Enzo Maresca, quando estava no Chelsea, e Pep Guardiola, então treinador do Manchester City - Foto: IMAGO

A Premier League habituou-nos a ter donos. Ferguson, Wenger, Mourinho, Klopp, Guardiola… mudavam os clubes, as rivalidades e as épocas, mas havia sempre um treinador capaz de marcar o campeonato à sua imagem. Agora, nenhum deles está lá. E isso é muito mais do que uma mudança de nomes no banco, é o início de uma nova era em Inglaterra.

Pela primeira vez desde 1985/86, o principal campeonato inglês começou sem Alex Ferguson, Arsène Wenger, José Mourinho, Jürgen Klopp ou Pep Guardiola num dos seus bancos. Cinco personalidades diferentes, mas com algo em comum: todos foram suficientemente grandes para mudar o campeonato onde trabalharam. Juntos conquistaram 26 dos 34 títulos deste período, mas fizeram muito mais do que ganhar.

Ferguson transformou o Manchester United numa máquina competitiva. Wenger modernizou o futebol inglês. Mourinho mudou a forma de pensar a estratégia, a organização e até a comunicação. Klopp devolveu ao Liverpool uma identidade emocional e competitiva. Guardiola levou o controlo do jogo e do espaço a um nível que obrigou os outros a adaptarem-se.

Nenhum deles está agora lá. Pela primeira vez em muito tempo, o campeonato mais poderoso do mundo não tem dono e a mudança é profunda. Enzo Maresca sucedeu a Guardiola no Manchester City, Andoni Iraola assumiu o Liverpool, Xabi Alonso chegou ao Chelsea...

À entrada para a quarta jornada já encontramos sinais interessantes. Manchester City e Arsenal lideram com nove pontos. Maresca começa a demonstrar que é possível receber a herança de Guardiola sem ficar esmagado por ela; Arteta confirma a força de um projeto que teve algo cada vez mais raro no futebol: tempo.

No fundo da tabela, Coventry e Fulham ainda procuram o primeiro ponto. O caso do Fulham merece atenção. A equipa perdeu Marco Silva e começou com três derrotas sob o comando de Arbeloa. É demasiado cedo para conclusões, mas também é nestes momentos que percebemos o peso de uma liderança. Há treinadores cujo verdadeiro valor só se torna totalmente visível quando deixam de estar lá.

Nunca os treinadores tiveram tanta informação, tecnologia, especialistas, dados e condições para trabalhar. Paradoxalmente, nunca tiveram tão pouco tempo para mostrar competência. O futebol tornou-se impaciente porque é também um espelho da sociedade. No YouTube, TikTok ou Instagram, poucos segundos decidem se continuamos a ver ou passamos ao conteúdo seguinte. Habituámo-nos a consumir tudo depressa: informação, entretenimento e, aparentemente, também treinadores. Duas derrotas levantam dúvidas. Cinco jogos podem ser suficientes para avaliar uma ideia que necessita de meses ou anos para ser construída.

Já não acompanhamos processos: consumimos resultados. Nunca falámos tanto em projetos e tivemos tão pouca paciência para os construir. Queremos culturas vencedoras sem esperar pela criação de uma cultura. Queremos legados, mas exigimo-los no imediato.

É neste contexto que Maresca recebeu uma das heranças mais difíceis do futebol moderno: suceder a Guardiola no Manchester City. Até agora respondeu da única forma capaz de comprar tempo no futebol atual: ganhando. Três jogos na Premier League, três vitórias, nove pontos e uma vitória no Dragão para a Liga dos Campeões.

Iraola assume o Liverpool. Xabi Alonso chega a um Chelsea que procura transformar talento e investimento numa identidade competitiva. Não lhes basta ganhar. Terão de convencer jogadores de novas ideias, estruturas a esperar e adeptos de que existe um caminho que precisa de ser percorrido. Suceder a Guardiola ou Klopp não significa apenas ocupar uma cadeira vazia. As grandes lideranças deixam uma cultura, e essa cultura permanece depois do líder partir.

É por isso que substituir um grande treinador pode ser mais difícil do que substituir um grande jogador. Um jogador deixa uma posição vazia. Um treinador pode deixar uma maneira de pensar. Guardiola não deixou apenas troféus no City, tal como Klopp não deixou apenas títulos em Liverpool ou Ferguson no Manchester United. Deixaram hábitos, referências, expectativas e uma forma de entender o clube e o jogo.

E há uma personagem particularmente interessante nesta história: Mikel Arteta. Durante anos apresentado como discípulo de Guardiola, é agora o treinador mais antigo da Premier League. Está no Arsenal desde dezembro de 2019, entra nesta temporada como campeão inglês e chega à quarta jornada com três vitórias. Vejo aqui uma ironia extraordinária… num campeonato que perdeu algumas das maiores referências dos seus bancos, aquele que permanece é precisamente um treinador a quem deram tempo.

Arteta não ganhou imediatamente. Foi questionado, perdeu jogos, falhou objetivos, gastou milhões e atravessou momentos em que muitos clubes teriam optado pela mudança. O Arsenal esperou, construiu e acabou campeão. Esta é uma das grandes contradições do futebol moderno: todos procuram o próximo Mourinho, Guardiola, Klopp ou Ferguson, mas poucos estão dispostos a dar a alguém o tempo necessário para se tornar um deles.

Ferguson esteve mais de 26 anos no Manchester United. Wenger quase 22 no Arsenal. Klopp passou quase nove anos no Liverpool. Guardiola permaneceu uma década no Manchester City. Nenhuma dessas histórias foi construída em semanas.

Hoje, queremos legados instantâneos, mas os legados não se compram: constroem-se.

Há ainda outra transformação. Durante décadas, a Premier League foi marcada por treinadores que praticamente personificavam os clubes. Ferguson contra Wenger; Mourinho contra Ferguson e Guardiola contra Klopp. Não eram apenas clubes contra clubes. Eram ideias contra ideias, personalidades contra personalidades, lideranças contra lideranças.

Atualmente, o poder está mais distribuído. Diretores desportivos, departamentos de recrutamento e performance, análise de dados e modelos de jogo transversais ganharam enorme importância. É uma evolução natural e provavelmente necessária: os clubes não podem depender exclusivamente de uma pessoa, mas deixa uma pergunta: estará a desaparecer o treinador capaz de construir uma era? Não tenho uma resposta. Talvez não. Talvez estejamos apenas à espera de descobrir quem será o próximo.

Pode ser Arteta. Pode ser Maresca, que tem agora pela frente um primeiro grande teste emocional no dérbi de Manchester em Old Trafford este domingo. Pode ser Iraola, Xabi Alonso ou alguém que ainda nem colocámos nessa discussão. É isso que torna esta Premier League particularmente interessante. Durante anos, sabíamos quem eram os gigantes sentados nos bancos. Agora vamos descobrir quem tem dimensão para se tornar um deles.

Uma coisa é ganhar uma Premier League. Outra, muito diferente, é deixar a Premier League diferente daquela que encontrámos. Ferguson conseguiu. Wenger conseguiu. Mourinho, Klopp e Guardiola também conseguiram.

Todos queremos saber quem será o próximo, mas a questão é saber se o futebol atual terá paciência suficiente para lhe dar tempo para o ser…

«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar» e «Manuel Cajuda – o (des)Treinador».

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