaram-no à categoria de general, o líder que todos seguiam para a guerra. Depois, eram treinos dos quais a bola nunca desaparecia, o adeus à praia e ao mato, às corridas intermináveis e ao trepar bancadas com colegas às cavalitas. Tudo inspirado na Periodização Tática e trabalhado por Rui Faria — e não havia um único exercício que não refletisse uma situação de jogo. Não saberemos o que seria se o ultimato tivesse funcionado, porém vivemos um pouco o que foi. E a curva era ascendente.
Era outro Mourinho. Revolucionário. Hoje, a revolução é paradigma, e a diferença senso comum. Era organização, equilíbrio e estratégia, porém as suas equipas eram também ofensivas, gostavam de ter a bola e de jogar com ela. Hoje, é um treinador que não se importa de não a ter para jogar em contra-ataque, uma deformação que saiu do confronto com Guardiola e que depois nunca mais adquiriu a forma inicial quando se desencontraram. Ainda que os jogadores o respeitem, já não acreditam em tudo. E já não tem Rui Faria, o seu Peter Taylor. Não se superiorizando no treino ou na motivação, sobra-lhe a estratégia. E essa ganha jogos, não campeonatos.
O Benfica foi obrigado a reinventar-se sem ele. Demorou talvez mais tempo, mas conseguiu-o. Não é o mesmo clube moribundo, apenas vive sem rumo — e isso deveria ser um aviso para todos os treinadores que ficam a pensar que consigo seria diferente. Na verdade, na Luz é um dois-em-um que faz sentido, um treinador que traga um modelo vencedor e um manager, que além de tomar decisões mais macro ainda seja capaz de ser a figura central na gestão do mercado. Quem só for treinar, esqueça. Sofrerá com o vazio. E que não esqueça: estar-se só num clube tão grande faz aparecer todos os fantasmas.
Há também uma cultura. Começou a ser criada com Jorge Jesus, com os seus defeitos e qualidades, mas existe. Uma cultura que a primeira versão de Lage, por força do talento imenso de Félix e Jonas, ainda coloriu depois do maior cinzentismo de Rui Vitória. E que Schmidt voltou a resgatar para o Lage mais pragmático, primeiro, e Mourinho, depois, virarem do avesso. Uma cultura de futebol de ataque, que chegou a ser também de vitória em alguns momentos. No pós-JJ, cresceu a Academia. Que a natureza mercantilista do clube foi usando conforme deu jeito, estourando os milhões que esta e o scouting lhe deram em más decisões, ordenados incomportáveis e sabe-se lá bem mais o quê. Entretanto, mais uma bela geração volta agora a bater à porta sem estar lá quem a abra.
O que nos diz a lógica? Que o Benfica precisa de uma organização de ataque para dominar e ultrapassar adversários fechados, numa liga em que as diferenças são visíveis. E, para isso, tem de ter armas coletivas e não apenas individuais. Precisa que Lukebakio não apague Dedic, que este Schjelderup não seja vendido e se torne referência, que Sudakov volte a estabelecer ligações com Pavlidis, que a fase de criação tenha jogadores que consigam gerir a bola, resistindo à pressão, fazendo chegá-la ao sítio certo no momento ideal. Precisa de quem pegue neste plantel, não desista dele e lhe acrescente argumentos que lhe dêem sentido. Que acredite que na formação estão prontos. Ainda mais porque se terminar em terceiro o investimento será reduzido. E precisa, sobretudo, de um treinador que aponte para o símbolo do clube e não para o seu próprio logótipo. Um projeto desportivo nunca deve ser uma arma de arremesso contra os críticos. Tenham estes, ou não, razão!
Enquanto isso, num Real Madrid que adora a transição — os muitos anos de Ancelotti e até Zidane e Benítez acentuaram o anti-tiki-taka —, jogadores feitos, sem nunca ter tido muito espaço para Pavónes, e onde até o maior dos Galáticos o respeitará e se pensa mais na Liga dos Campeões do que na Liga, parece ser mesmo o contexto ideal. Por muito que o incomode — o que acredito que, no íntimo, nunca terá acontecido.