Acreditar no título, uma homenagem a Ronaldo em Alvalade e o onze escolhido: tudo o que disse Paulo Fonseca
— Acredito que não tenha tido o tempo que desejava para preparar este encontro. O que é que espera desta equipa do Moreirense, num jogo que marca a sua estreia no comando técnico leonino no Estádio José Alvalade?
— Naturalmente, esperamos dificuldades. Tive a oportunidade de observar bem o Moreirense. É uma equipa que, se lhe dermos espaço, tem qualidade, tem um sistema muito próprio. Na realidade, não sei que sistema é que eles vêm apresentar, porque conseguem ter essa variabilidade no sistema. Preparámo-nos da melhor forma, é verdade que o tempo não foi muito, mas a equipa esteve bem estes dias. Dentro daquilo que podemos trabalhar, acho que eles entenderam o que é que pretendo. Agora temos naturalmente que estar a um bom nível, porque o Moreirense nunca é uma equipa fácil.
— Na sua apresentação disse que no futebol não há impossíveis, referindo-se à questão do título, mas não o ouvimos dizer taxativamente que acredita que ainda é possível o Sporting ser campeão esta época. Acredita e esse é o seu objetivo já para esta época?
— Eu não gosto de criar expectativas nas pessoas quando nós temos um cenário como o que temos. Naturalmente, acredito muito na nossa equipa. Nós vamos, em cada jogo, jogar para ganhar, independentemente do adversário, mas sabemos que é difícil e não queremos criar essa expectativa.
Se não acreditasse, não estava aqui. Se eu não acreditasse, não estava aqui e digo-lhe que, após estes três dias de trabalho, começo a acreditar mais. Que é difícil, é muito difícil, mas vamos trabalhar pensando sempre no próximo jogo, nunca perdendo de vista essa possibilidade.
— Vem aí uma paragem para as seleções, o que será mais difícil por ter chegado agora. Gonçalo Inácio não foi convocado para a Seleção Nacional e vai ficar na academia: acredita que poderá fazer a diferença para poder trabalhar com os jogadores que ficarem? E qual é a sua opinião sobre a saída de Cristiano Ronaldo da Seleção e a forma como saiu?
— Vamos começar pela nossa. Naturalmente, o Sporting fica sempre satisfeito quando tem os seus jogadores nas seleções. Não foi desta vez por opção do mister Jorge Jesus, opção que eu respeito imenso e o clube também. Mas, por outro lado, fico satisfeito porque tenho a possibilidade de ter tempo para trabalhar com ele. Na realidade, aquilo que supostamente seriam duas semanas em que eu poderia trabalhar com os jogadores, nós praticamente não temos muitos jogadores para trabalhar. Temos alguns defesas e, com a permanência do Gonçalo, aumenta esse número de defesas e dá para trabalhar alguma coisa, mas não temos muitos jogadores para poder trabalhar aquilo que eu pretendia neste momento e que necessitamos, porque o tempo não é muito.
— E Cristiano Ronaldo?
— Relativamente ao Cristiano Ronaldo, falou-se tanto sobre esta questão e eu não estou aqui para julgar ninguém. O que eu acho importante neste momento, e acho que nós portugueses podemos ajudar todos nisso, é que o Cristiano Ronaldo merece uma homenagem em que ele se sinta realmente acarinhado por nós. Independentemente do que se passou, de que lado é que está a razão, nós devemos homenagear aquele que foi o melhor jogador português até ao momento, de todos os tempos. Acho que nós portugueses temos essa responsabilidade de forçar essa homenagem, esse jogo de homenagem, e que, já agora, por sugestão minha, podia ser no nosso estádio. Acho que é tempo de esquecer um bocadinho as mágoas e estarmos unidos para prestar homenagem a um jogador que merece ser homenageado.
— Quanto ao seu trajeto, com passagens por FC Porto e Milan onde as coisas não correram tão bem, sente pressão e que pode haver alguma desconfiança relativamente a esse passado?
