A vitória justa e o crescimento da equipa: tudo o que disse Rui Borges
O Sporting entrou esta quarta-feira a ganhar na UEFA Champions League, após vencer por 3-1 o Galatasaray na primeira jornada da fase de liga da competição. Rui Borges, treinador leonino, analisou uma vitória justa dos verdes e brancos, que, de acordo com o treinador, entraram «nervosos», mas que conseguiram dar a volta a isso e ganhar como «uma grande equipa».
— Que análise faz ao jogo?
— Nos primeiros 20, 25 minutos tivemos alguma dificuldade em igualar a intensidade do adversário. Não conseguimos ligar o jogo, falhámos alguns passes. Não permitimos perigo, fizeram golo num lançamento para a área, mas não conseguimos ligar o nosso jogo, talvez por algum nervosismo. Sabíamos que iam pressionar, que gostam de ser dominadores, mas talvez a equipa não estivesse tão preparada para a intensidade. Estivemos aquém nos duelos. Depois ganhámos confiança, o golo é uma belíssima jogada coletiva. Foi importante sair para o intervalo com o empate. Não criaram nada de extraordinário na primeira parte. Na segunda parte fomos mais fortes nos duelos. Tentámos não pressionar o guarda-redes, mas ganhámos muitas bolas, saímos com perigo nas transições. Chegámos ao golo com mérito. O Zalazar fez o 3-1 num grande livre, tivemos mais duas ou três situações em que podíamos ter definido melhor. Nos últimos cinco 10 minutos estivemos mais cansados, mais baixos, mas não os deixámos criar qualquer lance de muito perigo para o nosso guarda-redes.
— O que disse ao intervalo aos jogadores? O treinador adversário queixou-se da arbitragem...
— Não vou entrar nesse campo. É a melhor competição de clubes do mundo. Não falo no nosso campeonato, não vou falar na Liga dos Campeões. Foi uma vitória justa por tudo o que fomos capazes de fazer para nos sobrepormos ao adversário. A mensagem ao intervalo foi de calma e de 'bem-vindos à Liga dos Campeões'. Tínhamos de aumentar a intensidade, principalmente nos duelos. Tínhamos de conseguir ligar mais vezes o nosso jogo, com jogadores perigosos e rápidos. Tínhamos isso definido. A equipa foi ganhando confiança e tirando-a ao adversário. Depois veio ao de cima a nossa tranquilidade, a nossa qualidade individual e, sobretudo, a nossa qualidade coletiva. Foi esse o discurso antes do jogo. Para grandes vitórias nesta competição é preciso grandes equipas. Hoje fomos uma grande equipa.
— Porque fez estas mudanças no onze inicial, foi por estratégia ou por gestão?
— Foi um pouco das duas coisas. Alguma gestão e estratégia face ao adversário. Confio plenamente em toda a equipa, os que entraram durante o jogo entraram muito bem, com muita vontade de ajudar. Confio em todos, já fazia algumas mudanças na época passada. Temos uma equipa com muitos jogadores, todos têm trabalhado imenso para ter oportunidades e vão tê-las.
— Esta equipa pode fazer o que fez na Champions na época passada? O Suárez já leva cinco golos em seis jogos. Quantos golos antecipa para ele?
— Antecipo uma quantidade alta. Não vou estar a dizer números. É um grande avançado. Está numa fase boa, pode passar fases menos boas, é o futebol. O Rodrigo está a crescer. Tem percebido melhor o que é o Sporting, os colegas. Vai fazer uma grande época, muitos golos. Fez 23 golos na época passada e fará na mesma. Na época passada, à quinta jornada, também só tinha um golo pelo SC Braga. Vai surgir com naturalidade. É um grande jogador. Está a adaptar-se a uma exigência diferente, a um clube grande, em que a exigência é de vitória, em que o jogo precisa de outras coisas. Vai melhorar enquanto jogador. Vai dar aquilo em que já é bom, vai melhorar no que é pior. A equipa deu uma boa resposta hoje. A equipa é diferente, os adversários são diferentes. Vamos olhar jogo a jogo. Uma coisa sei: vamos competir. Estamos entre os melhores, queremos muito estar entre os melhores, temos feito muito por isso, o clube tem crescido para estar mais anos, e seguidos, nesta grande competição. Se estamos aqui é porque queremos competir com os melhores. Independentemente de um resultado menos positivo que possa acontecer, os rapazes sabem a exigência que é jogar Champions, mas têm muita vontade de se mostrarem e acima de tudo de continuarem a crescer no Sporting.
— A equipa faz o 2-1 e vai à procura do golo. Mudaram esse chip do início da temporada?
