Algo está podre no reino de Madrid
Um dia, após uma reunião entre os governantes dos maiores países do mundo, foi anunciada a criação do maior observatório astronómico alguma vez sonhado. Cada um dos países escolheu os seus mais brilhantes cientistas e todos garantiram que havia pelo menos um especialista em cada uma das áreas que mais fazia sentido explorar. A expectativa mundial era elevadíssima. Seria agora, com toda a certeza, que se iriam descobrir os grandes segredos do espaço. As maiores estrelas mundiais estavam juntas, a trabalhar com o mesmo objetivo e, por isso, não havia como falhar.
Os cientistas chegaram ao observatório, novinho em folha e equipado com a tecnologia mais recente, motivados e confiantes de que fariam história. Teriam, finalmente, uma equipa à medida do seu talento e todos os recursos à disposição. Acontece que, logo na primeira noite, começaram os problemas.
Na hora de decidir para onde apontar o supertelescópio, cada um queria uma coisa diferente e, apesar de todos reconhecerem a competência dos outros, nenhum estava disposto a ceder. A primeira semana passou entre discussões técnicas inflamadas e ninguém observou nada. Na segunda semana, depois de definirem uma lista de prioridades, lá conseguiram, finalmente, fazer algumas observações. O problema foi quando dois deles se recusaram a fazer os cálculos de acordo com o método utilizado pelos restantes colegas — sabiam que o deles funcionava, estavam habituados a utilizá-lo e, por isso, não viram nenhuma razão para ceder.
Entretanto, passou um mês e os governos, tal como a sociedade, aguardavam com expectativa o primeiro relatório dos cientistas, acordado exatamente para essa data. Mas quando o relatório chegou, a desilusão foi absoluta: os relatórios eram incompletos, inconclusivos e as descobertas prometidas estavam longe de ser uma realidade. Fora do observatório, as pessoas interrogavam-se incapazes de compreender como é que a melhor equipa de cientistas do mundo, no centro com mais condições, produzia relatórios tão básicos. E poucos perceberam que o problema não residia na falta de talento da equipa, mas no excesso do mesmo. Os egos individuais recusavam-se a ceder. A equipa era composta por estrelas tão brilhantes como o sol, mas, ao contrário deste, não conseguiram definir uma órbita e isso conduziu-as ao fracasso.
Ora, chegados a este ponto da crónica, história de abertura contada, já todos terão seguramente percebido — até porque o título o denuncia — que esta equipa de cientistas foi a metáfora que escolhi para representar o Real Madrid que, e faço já aqui a minha declaração de interesses, é a minha outra equipa. E que fique claro, não é só uma equipa que gosto em Espanha porque sim. Já aqui referi, no contexto das seleções, que a minha família paterna vem do lado de lá da fronteira e, revelo agora, são uma longa linhagem de madridistas. Dito isto, adoraria não ter de estar a escrever este texto porque seria sinal de que tudo estaria normal no reino merengue. Acontece que a saída de Xabi Alonso comprovou aquilo que se vinha há vários meses comentando entre dentes: algo está podre no reino de Madrid.
Vejamos, Xabi Alonso, que no Bayer Leverkusen conseguiu a conquista da Bundesliga e a chegada à final da Liga Europa, chegou em graça ao Real. E essa graça continuou na primeira fase da época onde, em catorze jogos, a equipa ganhou treze — um deles ao Barcelona. Acontece que, com o passar do tempo, a equipa começou a perder alguma consistência e, nessa altura, começaram os primeiros rumores de tensão no balneário.
Segunda consta, algumas das vedetas do clube resistiram arduamente aos métodos de trabalho do treinador e à sua exigência tática queixando-se, por exemplo, de que viam limitada a liberdade criativa a que estavam habituados com Ancelotti. Terão existido, inclusivamente, várias reuniões para tentar resolver a tensão no balneário, mas poucos resultados terão tido. E a partir de certo ponto, alegadamente, alguns jogadores terão começado a remar em sentido contrário à equipa técnica.
Quem não se lembra da postura de Vini Jr. quando foi substituído no clássico? E mesmo agora, na saída, jogadores como Jude Bellingham tardaram em publicar a sua mensagem de despedida o que, acredito, é uma boa prova do distanciamento existente. Curiosamente, ao contrário destes jogadores, Mbappé, que tem sido muitas vezes apontado como o líder da contestação no balneário, foi rápido a deixar uma mensagem amigável a Alonso, talvez, quem sabe, para abafar o tema da guarda de honra ao Barcelona que, confesso, ainda não consegui perceber bem — há quem garanta que Mbappé incumpriu a indicação do treinador e deu ordens aos colegas para que fizessem o mesmo e quem afirme que foi a própria equipa técnica do Real Madrid que deu indicação a Mbappé para sair de campo.
O que parece certo é que aos dias de hoje, no Real, o poder está do lado dos jogadores o que, sinceramente, me faz pensar que mal vai a volta. Porque, lá está, são demasiados egos, demasiadas estrelas e demasiadas personalidades em modo última bolacha do pacote. A sensação que dá, de facto, é que no braço de ferro ganharam os meninos birrentos que são demasiado bons e importantes para se sujeitarem a demasiada exigência. Mesmo que tenham salários francamente obscenos. E aquele jogo contra o Albacete para a Taça do Rei? Deus nos ajude porque, de facto, isto só mesmo com intervenção divina.
Olhemos para o primeiro golo do Albacete no jogo e vejamos a defesa do Real. Mais espaço para o cabeceamento de Javi Villar? Só se lhe tivessem estendido uma passadeira. E depois uma posse de bola gigantesca que não foi aproveitada. Penetração no último terço? Fica para a próxima, obrigadinho. E a linha defensiva do Real, demasiado elevada e sem capacidade para cobrir o meio-campo nas transições rápidas do Albacete? Finalmente, a gestão de fim de jogo. Parecia a equipa do meu filho quando querem tanto marcar golo que se esquecem que uma retaguarda desprotegida pode dar mau resultado. E aqui foi exatamente isso que aconteceu com o golo da vitória do Albacete no último lance. Começou bem o reinado de Arbeloa que, se não se blindar, vai ser mais um a quem os jogadores comem de cebolada com o apoio de uma direção que já ninguém percebe.
Está em coma o clube que, desde 1902, faz com que «las mocitas madrileñas van alegres y risueñas porque hoy juega su Madrid».