— Percebo por diversos motivos. Percebo que as pessoas só retêm naturalmente quando não há sucesso, e isso é perfeitamente normal, mas percebo ainda mais porque as pessoas não acompanharam a minha carreira lá fora. Vocês em Portugal não acompanharam a minha carreira lá fora, esporadicamente um jogo ou outro, mas se eu vos perguntar como é que eu jogo, provavelmente a maioria das pessoas não sabe. O que se lembram é dos tempos do Porto, mais do Porto, menos do SC Braga e do Paços de Ferreira. Acho isso perfeitamente normal. Relativamente à pressão, a maior pressão que existe é a que eu coloco a mim próprio. Eu sei que venho para um clube ganhador, sei que venho para um clube onde há obrigatoriedade de lutar para ganhar. Mas, como já disse, as pessoas lembram-se do tempo do Porto, do Paços de Ferreira e do SC Braga. Não conhecem o meu trajeto, sabem que estive ali e ali, mas na realidade não sabem como é que eu jogo, aquilo que eu penso neste momento. Por isso acho perfeitamente normal as pessoas terem essa perceção e essa ideia do Paulo Fonseca.
— O Sporting vem de dois jogos sem sofrer golos, mas a equipa tem mais golos sofridos do que jogos no campeonato. É uma preocupação nesta fase inicial?
A questão defensiva: ainda bem que colocou essa questão, porque quando comecei a ver mais atentamente os jogos do Sporting percebi que, na minha opinião, sem ser uma crítica ao trabalho do Rui, nós somos diferentes. Mas eu acho que, se o Sporting não defender bem, é impossível lutar por títulos. Para mim, é uma das prioridades neste momento: meter a equipa do Sporting a defender bem. Não estou a dizer que não defendia; defendia diferente daquilo que eu acho que se deve defender. Apenas isso. E trabalhámos sobre isso. Não é que eu queira passar muito tempo a defender, antes pelo contrário, mas quando defendermos temos que defender de acordo com aquilo que acho que nos torna mais fortes.
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— Sporting CP (@SportingCP) November 6, 2026
— Houve algo que o tenha surpreendido nestes primeiros dias de Sporting, quer no contacto com os jogadores, quer no estado de espírito ou na organização? E, olhando para o jogo, já sabe quem vai ser o guarda-redes titular?
— Já sei, já escolhi. A equipa está escolhida. Peço imensa desculpa, mas vão ter que esperar por amanhã para ver a equipa. Não é que eu esteja surpreso, porque, como disse, um dos motivos que me levou a vir para o Sporting foi acreditar que este plantel tem grande qualidade. Apesar de ser jovem, é um plantel de grande qualidade e tem confirmado isso nos treinos e também nas sessões de vídeo. Aquilo que eu pensava confirma-se: a equipa tem realmente muita qualidade individual e tem confirmado nos treinos. Depois confesso outra coisa: eu não conhecia a realidade Sporting e o que me tem surpreendido sinceramente é a organização do clube. Um clube altamente organizado em todos os departamentos, com pessoas muito profissionais. Aí sim, porque não conhecia, tem sido uma agradável surpresa.
— Tem agora como principais rivais Marco Silva e Francesco Farioli, treinadores que já defrontou ao longo da carreira. Qual é a opinião que tem sobre o atual Marco Silva e o atual Francesco Farioli nesta luta pelo campeonato?
— São grandes treinadores. Eu conheço-os bem, são grandes treinadores. Por isso é que estão no Futebol Clube do Porto, por isso é que o Futebol Clube do Porto também foi campeão. Por isso é que o Marco está neste momento no Benfica e a fazer um excelente trabalho. Não tenho muito mais a dizer do que, para mim, são dois grandes treinadores.
— Frederico Varandas disse que tinha pedido a Rui Borges para não falar de arbitragens. Houve algum pedido semelhante a si e que postura vai ter perante a arbitragem? E qual é o ponto de situação clínico de Debast, Nuno Santos e Zalazar?
