O doutor, a gravata e a língua
Fernando Tordo tem razão: «Sou doutras coisas, pertenço ao tempo que há-de vir, sem ser futuro…»
Passei a semana entre o Líbano, a Turquia e a Argélia, longe da espuma dos dias do futebol português, talvez na efémera e muito ténue esperança de que alguma coisa pudesse mudar.
Tenho muitas dificuldades em entender o que não resulta da diplomacia do futebol. Há quase 28 anos, assisti, no Stade Gerland, em Lyon, ao jogo em que a bola fez muito mais do que a mesa de negociações. Um Estados Unidos-Irão, para o Mundial-98, em que tudo correu maravilhosamente bem.
Custa-me muito que, em Portugal, tudo continue na mesma. Discute-se o penálti, o cartão mostrado ou não, mandam-se bocas que, pela comunicação social, são imediatamente tornadas em soundbites de proporções inimagináveis, fala-se de cátedra, insulta-se com uma leveza de língua que revela uma de duas coisas: ou muito má educação, ou muito má resolução.
Vamos ao último facto, independentemente de razões próximas ou longínquas, de rivalidades que deveriam ficar apenas no campo de jogo. Sei que André Villas-Boas, rapaz de muito boas famílias que, estrategicamente, definiu como «cadeira de sonho» a presidência do FC Porto (nunca a de seu treinador…), não é o que se pensava, como líder de um clube que não quer ser regional e pretende projetar-se mundo fora. André é mais do mesmo: fala pouco e fala mal, estimula rivalidades com Lisboa (quando o país é um pequeno buraco comparado com geografias a sério), procura clivagem em vez de convergência. Tem muito a aprender, no que à diplomacia e até à geopolítica do desporto diz respeito.
E esse estímulo das rivalidades tem sempre retorno.
Neste caso, um retorno miserável, por parte de alguém que tinha (e tem) tudo para também poder marcar a diferença.
A forma e o conteúdo misturam-se, embora uma e outro tenham a respetiva importância, em cada momento.
O médico Frederico Varandas tem formação superior. Muitos de nós a temos, e muitos dos jornalistas com quem ele fala a têm (alguns, até, ainda mais validada pelos escalões do terceiro ciclo). Fala com uma arrogância extraordinária e, sobretudo, acusa um homólogo com termos que não orgulham nem dignificam ninguém.
Caro Varandas, sou ainda do tempo de João Rocha. Até de Sousa Cintra. Do tempo em que os presidentes do Sporting, antes de o serem, eram senhores. Mostravam, nas vitórias e nas derrotas, que o orgulho e a honra eram sempre superiores.
Sabemos que a palavra larga tem sempre correspondência. Que acusações de frágil perceção e comprovação podem cair em saco roto, ou ser alvo de respostas contundentes. Estamos de acordo que a paciência, muitas vezes, tem limites, como já devia ter tido para a generalidade da comunicação social portuguesa, decerto farta (pelo menos deveria estar…) deste tipo de arruaça verbal. Mas vive disso. Vive de clickbites, de momentos e picos de audiência televisiva, de um grande título para amanhã.
O senhor, caro Varandas, deveria ter ficado a falar sozinho. Defender o seu clube, engrandecer o nome do grande Sporting Clube de Portugal, jamais será como o senhor o fez, ou tentou fazer.
Vejamos, para ser mais claro: a defesa de um clube e a dignidade do seu presidente não se justificam por injúrias ou palavrões. É feita, como o senhor fez, ao longo dos últimos anos, por boas opções de gestão, pela requalificação do Estádio José Alvalade, pelo reforço da formação em Alcochete, pela conquista de títulos, obviamente, e pela sucessiva, consequente e gradual capacitação de quadros para uma estrutura mais capaz, mais completa e mais profissional.
Tudo isto deve ser amplamente reconhecido à gestão de Varandas, que trouxe, em determinado momento, uma inequívoca mais-valia ao emblema verde e branco.
É por isso que ainda custa mais ver a baixeza, o desequilíbrio emocional, e incapacidade de controlo que o presidente do Sporting Clube de Portugal revelou, perante jornalistas, após o jogo com o FC Porto, para a Taça de Portugal.
Sei que as provocações de alguns jovens profissionais, sedentos de algo que possa fazer valer a pena o tempo de espera, propiciam alguns dislates. Mas o senhor, médico e com gravata de seda, tem obrigação de reter as emoções e perceber que nem tudo valoriza a sua posição e o futebol português.
Aliás, tal entidade (se é que existe e é devidamente respeitada pelos seus atores…), é a que mais sofre com tristes espetáculos.
Queria responder ao líder adversário: deixava-o a falar sozinho.
Queria dar uma justificação aos seus adeptos? Falava da vitória alcançada, que o coloca em vantagem para o segundo jogo.
Queria dar uma lição aos jornalistas: piscava o olho e sorria.
Estava possesso e não se conseguia controlar? Não respondia, respirava fundo e ia beber um café. Podia ser que a ira lhe passasse.
Como nada disto aconteceu, o presidente do Sporting mostrou o que não devia. E toda a eventual razão que lhe pudesse assistir foi por água abaixo de forma tão rápida quanto, no futebol, temos de perceber os momentos.
Há uns em que os adeptos acreditam que, por sermos doutores, a coisa passa; por usarmos gravata, a coisa respeita-se. Mas a língua coloca tudo (e todos) no devido lugar.