— Para mim nunca houve intranquilidade. Houve crescimento. A pré-época é uma coisa, jogos a valer são outra. É uma equipa jovem. Percebemos no que é que não estávamos a ser tão fortes nos primeiros jogos. Temos crescido, vamos ser melhores, pode acontecer um jogo menos conseguido. Acima de tudo, é importante ganhar e crescer. A equipa tem crescido. O exemplo que dava do Zalazar passa por todos os jogadores. As ligações são diferentes das da época passada, precisam de tempo, por mais que treinemos. Mas a tranquilidade é diária. Eles gostam uns dos outros, reconhecem valor uns aos outros, respeitam-se uns aos outros e trabalham muito todos os dias. Não podia estar mais feliz pelo grupo que tenho e o mérito é todo deles. Deixa-me feliz porque ainda hoje, por exemplo, o Silas entrou com uma personalidade enorme. É a primeira vez que joga Champions, vem de outro campeonato, com uma exigência diferente. E isso é mérito de todos eles, que acreditam muito. Têm a confiança de quem está a liderá-los. De resto é ouvir, tentar fazer, o treinador assume o erro deles, sem problema.
— Este resultado pode ser decisivo para as contas? Porque é que Debast não foi opção? O que aconteceu com Eduardo Quaresma no início da segunda parte [ficou indisposto antes do apito inicial]?
— O Debast estava na dúvida por causa da gestão, vem de uma lesão demorada e esta sobrecarga poderia não ser a melhor decisão que poderíamos ter. Independentemente disso, ficou doente e não treinou. Veio para jogo e ainda entrou, entrou bem. O Edu tinha bebido isotónico ao intervalo e caiu-lhe mal. Fez uma grande segunda parte e saiu por cansaço. É importante começar bem com uma equipa com muitos jogadores que começava a jogar Liga dos Campeões, perante os nossos adeptos, que passam uma energia positiva de fora para dentro. É importantíssimo ganhar numa competição ganhar, é importante sermos fortes em casa. Qualquer ponto conta, qualquer golo conta. Acima de tudo, estou muito feliz por começarmos com uma vitória em casa.
— Vimos um grande golo do Zalazar, de livre direto... porque é que Quaresma não é tão consistente na titularidade?
— O Rui Borges foi o treinador com quem o Quaresma jogou mais jogos. Ele tem alguma consistência. Nenhum deles é titular, tenho quatro grandes centrais, quando escolho dois é difícil deixar os outros dois de fora. São quatro grandes centrais, com características diferentes. O Inácio não começou tão bem o jogo, mas foi crescendo e fez uma grande segunda parte. Tem a ver com oportunidades, com a estratégia do jogo. Ele é um grande jogador. Não tenho dúvidas de que está na calha para jogar na Seleção Nacional. Começou os primeiros jogos, jogou muito bem. Saiu por opção e não pela qualidade. Sou um grande fã, ele sabe. É um menino especial, diferente. Está muito mais maduro. E quando crescer um pouquinho essa maturidade... é claramente jogador de Seleção.
— O Sporting procurou mais o jogo mais direto com Suárez na segunda parte do que na primeira. O que mudou?
— Às vezes temos a oportunidade de ligar com ele mais cedo. Quando há uma pressão mais alta do adversário, sabemos que é importante entrarmos nas segundas linhas para depois chegarmos às primeiras. Foi isso que tentámos. Havia mais espaço, havia essa linha de passe para o Luis sem que ele precisasse de baixar para pegar no jogo. Tentámos tirar o Zalazar, que era o 10, para zonas mais centrais e mais baixas, para o central não o conseguir acompanhar. Conseguimos entrar num processo quase de ataque rápido. Demos mais largura na segunda parte precisamente para isso, para o Rodrigo andar ali mais por dentro e por baixo para tentar ganhar superioridade.
— Em seis jogos, este 'novo' Sporting somou cinco vitórias e um empate. Qual o aspeto que mais o agrada e o que o menos o agrada no jogo neste primeiro mês de competição? Espera pela pausa para seleções para poder trabalhar esses momentos?
— Nas pausas para seleções fico com quatro ou cinco jogadores, é impossível... fico sem os jogadores, nem os da equipa B, que vão para os sub-19, sub-20. A pausa não me dá grande coisa. Por um lado fico feliz, todos merecem as seleções e acredito que haja algumas primeiras chamadas para seleções e ficarei feliz se isso acontecer. Foco-me todas as semanas em todos os momentos de jogo. Nesta equipa nem posso estar a dizer que estamos muito bem no processo ofensivo ou que vamos melhorar o processo defensivo ou vice-versa. Estamos longe do que queremos em qualquer momento do jogo. A transição ofensiva tem muito a ver com a qualidade individual, e nós temo-la. Em transição defensiva a equipa reage muito bem à perda de bola. Estamos em crescimento contínuo. Estou feliz pela resposta que têm dado até aqui. Noto claramente melhorias em todos os aspetos. Agora é dar continuidade a isso. É importante ganhar, até nesta competição, que é difícil manter a senda de vitórias. Se calhar é mais fácil chamá-los à atenção quando ganhamos do que quando não ganhamos. Talvez fiquem mais melindrados quando as coisas não correm bem. Quando ganhamos, talvez sintam melhor o erro, a correção. Estamos sempre à procura de crescer. Não há um momento em que diga que estamos muito bem. Estamos muito longe do que queremos para a equipa.