Sporting deixou pontos em Famalicão apesar do maior domínio na partida - Foto: Catarina Morais/Kapta +
Sporting deixou pontos em Famalicão apesar do maior domínio na partida - Foto: Catarina Morais/Kapta +

A noite em que o leão ficou preso à arte de ser feliz (crónica)

Sporting não foi além do empate e deixou dois pontos pelo caminho em Famalicão numa noite em que nunca conseguiu impor-se por completo. Entre a arte de insistir muito (e poucas vezes bem) contra a de resistir e ser feliz

Se a semana de preparação de um jogo é composta por exaustivas sessões de visionamento de vídeos, cenários a explorar, treinos intensos e muitas experiências para encaixar melhor nos adversários, há estratégias que ficam claras ao primeiro minuto de jogo. Logo que a bola começa a rolar e se dá o apito inicial. Foi o que aconteceu em Famalicão. Claro como a água: um Sporting a assumir as rédeas, com mais iniciativa, a instalar-se no meio-campo adversário; um Famalicão, que por sua vez, procurava responder com organização, agressividade e uma disposição clara para não oferecer espaços ao leão. Uma espécie de balança entre o controlo e domínio contra a resistência. Que durou até aos… 81 minutos. Os últimos nove minutos de jogo foram outra história. Já lá chegamos.

Primeira nota: a surpresa no onze do Sporting com Rui Borges a deixar Zalazar no banco. Prova de confiança gigantesca ao jovem Flávio Gonçalves, 19 anos, que ocupou terrenos habitualmente ocupados pelo uruguaio na zona frontal. Com o apoio de Geny Catamo e de Luís Guilherme nos corredores. Dois abre-latas para furar em espaços muito curtos. Mas sempre bem anulados quer por Pedro Bondo ou Rodrigo Pinheiro. E o Famalicão foi muito isto. Marcações cerradas, a lutar pela vida em todos os duelos, a dar controlo aos leões - primeiros 45 minutos com mais de 70% de posse - mas sempre a embater neste muro blindado minhoto.       

Os dados foram lançados num jogo que esteve longe de ser vistoso para os adeptos. De um lado, o Sporting a dominar mas sempre num ritmo baixo, sem acelerar muito, do outro, o Famalicão que se foi limitando a recuar e muito raramente sair com critério (sem sucesso) sempre que conseguia recuperar a bola. O momento mais escaldante da primeira parte chegou quando os leões introduziram a bola na baliza. A celebração de Flávio Gonçalves, porém, durou pouco. O lance acabou por ser invalidado após a intervenção do VAR, por mão na bola do jovem leonino. O Sporting ficou assim sem o prémio para uma das suas melhores aproximações à área. 

A partir desse momento, a partida ganhou outra temperatura. O Famalicão percebeu que podia ferir o Sporting e começou a discutir mais o jogo longe da sua área. E até poderia ter sido feliz não fosse uma das defesas da noite com Rui Silva a brilhar após cabeceamento de Sorriso. No primeiro remate do Famalicão. Aos 41 minutos…

Na segunda metade, apesar dos sinais de urgência leoninos em derrubar a muralha minhota, pouco se alterou. A partida tinha nervo, intensidade e uma incerteza que foi resistindo até final. Sempre que uma das equipas parecia aproximar-se de tomar conta do jogo, a outra encontrava forma de responder. O Sporting tentou acelerar, encontrar espaços entre linhas e dar maior continuidade ao seu futebol ofensivo e o Famalicão fechava caminhos, ganhava duelos, nunca abdicando de procurar a sua oportunidade.

Rui Borges lançou Ioannidis e Zalazar para dar mais poder de fogo ao ataque. Apostas que fizeram aumentar a pressão. Empurrando (ainda mais) o jogo para mais perto da baliza famalicense, tentando encontrar, entre cruzamentos, combinações e ataques mais diretos, o lance que pudesse desbloquear tudo. E aqui chegamos ao tal minuto 81. Quando Suárez bateu Carevic, numa grande penalidade, dando a ideia que toda a insistência iria valer a desejada vitória. Não valeu. Porque a partir daqui… houve outro jogo. E outro Famalicão que despertou, atirou uma bola ao ferro (85’), viu Roméo ser expulso (87’), com acutilância ofensiva como ainda não tinha tido neste jogo. Deixou a arte de resistência e pela primeira vez… adotou outro tipo de arte. A que todos procuram. Ser feliz. Já depois dos 90’ num lance de infelicidade de Gonçalo Inácio que traiu Rui Silva. O leão ainda voltou a insistir mas ao contrário do Famalicão não saiu da arte da insistência.    

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