Aqui, manda o clima, mr. Roberto Martínez!

Uma violenta tempestade elétrica obrigou anteontem Portugal a recolher ao pavilhão após meia hora de treino. No estado onde os raios não perdoam, as quinas aprenderam que por estas paragens a meteorologia dita as regras com mão de ferro

PALM BEACH GARDENS — O plano tático estava desenhado, o relvado impecável e Roberto Martínez dava as primeiras instruções sob o calor abafado da Florida. Contudo, nesta península dourada do sul dos Estados Unidos, há um selecionador invisível que manda mais do que qualquer treinador de futebol: o céu. 

E na preparação para o duelo com a Colômbia, bastaram trinta minutos de trabalho para que o eco surdo de uma trovoada tropical rasgasse o horizonte e recolhesse a Seleção Nacional aos balneários. O treino ao ar livre deu rapidamente lugar a um improvisado laboratório de pavilhão, numa demonstração clara de que, por estas coordenadas, o respeito pelas forças da natureza é uma questão de sobrevivência.

Não se trata de preciosismo ou de excesso de zelo por parte das comitivas. A Florida carrega o trágico e isolado primeiro lugar no ranking norte-americano de mortes causadas por raios naturais — com números que chegam a duplicar o segundo estado desta lista negra. A gravidade da situação ficou tragicamente vincada ainda esta semana, com a notícia do falecimento de uma criança local, atingida por uma descarga elétrica. Aqui, as autoridades não brincam em serviço e o protocolo de segurança é implementado com rigor militar.

A regra é clara e inflexível para locais e visitantes: se uma tempestade elétrica entra num raio de 12,9 quilómetros da nossa localização, a ordem é imediata para abandonar as ruas e procurar abrigo sob um teto seguro ou no interior de veículos blindados. Foi precisamente esse cenário de isolamento forçado que nos envolveu esta quinta-feira em Palm Beach, com o estrondo dos trovões a abafar as buzinas e a transformar a rotina da Seleção numa operação de abrigo.

Para Portugal, a interrupção acabou por transferir a vertigem tática do relvado para o piso de madeira do pavilhão, onde o drible curto e a troca de bola rápida substituíram a profundidade das alas. Longe do perigo dos relâmpagos, as quinas continuam a afinar a estratégia para o duelo de sábado frente à Colômbia.

Na Route 66, a caminhada faz-se de superação, e se o céu da Florida insiste em ditar as regras com eletricidade, Portugal responde com a envolvência e a capacidade de adaptação que definem os candidatos ao título. Este sábado, em Miami, espera-se que a única tempestade seja mesmo a de futebol.

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