Barcelona de Pep Guardiola, Messi, Xavi, Iniesta ou Puyol a celebrarem a conquista da Liga dos Campeões com Pep Guardiola como treinador - FOTO:Imago
Barcelona de Pep Guardiola, Messi, Xavi, Iniesta ou Puyol a celebrarem a conquista da Liga dos Campeões com Pep Guardiola como treinador - FOTO:Imago

Há alguns anos tive a oportunidade de estar dentro do Barcelona, convivendo com treinadores como Pep Guardiola e Tata Martino e observando de perto alguns dos melhores jogadores da história do futebol. Messi, Xavi, Iniesta, Puyol e tantos outros talentos que marcaram uma geração. Como treinador, procurava compreender o que diferenciava aqueles jogadores extraordinários dos restantes.

Esperava encontrar respostas na técnica. Na tática, na preparação física, mas encontrei algo diferente. A capacidade de conviver diariamente com o ruído. O ruído das expectativas, o ruído dos adeptos, o ruído dos media, o ruído da pressão para ganhar constantemente.

Uma das pessoas que mais influenciou a minha forma de pensar o treino e o jogo foi Paco Seirul·lo. Tive o privilégio de aprender com ele e de construir uma relação de amizade ao longo dos anos.

Entre muitas aprendizagens, houve uma ideia que ficou comigo. O rendimento não depende apenas da qualidade individual. Depende sim da forma como todas as estruturas do jogador e da equipa interagem perante os desafios que encontram.

A forma como pensam, a forma como sentem, a forma como comunicam, a forma como se relacionam, a forma como respondem à adversidade.

Anos mais tarde voltei a encontrar essa realidade de forma muito clara na Taça das Nações Africanas de 2024, a Nigéria chegava à competição como uma das principais candidatas ao título. Tínhamos jogadores de enorme qualidade, muitos deles protagonistas nos melhores campeonatos europeus.

Mas o primeiro jogo terminou com um empate frente à Guiné Equatorial. Para quem observava de fora, surgiram imediatamente as dúvidas. As críticas, as análises, as opiniões. 220 milhões de Nigerianos. O ruído aumentou. No entanto, dentro do balneário aconteceu algo diferente, os jogadores aproximaram-se.

As conversas tornaram-se mais honestas, o capitão assumiu a liderança. Pedimos mais compromisso, pedimos mais responsabilidade, pedimos mais entrega. Percebemos que não bastava ter bons jogadores. Era necessário sermos uma equipa melhor. Tornámos o nosso jogo mais fluido, mais agressivo na recuperação. Mais competente no controlo do espaço, mais assertivo no ataque ao espaço.

Não combatemos o ruído. Utilizámo-lo. Poucos dias depois enfrentámos a Costa do Marfim, anfitriã da competição e uma das favoritas ao título. Vencemos por 1-0. A confiança cresceu, a identidade fortaleceu-se. A equipa começou a acreditar ainda mais em si própria. Jogo após jogo fomos crescendo até chegar à final da competição.

Foi aí que percebi algo que continua a acompanhar-me enquanto treinador, o problema nunca é o ruído, o problema é a forma como reagimos a ele. As grandes equipas não vivem protegidas da pressão, vivem rodeadas por ela.

A diferença está na capacidade de transformar essa pressão em energia coletiva, talvez por isso os Mundiais sejam tão fascinantes, porque não testam apenas a qualidade técnica dos jogadores. Testam a maturidade emocional das equipas.

No futebol de alto rendimento, não vence quem elimina o ruído. Vence quem aprende a transformá-lo em força.

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