— O Zalazar está bem. Disse-me o Nuno Santos e o Zeno, não é? Estão a recuperar neste momento, mas estão a recuperar bem. Parece-me que as coisas estão a andar num sentido bastante positivo. Relativamente à questão dos árbitros, vou ao máximo tentar abster-me de comentar o trabalho dos árbitros, até porque tenho experiência lá fora em campeonatos do top-5 e não penso que os nossos árbitros tenham menor qualidade do que os árbitros lá fora, honestamente. Aquilo que vou tentar fazer é respeitar ao máximo o trabalho dos árbitros e tentar não comentar o trabalho dos árbitros.
— Disse há cerca de um ano que o Sporting tinha um ataque posicional muito interessante e flexível. Com as mudanças no plantel, quais são as características e o perfil de jogadores que pretende valorizar para resgatar essa variabilidade e flexibilidade atacante?
— Naturalmente, estou a chegar agora e a informação deve ser muito controlada neste momento, mas aquilo que tenho passado aos jogadores é que nós vamos ter essa variabilidade nas nossas estruturas. O que acho importante falar convosco é que, para haver um jogo posicional de acordo com aquilo que pretendemos — e reparem que o Sporting atua 80% das vezes em ataque posicional —, se nós olharmos a estes jovens jogadores que vieram este ano, e que foram muitos, a maior parte deles não estava habituado a este contexto de jogo. Naturalmente tem que existir um tempo para os ensinar a jogar este jogo. O jogo posicional tem que ser uma coisa bem sustentada e eles têm que aprender a jogar este jogo. Vou dar um exemplo muito concreto, porque conheço bem o futebol italiano: o Doumbia nunca passava por este contexto que tem no Sporting, que é o contexto mais difícil de ataque planeado, equipas em bloco baixo, sem espaço, em que temos que nos posicionar no espaço certo e movimentar no tempo certo. Para um jogador que chega do futebol italiano, habituado a um contexto de homem para homem, é realmente difícil. Há que ter tempo para trabalhar este jogador. Temos outros exemplos de jogadores que vêm de outros campeonatos em que acontece precisamente o mesmo. A verdade é que estes jovens precisam de aprender a jogar no contexto que é o normal no Sporting, que é o atuar 80% dos jogos em ataque planeado. Nós trabalharemos muito sobre isso, mas naturalmente os jogadores vêm de um contexto totalmente diferente e precisam de tempo.
— Chega ao Sporting numa altura em que a equipa vem de três vitórias consecutivas e regressa a Alvalade, onde somou as duas derrotas da época. Que ambiente espera e que tipo de pressão isso pode trazer?
— A pressão é a pressão normal de uma equipa que tem que vencer todos os jogos. Não há como fugir a isto, não há outra forma de dizer as coisas. O Sporting joga sempre para ganhar, tem essa pressão que eu acho que é positiva. A pressão negativa no futebol é jogar para não descer, jogar para não ser despromovido, isso é que é pressão negativa. Esta pressão é positiva e nós temos que aprender a lidar com ela. Relativamente ao ambiente, acho que é magnífico podermos ter a oportunidade de jogar com os nossos adeptos. Espero ter o estádio cheio para apoiar a equipa e naturalmente com os nossos adeptos seremos mais fortes ainda.
— Vai precisar de muito tempo para colocar a equipa a jogar à sua maneira e acha que os adeptos lhe vão dar esse tempo?
— Nós no futebol não temos tempo, devemos ter resultados imediatos. Aquilo que posso dizer é que este tempo curto que tive com os jogadores dá-me grande confiança para o futuro. Mesmo sem tempo, sei que vem uma série de jogos muito complicada, sem tempo para treinar, mas a recetividade que tive da parte dos jogadores faz-me acreditar que podemos começar a ser diferentes. Sabemos naturalmente que os jogos que vêm não são fáceis e o tempo não é muito. Vamos tentar apressar o processo. Aquilo que penso é que nós podemos a breve prazo começar a mostrar algumas coisas de acordo com aquilo que são as minhas ideias.
