Um relato de outros tempos para ler e guardar. Dos tempos em que Portugal raramente ia aos Mundiais... Contado na primeira pessoa por António Simões, uma das figuras do Mundial de 1966, em Inglaterra

António Simões: «Paguei para irem por mim à guerra, para ir ao Mundial»

Os 150 contos que deu ao Ivo serviram para ele comprar um andar à avó na Avenida de Roma, em Lisboa. Um relato de outros tempos para ler e guardar. Dos tempos em que Portugal raramente ia aos Mundiais...

Oprimeiro Mundial em que Portugal participou foi em 1966, em Inglaterra. Foi o início da epopeia e a façanha dos Magriços. O selecionador foi Otto Glória. Eusébio foi o melhor marcador com nove golos, mas havia um pequenino que jogava muito, de nome António Simões. Era extremo. Dos maiores, dizem os que o viram jogar. A BOLA levou António Simões até à Cidade do Futebol e foi na atual casa da Federeção Portuguesa de Futebol que recordou o que viveu de «Quinas ao peito».

— Estamos na casa de Portugal e todos sabemos que em 1966 nada disto existia, mas quando olha para a camisola desse Mundial, que fez questão de trazer para a nossa conversa, o que vem à memória?

— Não é por ser a de 66, mas acho esta camisola linda. Não é?! A ligação às quinas e aos descobrimentos e a tudo isso que é muito bonito. E a ideia de pôr o verde bandeira… Esta camisola marca uma geração espontânea, depois com alguma organização. Durante algum tempo, Portugal desperdiçou a vocação que tinha para jogar. Nós sempre tivemos vocação para jogar. Eu era bastante feliz a jogar futebol porque estava a fazer uma coisa que sonhei e que queria. Quantas pessoas querem fazer algo que gostam e não têm essa oportunidade? Eu estou muito grato por Deus me ter dado o dom e eu ter aproveitado. Vivíamos em ditadura, mas havia democracia no clube que eu representava, pois se eu pertencesse a um clube que fosse do regime não consigo perceber como é que andei aflito para trocar com alguém que fosse no meu lugar para a guerra. E eu tive de pagar 150 contos a uma pessoa. Paguei para outra pessoa ir no meu lugar para a guerra e eu poder ir ao Mundial jogar por Portugal.

Durante algum tempo, Portugal desperdiçou a vocação que tinha para jogar

— O António pagou 150 contos [750 euros] a outro militar para ir mobilizado no seu lugar para a guerra na Guiné?

— Exatamente. 150 contos.

— Naquela época, em Fevereiro de 66, dava para comprar o quê?

— Troquei com um rapaz que se chamava Ivo e que foi no meu lugar para a guerra. Ele disse-me que com esse dinheiro comprou um andar na Avenida de Roma para a avó, porque foi com ela que ele foi criado. Achei tão bonito…. Vejam bem o quanto foi bom aquela verba para aquele neto dar uma casa a uma avó que o acolheu. Isto é uma história lindíssima, não é? Até apetece dizer que ainda bem que eu tinha dinheiro para lhe dar, portanto foi muito bom e mais tarde encontrei-o em Moçambique e contou-me essa história. Fiquei deliciado.

— Ganhava 150 contos (750 euros) nessa altura?

— Não ganhava. Só passei a ganhar 250 contos (1250 euros) por ano depois do Mundial 66, quando fiz um contrato de três anos.

Com os 150 contos, o Ivo, que foi no meu lugar para a Guiné, comprou uma casa para a avó na Av. de Roma

— Quem eram os Magriços?

— Uma geração espontânea que tirou partido do sucesso do Benfica e do Sporting nas competições europeias. Mais a ajuda de África. É preciso não esquecer isso pois não eram permitido jogadores negros e nós levámos jogadores de África na nossa Seleção. Já tínhamos aparecido por aí com os títulos europeus. Mas faltava a consagração, e nada mais consagrado que a competição universal como um Campeonato do Mundo. Foi inesquecível o que fizemos e o terceiro lugar que alcançamos perdura até hoje, e estamos à espera de ver se conseguimos fazer melhor que isto. Eu espero que sim.

— Portugal terminou em 1.º lugar no Grupo 3, vencendo a Hungria (3-1), a Bulgária (3-0) e o então campeão em título Brasil (3-1).

— Houve um grau de dificuldade enorme. Em primeiro lugar, quando se deu o sorteio e apareceu o Brasil no nosso grupo… Bom, aí começou a epopeia de se conseguir passar à fase seguinte. Depois havia uma Hungria muito forte, e nós tivemos um bocadinho sorte nesse jogo. Conseguimos fazer nove golos e sofrer apenas dois. Fazemos o máximo de pontuação, seis pontos, visto que eram dois pontos por vitória. Portugal despertou interesse, até do público inglês, pois fomos aplaudidos nesses jogos. Tínhamos uma grande referência, que era o nosso querido Eusébio, que fascinou toda aquela gente com a sua espontaneidade surpreendente de terminar quase sempre com o golo. Tudo isto combinado com todos os outros que deram tudo o que tinham, mais aqueles que direi que eram os príncipes que serviam o rei. Fizemos um campeonato que ficou na história do futebol português e do País. Portugal, com aquilo que fez no Mundial de 66, pôs o seu nome no mapa mundial.

