Armindo Araújo avançou para tribunal depois de ter sido o melhor português no Campeonato Nacional de ralis, em 2024 e 2025, e não ter recebido o título, entregue a estrangeiros. Quer ver Lei esclarecida

Armindo Araújo: «Um piloto que não é português não pode lutar pelo título de campeão nacional»

Armindo Araújo avançou para tribunal depois de ter sido o melhor português no Campeonato Nacional de ralis, em 2024 e 2025, e não ter recebido o título, entregue a estrangeiros. Quer ver Lei esclarecida

—  Armindo Araújo é, provavelmente o piloto português mais conhecido: sete vezes campeão nacional, duas vezes campeão do mundo e, neste momento, continua com a Skoda no Campeonato Nacional de Ralis. Uma carreira que, curiosamente, começou nas motos?

—  Muito cedo e sem uma tradição familiar no desporto automóvel. Tive a felicidade de me oferecerem a primeira mota aos seis anos, no dia da minha primeira comunhão, e construí muitos dos meus sonhos. Um bocadinho contra a vontade familiar — porque os meus pais não me apoiavam nessa vontade —, fiz o Nacional de Enduro, em 1995, e fui logo vice-campeão nacional. Era um miúdo, 16 anos,  e não conseguia montar um projeto estruturado, fui sempre amador. Em 1999, venci o Troféu da KTM, e o prémio da KTM era visitar a fábrica na Áustria e o meu projeto passava por fazer o Dakar de mota. Era um sonho que tinha. Um dia fui ver um rali perto da casa dos meus pais, em Santo Tirso, do campeonato de promoção de jovens pilotos. E com um amigo de escola, o Pedro Queirós, decidimos alugar um carro e fazer um rali tipo brincadeira. Ficámos em segundo lugar e na prova seguinte vencemos. Movi as minhas forças para os carros e fui campeão nacional logo nesse ano no Campeonato de Promoção. No ano seguinte passei para o Troféu Saxo, venci e  fui convidado para piloto oficial da Citroen Portugal. Passei a ser o mais jovem piloto português a integrar uma equipa oficial. Foi o início da minha carreira: venci com a Citroen, com a Mitsubishi, e fui para o Campeonato do Mundo, onde fui duas vezes campeão do mundo com a Mitsubishi. Entrei na equipa oficial da Mini no WRC e depois estive  cinco anos parado. Voltei em 2018 com a Hyundai, com a qual fui campeão nacional novamente. Depois passei para a Skoda,  marca em que estou e com a qual também já fui campeão. 

—  Porque parou cinco anos?

—  Depois de ser duas vezes campeão do mundo, entrei no projeto da Mini, um projeto a nível mundial de casa-mãe. Um projeto, hoje pode dizer-se, mal estruturado. A Mini entrou com uma vertente muito forte de marketing e muito pouca vertente técnica e o carro não teve sucesso. Saí porque não correspondia às minhas ambições, mas depois de estar no topo da pirâmide mundial do automobilismo, fiquei um pouco sem saídas. Tinha equipas de topo com lugar de entrada para mim, só que temos de levar uma forte comparticipação financeira e eu, como português, num mercado muito reduzido, não consegui.

—  Estamos a falar de quanto?

—  Na altura, dois milhões de euros para fazer a época.

—  É mais difícil chegar ao topo ou manter-se lá?

—  Não temos ninguém sequer a subir a escada para o WRC neste momento. Não temos ninguém a fazer o Campeonato da Europa ou o Campeonato do Mundo. Sou o único piloto que tem dois títulos mundiais de ralis. Não é fácil. E eu felizmente sempre fui bem apoiado. No final de 2017 — sempre fui piloto ACP — o presidente Carlos Barbosa ligou-me: 'Armindo, tens de vir fazer a abertura do Rali de Portugal porque preciso de um piloto que tenha experiência de WRC.' Fui, fiz a prova do WRC de carro zero, carro segurança, e senti que as minhas habilidades e vontade ainda estavam lá. E depois o destino veio ter comigo. Encontrei uma pessoa amiga do presidente da Hyundai Portugal, que ia montar uma equipa de ralis. Rapidamente chegámos a um encontro de ideias e a uma solução de carreira e no ano seguinte comecei a fazer o Campeonato Nacional.

—  O que é  faz melhor hoje do em 2009 quando foi campeão mundial?

—  Sou um piloto que se apoia muito na experiência, nos muitos quilómetros e muitas corridas, em como estruturo a preparação das corridas. E na forma como enfrento cada prova e cada adversidade. Tento saber qual a melhor forma de atacar, a melhor forma de defender, quando tomar soluções técnicas mais arrojadas ou mais conservadoras. Sei que, aos 48 anos, poderei não ter a velocidade dos 25, mas a experiência ajuda-me imenso e umas coisas compensam as outras. 