— Acredita que estes jogadores podem dar esse jogo posicional? Por outro lado, Nuno Campos disse recentemente que o Paulo Fonseca é um treinador de processo e que gosta de futebol espetáculo, mas o mister referiu que a equipa tem de defender bem. Prefere ganhar por 1-0 ou 5-4?
— Eu prefiro ganhar. Prefiro ganhar, mas gosto muito de ganhar sem sofrer golos. Agora, isso não faz de mim um treinador defensivo, antes pelo contrário. Não quero passar tempo a defender. Para mim, a melhor forma de defender é ter a bola. Mas devo dizer também outra coisa: se estiveram atentos não só em Portugal, mas ao que se passa nos melhores campeonatos europeus, o jogo mudou muito nos últimos anos. Esta questão do homem para homem, que existe há muito tempo em Itália e agora se vê em todos os campeonatos, nos últimos dois anos a maior parte das equipas pressiona homem para homem. Isto obriga-nos a reformular o processo, porque neste momento temos que ter equipas capazes de jogar tudo. Quando falamos no jogo posicional, estamos a falar num momento do jogo próximo da baliza adversária, em que o nosso jogo posicional tem que ser forte em função da falta de espaço. Mas, até lá, existe outra coisa: as equipas quando pressionam alto — ainda agora tive a oportunidade de ver o Casa Pia e o Gil Vicente a jogar contra as grandes equipas, e admiro imenso essa coragem de marcarem homem para homem —, jogar contra esse homem para homem é totalmente diferente de jogar o jogo posicional. Eu sou um treinador de detalhe, até individual. Neste momento não há tempo, temos que acelerar o processo e pensar naquilo que é realmente importante. Esta diferenciação no jogo é urgente percebermos e os jogadores perceberem, porque a realidade é que temos de jogar diferentes jogos dentro do mesmo jogo. Olhe, vou dar um exemplo: vamos jogar contra a Roma e nós vamos jogar o mesmo jogo no campo todo, que é homem para homem no campo todo. Acreditem, tenho essa experiência. Está a chegar agora, no último ano, a Portugal; um dos grandes méritos do FC Porto foi precisamente esse e acho que as equipas portuguesas não estavam preparadas para esse momento de pressão alta homem para homem. Isto já se passa há alguns anos em Itália e muito em Inglaterra. Jogar este jogo — agora vamos ter contra a Roma — é extremamente difícil, não há espaço nem tempo. Lembram-se do que o Guardiola disse sobre jogar contra o Gasperini? É exatamente isso. Gabo a coragem de ver Académico de Viseu e Gil Vicente a serem corajosos e a tentarem. Antigamente não se via muito e agora já se começa a ver. Por isso é que digo: vamos jogar contra o Moreirense e vamos ter as duas coisas. Vamos ter momentos em que o Moreirense vai pressionar alto homem para homem e outros momentos em que vai haver ataque planeado, jogo posicional. Aquilo que fiz foi preparar a equipa para os diferentes momentos do jogo.
— Tem a noção de que o plantel do Sporting foi mais montado para as competições europeias do que para os objetivos nacionais?
— Sinceramente, não acredito nisso. Sinceramente não acredito que exista algum clube que dê prioridade às competições europeias e não ao campeonato. Tenho a certeza absoluta de que isso não aconteceu aqui.
— Que análise mais detalhada faz à equipa do ponto de vista do que de positivo pode ser mantido do trabalho anterior de Rui Borges e, por outro lado, quais são as maiores fragilidades a trabalhar no imediato?
— Eu gostava muito de lhe responder, mas não posso. Não posso. Tenho a minha opinião, mas agora não quero dar esse trunfo aos adversários. Acho que não é só no futebol: na vida temos a tendência para esconder as nossas fragilidades e, se nós as temos, não vou ser eu a divulgar aqui o que penso sobre isso. O que tenho de fazer é perceber se existem essas fragilidades e trabalhar aqui dentro para as melhorar.