Sim, Francesco Farioli, o futebol é um lugar estranho
Do nada, a frase: «Aconteceram várias coisas estranhas.» Que repetiria, mais uma vez encavalitada no resto da análise ao encontro, na conferência de imprensa logo depois. Depois de uma goleada num terreno difícil (a todos os níveis), onde tinha inclusive perdido na época passada, Francesco Farioli era um homem com uma missão. Passar a ideia, mais uma vez, que o FC Porto tinha lutado contra tudo e contra todos e, sem o dizer, que a equipa de arbitragem estava incluída neste lote. Um tocar a reunir antes do clássico e um primeiro toque num tema que será certamente objeto de muitos comentários daqui a alguns dias.
Não vou julgar aqui o trabalho do árbitro nem que os portistas têm ou não têm razão, não é isso que está em causa. É, sim, uma frase infeliz, que nada acrescenta ao jogo e traz uma nuvem negra para cima da partida. Sem necessidade. Benfica e Sporting vão tendo as suas, ainda que por outros protagonistas que não aqueles que se sentam no banco. No entanto, todos sabemos que Farioli não teve qualquer pudor em adotar o discurso e até uma cultura que muitos de nós gostariam de ver ficar no passado e não no coração de futebol que queremos moderno, a pensar no bem-comum e não na guerra constante. Este é apenas mais um exemplo. O clube e o técnico não precisam disso, tenho a certeza.
É verdade que aconteceram coisas estranhas em Rio Maior. Aliás, ter uma equipa a jogar aqui é mais do que estranho, é algo que prejudica a imagem do futebol português. Tal como a qualidade dos relvados ou a ausência de adeptos. Coisas simples que esta Liga nem por sombras está perto de resolver. Mas estranho foi sobretudo o apagão dos dragões durante 25 minutos, depois de uma entrada em que não foram criadas tantas oportunidades quantas Farioli imaginou — houve o ferro no caminho de Gabri Veiga e pouco mais. Nesse segundo jogo, um Casa Pia a tentar mascarar os seus inúmeros problemas criou oportunidades, marcou primeiro e só as bolas paradas que tanto orgulham o italiano deram a volta à questão.
Não valem? Valem. E até podem chegar para limpar o campeonato, o grande objetivo dos portistas. No entanto, para um discípulo de De Zerbi, confesso que esperava mais. Mais criatividade, oportunidades e não só um plano assente no futebol direto e musculado, na pressão e no erro do rival. Farioli está demasiado agarrado a uma fórmula vencedora e esta pode não resultar sempre.