—  Há assim alguma vitória com um peso emocional mais forte?

—  Há várias vitórias e histórias. Quando venci o título de campeão do mundo com o Nasser Al-Attiyah, que venceu agora o Dakar. Fico orgulhoso de ter lutado com um piloto que já ganhou cinco vezes o Dakar e conseguir vencê-lo. Ou, no rali de Portugal, quando venci contra pilotos de fábrica. Campeonatos que foram ganhos em condições muito especiais, em terrenos como a neve ou o gelo, aos quais não estamos habituados.

—  Os ralis perderam romantismo ou ganharam profissionalismo?

—  Ganharam profissionalismo, não em tudo, mas em algumas vertentes muito profissionalismo. Aquele romantismo de festa perdeu-se porque quando profissionalizamos temos obrigatoriamente de reduzir parte dessa festa da aventura que havia antigamente. Hoje todas as equipas isolam-se, trabalham para dentro. Depois têm equipas de marketing e agências a trabalhar na comunicação. Antigamente, era um bocadinho o espírito de amizade. Íamos para os mesmos hotéis, jantávamos todos juntos, pilotos, equipas, etc. E isso foi-se perdendo. Mas acho que é geral. Os vizinhos nem se conhecem nos prédios, não é? É o reflexo da sociedade no nosso desporto.

—  O sucesso internacional não é reconhecido internamente?

—  Penso o contrário. O meu sucesso internacional deu-me um reconhecimento interno enorme que me permitiu alavancar a minha carreira. O reconhecimento como piloto português de ralis é grande e  quando tenho uma abordagem a uma empresa, as pessoas levam o projeto a sério. Oiço: 'Lembro-me quando foi campeão do mundo.' Credibiliza a mensagem e consegui capitalizar isso para montar projetos desportivos todos estes anos.

—  O desporto motorizado é caro?

—  É muito caro porque, comparativamente a um nadador, um atleta que faça running ou qualquer outro — requer tempo, dedicação, muito esforço. Sem retirar mérito aos outros, mas o impacto financeiro é muito mais reduzido do que no nosso. Temos carros, engenheiros, camiões de assistência, carros de reconhecimento, logística, etc.. E a nossa realidade! O campeonato português corre com carros, tem engenheiros, pneus, gasolina iguais aos campeonatos italiano ou alemão, mas a economia deles é muito diferente. E obriga-nos a muita ginástica para colocar na estrada projetos com qualidade. E depois quando temos parceiros que apostam em nós — a Galp que é minha patrocinadora há mais de 20 anos — não podemos defraudar essa confiança. Tenho muito cuidado quando apresento um projeto, tento estar rodeado dos melhores para obter os melhores resultados.

— Essa internacionalização trouxe-nos a uma questão polémica e da qual o Armindo é um dos intervenientes: os pilotos estrangeiros no Campeonato Nacional.

—  Sou a favor que pilotos estrangeiros possam cá correr, aumentam a competitividade, aumentam o retorno nos media e fazem com que os pilotos portugueses vão para um patamar de condução, de esforço, ainda maior porque são pilotos que até podem vir de campeonatos mais fortes que o nosso. Depois podemos questionar para o que é que contam em termos de campeonato. Mas pela  corrida e pela competição, acho que são uma mais-valia.

—  O que não podem é ser campeões nacionais?

—  Exatamente. A minha opinião é que devem correr, são sempre muito bem-vindos, podem vencer as corridas, mas existe um estatuto diferente que é lutar pelo Campeonato e definir quem é o campeão nacional. Um piloto que não é português não pode lutar pelo título de campeão nacional.

—  Nos últimos dois anos o Armindo foi a pessoa mais prejudicada porque era o primeiro português.

—  Exato.

—  E neste momento o caso já foi para tribunal, a Federação também, o Ministério Público e o Armindo também decidiu participar nesta discussão, legalmente falando.

—  Fui quase obrigado a participar nesta discussão. Pelo meu es tatuto como desportista português, tenho responsabilidade social por aquilo que já fiz, conquistei e dos anos que aqui estou, de tentar clarificar o caminho para os jovens pilotos que possam estar na condição em que estou agora.

—  Começou com a decisão do Tribunal Arbitral Desporto (TAD).

