A história do canário que bateu numa muralha (crónica)
O Estoril é conhecido pelos canarinhos e o Arouca pelos lobos da Serra da Freita. Os cognomes são unânimes, como indiscutível é o nome do homem que marcou a história do confronto que encerrou a quinta jornada: Ignacio de Arruabarrena Fernández, o guarda-redes dos forasteiros que assinou uma exibição monumental.
A equipa estorilista tentou na reta final de tudo para mudar o seu destino nesta edição da Liga e, finalmente, encontrar o rumo das vitórias, mas esbarrou num keeper inspiradíssimo. Fazendo uma analogia com a alcunha dos homens da casa, e passando o substantivo do plural para o singular, é como se a ave cantora quisesse finalmente voar da gaiola dos maus resultados e tivesse esbarrado numa muralha imensa e intransponível.
Três intervenções de grande nível nos instantes derradeiros ditaram o nulo, com a última das quais, já na compensação — a remate de Yanis Begraoui (quem mais?) —, a arriscar-se a figurar entre as melhores defesas do campeonato, mesmo numa fase precoce da prova.
O encontro começou marcado pelo vento intenso na Amoreira, que parecia ter levado para longe as boas ideias, a fluidez e as jogadas bem delineadas. O Arouca de Vasco Seabra — saudado no regresso ao Estádio António Coimbra da Mota — apresentou-se tranquilo e entregou a iniciativa ao conjunto da casa. O Estoril tentava impor-se, mas tinha a estrela da companhia, Begraoui, bem amarrada e o criativo João Carvalho sob vigilância apertada. Ainda assim, a melhor oportunidade do primeiro tempo pertenceu aos locais, quando o médio formado no Benfica se libertou e colocou a bola com conta, peso e medida na cabeça de André Lacximicant, que não conseguiu desfeitear Arruabarrena.
Os arouquenses apostavam na transição, com Djouahra, pela esquerda, a assumir-se como o fio condutor do ataque, mas o goleador Barbero estava com as lâminas da tesoura cegas.
Assim se chegou ao descanso e, no reatamento, o espetáculo melhorou. O Arouca começou a ganhar metros, por vezes em esticadas longas do guardião para Tiago Esgaio, ainda que as soberanas ocasiões de golo continuassem a escassear.
No banco Vasco Matos pedia mais audácia. Os jogadores cumpriram o caderno de encargos, mas a bola parecia ter alma própria e recusava-se a entrar, como se viu num remate fantástico de João Carvalho ao poste. E quando a bola perdeu essa teimosia, foi novamente Arruabarrena a travar a marcha da vitória…