— Eusébio tornou-se o melhor marcador com nove golos, mas o Simões também foi titular nesses jogos todos e marcou um golo na vitória decisiva com o Brasil de Pelé.

— Exactamente. Tenho histórias com o Pelé fantásticas e confesso que o lado bom do futebol, é mesmo muito bom. Ele, de uma forma muito carinhosa, tratou-me por baixinho. Foi um lance iniciado por mim. Depois o Eusébio chutou, com uma força diabólica. O Manga, guarda-redes do Brasil, vai para encaixar no peito e eu vejo a bola a bola e cabeceio e faço chapéu de cabeça e a bola foi por cima dele e entrou na baliza. Veja bem, o António Simões faz um golo de cabeça, com um chapéu ao Manga. É lindissimo.

Portugal, com aquilo que fez no Mundial de 66, pôs o nome no mapa mundial

— Tem guardada a camisola 11 que usou no jogo com a Coreia do Norte, que como Portugal também estava pela primeira vez num Campeonato do Mundo. Foi nos quartos-de-final. Estivemos a perder por 3-0 e ganhámos 5-3, com o Eusébio a dar a volta.

— Estávamos no campo a perder 1-0. 2-0, 3-0… O Eusébio muito chateado, danado mesmo, começa a falar a língua Landim com o Hilário. Não percebi nada mas pela expressão dos dois faço ideia…. Sentia que tínhamos espaço para servir o Eusébio e lembro-me de falar isso com a equipa. O Eusébio fez dois golos lindíssimos e conseguimos a reviravolta.

O povo vivia em ditadura e o futebol deu-lhes alegria

— Como é que era o balneário nesse Mundial de 66?

— Naquela altura, e tendo em conta o que era a sociedade, nós éramos produto daquela sociedade que obrigava, entre aspas, a respeitar os mais velhos. O Mário Coluna, capitão Germano e os que tinham um estatuto. Eram importantes no grupo, mas também pela própria personalidade. Eu confesso que esta gente a que me estou a referir eram líderes. Mesmo sem ser necessário falar. Nós sabíamos o que tínhamos que fazer e eles apenas tinham um olhar. Chegava. Hoje é diferente, mas eu não sou contra aquilo que é diferente. Sou contra a ausência daquilo que é uma liderança natural de respeito.

— Naquela altura como era a vossa alimentação?

— Levámos coisas daqui. O bacalhau não faltou, o azeite, etc. Tomávamos o nosso café com leite e uma torrada. Nada foi alterado no que diz respeito aos hábitos que já tínhamos. Acho que quem estava foi inteligente ao perceber que não era o momento de alterar as refeições a que estávamos habituados. Nós em Inglaterra fomos com um pouco de Portugal connosco.

— Como é que era ter Otto Glória como selecionador?

— Ainda bem que me fez essa pergunta porque foi um treinador que eu gostei muito e que muito estimei. Os brasileiros têm muito jeito para fazer boas relações. Eles têm aquele falar doce que nos empurram e que nós, muitas das vezes, somos levados. Podemos até nem acreditar muito no que está a dizer, mas da forma como o dizem, nós vamos. Foi exatamente isso. Vou aqui contar mais uma pequena história. Jogámos em Bratislava, na ex-Checoslováquia. Ganhámos esse jogo memorável, por 1- 0. Uma loucura. Perdemos um jogador aos 20 e tal minutos. Ficámos com 10. Não havia substituições. Uma tragédia. Ao intervalo, Otto Glória fez uma palestra brilhante, individual a cada um. Eu era 11, era o último. Não sei se ele já estava cansado de ter falado com tantos, mas chegou-se a mim e disse: ‘Vou dizer uma coisa para você guri [menino], vai jogar como quiser.’ Ele sabia muito do futebol, mas sabia sobretudo como abordar e convencer que havia uma missão, um dever.

— Como foi jogar a meia final com a Inglaterra em Wembley?

— Bem, esse foi o único jogo que perdemos. Mas, eu tenho uma recordação enorme. Campo cheio, meias-finais do Mundial, no campo dos que vieram a ser campeões do Mundo e que nunca mais o foram. Nós perdemos uma oportunidade extraordinária de ir um pouco mais além. Mas nós não entregámos nada. Temos que reconhecer que Inglaterra também tinha uma grande equipa.

— Qual foi o jogador que mais o impressionou neste Mundial de 66?

— Confesso que achei uma injustiça o Eusébio não ter sido o melhor jogador desse Mundial. Foi o Bob Moore, que também foi um grande jogador. Mas o Eusébio foi o melhor de todos. O Rei fez coisas que não vi nenhum outro fazer e portanto acho que devia ter-lhe sido entregue esse prémio. Agora, como é lógico, houve grandes jogadores. Por exemplo, o Alan Ball, que era um pequenino que jogava na Inglaterra. Confesso que gostei muito de o ver. Como Jairzinho, que naquela altura substituiu o Garrincha, que jogou contra nós. De todos os coreanos que jogaram contra nós não consigo descortinar qual foi o melhor, porque eles eram todos iguais, até fisicamente. Mas impressionou-me aquele frenesim todo. Tenho gravadas na memória muitas imagens de 1966.

Dos coreanos que jogaram contra nós não consigo descortinar o melhor, eram todos iguais

A iniciar sessão com Google...