—  Com a decisão que não se percebe como, sem me consultar, e eu era parte interveniente, atribuir o título ao Chris Meeke em 2024. Nesse processo, que teve algum atraso, foi metida uma providência cautelar para o Chris Meeke receber o prémio e essa decisão deu-lhe o título. Ficámos muito admirados porque não fomos tidos nem achados na decisão e consideramos que isso é ilegal. Sendo isso ilegal, recorremos. Essa decisão ainda corre em tribunal. Veio o ano de 2025 e outro piloto estrangeiro venceu o campeonato, o Dani Sordo. E aí não houve nenhuma decisão do tribunal e não havendo, ele não podia ser considerado campeão, mas a nossa Federação, a FPAK, decidiu, não sei como, sem nenhuma decisão de tribunal, atribuir-lhe o título. Algo que os meus advogados consideram não ser legal, atribuir um título sem uma causa ou uma fundamentação jurídica.

—  Em 2024, em relação ao piloto irlandês, o tribunal argumentou a livre circulação de pessoas. Porém, o regime jurídico das Federações diz  que nas modalidades individuais o título de campeão é entregue ao primeiro português.

—  Exato. A Lei das Federações, no artigo 62, n.º 2, diz que o título de campeão nacional só pode ser atribuído a um cidadão nacional em modalidades individuais. E temos variadíssimos exemplos no desporto português. Padel, atletismo, ténis, esgrima, surf... Consideramos que o que está escrito na Lei das Federações é aquilo que deve ser levado em conta e não alguma opinião que possa aparecer à parte disto. E daí termos perguntado — a nossa posição em tribunal é um bocadinho perguntar e esclarecer sobre esta lei o que é que efetivamente tem de se fazer. Há federações que tomam uma posição, outras tomam outra e andamos numa zona cinzenta. Como piloto e desportista estou um bocadinho a liderar mas só para esclarecermos o que é a verdade desportiva.

—  Não quer ganhar na secretaria?

— Não estou aqui pelo meu título, pelos meus títulos. Estou apenas para esclarecer qual é a lei que prevalece relativamente aos pilotos estrangeiros estarem a correr nos campeonatos portugueses e se o título de campeão nacional é atribuído ao primeiro português ou a qualquer pessoa. A Lei das Federações diz que é atribuído a um piloto português. E há uma decisão que está a ser tomada contra este artigo e nós queremos saber porquê.

—  Sente-se injustiçado?

—  Sinto-me injustiçado, sinto que o desporto em geral fica injustiçado e fica numa zona cinzenta. Como é que uma modalidade tem um campeão português, como é que outra modalidade que não é coletiva tem um desportista estrangeiro? Gostaria de esclarecer isto, apenas isto. Não estou a lutar pelos meus títulos, não venho aqui lutar por nada na secretaria. Faço as minhas lutas na estrada. Mas gostava que os jovens pilotos que hoje estão a começar pudessem ter o seu caminho claro e saber com que armas têm de lutar.

—  E esta posição tem-lhe causado dissabores no meio ou não?

—  Não, não quero qualquer guerra pública, quero um esclarecimento e acho que é justo o nosso desporto saber as regras.

—  Já teve vontade de se afastar por causa disto ou não?

—  Não. Sou muito claro nas posições que tomo, particularmente e em público. A Federação, com a qual tenho excelentes relações, e nós temos formas diferentes de ver este problema, mas respeitamos a posição de cada um.

—  Sente apoio de outros pilotos?

—  Não estou a lutar pelo meu título, estou a lutar para saber quais são as regras do jogo. Quando vou para um campeonato, leio os regulamentos, leio tudo para saber quais são as regras. E quando li disseram-me que o primeiro português era campeão nacional.

—  Há alguma coisa que ainda queira fazer no rali?

—  Bom,  subi os patamares todos dos ralis, fui ao pináculo dos ralis que é o WRC. Não considero que a minha carreira agora vá para o WRC outra vez. Estou a fazer o Nacional, que me motiva imenso, há já muitas equipas, muitos pilotos, muita luta. Para o futuro, já fiz uma pequena preparação nestes últimos anos, fiz algumas provas de todo-o-terreno, corri na classe de SSV num Can-Am, fui campeão nacional e estou a fazer alguma preparação...

—  A pensar no Dakar?

—  Exatamente. Vou fazendo preparação no todo-o-terreno, para, surgindo a oportunidade, poder estar preparado para atacar essa prova maior que é o Dakar, um objetivo que tenho há bastante tempo. Contudo, a minha fasquia é um bocadinho alta, quero fazer essa transição com qualidade, bem feita, tenho de ter essas condições para o fazer. Vamos fazendo a preparação para lá estar um dia.

—  Gostava que o recordassem pelos títulos ou pela forma como competiu?

—  As vitórias são importantes, mas a nossa forma de estar no desporto é mais. Como desportista e como pessoa, os valores que respeito são o maior legado.