Luciano Gonçalves, presidente do Conselho de Arbitragem
Luciano Gonçalves, presidente do Conselho de Arbitragem

‘Ó tempo volta pra trás’, não é?

Não se trata do regresso aos ‘quinhentinhos’, porque acredito na honestidade do atual quadro de árbitros. Mas o que se está a passar na Arbitragem, devolvida ao corporativismo e à opacidade, representa um retrocesso ao qual a Liga se deve opor publicamente, sob pena de ver degradado o produto que tem para vender…

Os mandatos de José Fontelas Gomes à frente do Conselho de Arbitragem (CA) da FPF foram marcados por um reformismo responsável, que lançou bases, através da introdução (e aprendizagem do uso) da tecnologia, e por uma crescente transparência, suscetível de credibilizar o setor junto da opinião público e torná-lo merecedor de maior confiança por parte dos clubes. Em retrospetiva, foram anos positivos, que culminaram com a apresentação de um projeto, inspirado no que é feito em Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos, que visava dotar a arbitragem de uma autonomia a rondar a independência, sob o primado da meritocracia. Fez bem Fernando Gomes quando apoiou Fontelas Gomes, voltou a estar bem Pedro Proença quando o convidou para ser um dos seus vice-presidentes. Sem roturas, respeitando os árbitros, o caminho apontado foi o da modernidade, aliás o único compatível com a desejada internacionalização. Sempre houve - num contexto em que Pedro Proença, então presidente da Liga, não tinha nada a ver com a Arbitragem - a noção de que era de que o ‘plantel’ era genericamente fraco, o que levou, até, que fosse adotada como política a nomeação de árbitros menos qualificados para as quatro linhas, salvaguardados por VAR’s qualificados, que minimizavam os erros. Ao mesmo tempo, um processo intensivo de procura de candidatos em todo o País e cursos sucessivos que visavam melhorar as competências do quadro existente, foi implementado. Não foi um caminho perfeito nem isento de erros, mas, pelo menos, teve o mérito de atenuar o corporativismo e acelerar a transparência.

Quando Luciano Gonçalves sucedeu a Fontelas Gomes (e ambos chegaram à Cidade do Futebol vindos da liderança da APAF), pensou-se que haveria uma evolução na continuidade, que viesse a desaguar num organismo autónomo que blindasse os árbitros de influências externas e não tivesse nada a esconder. Depois de um ano de Primavera, no pós-Fontelas Gomes, o Inverno abateu-se sobre a Arbitragem, que regressou à Idade das Trevas. Mas por que razão deixaram de ser públicas as classificações dos árbitros? Por que razão acabaram as sessões de esclarecimento, que tinham por objetivo fazer pedagogia e aproximar o setor de um público-alvo que passaria a ser mais conhecedor? Por que razão voltámos a ter a Arbitragem sob escrutínio do Ministério Público? Resumindo, tudo por más razões: por medo de se concluir pela impreparação; por medo de explicar as más decisões; por medo de se perder o controlo aplicando, a meritocracia, promovendo os melhores e erradicando os que mostraram não ter qualidade. Na prática, tudo o que temos visto neste setor, remete-nos para uma triste conclusão: o CA não passa de uma APAF com outra sigla; a APAF, como sindicato dos árbitros que é, defende-os sem outra preocupação, cumprindo a sua função; ao CA pede-se mais, pede-se que defenda a Arbitragem, nem que para tal tenha de cortar a direito, separando o trigo do joio entre os árbitros, o que, manifestamente, deixou de fazer. Neste momento há duas APAF’s, uma que faz o seu trabalho, a outra que está a provocar um retrocesso civilizacional, a partir da Cidade do Futebol. E os clubes vivem bem com isto? A Liga, que quer argumentos para internacionalizar o produto que vende, não diz nada? Francamente, se calhar sou eu que estou enganado e o destino  da Arbitragem portuguesa passa por ser uma sociedade secreta, obscura nas intenções e opaca na forma, de cuja substância é lícito desconfiar. A prazo, quem são as principais vítimas deste processo que olha o futuro pelo retrovisor? Os árbitros. E mais cedo do que mais tarde vão perceber porquê…

CARTAS

ÁS

Gianluca Prestianni

O jovem argentino assinou nos Barreiros um golo de invulgar qualidade, que coroou uma exibição de grande nível a partir do momento em que passou a jogar nas costas do ponta-de-lança. Marco Silva deve aprofundar esta fórmula, retirando a Prestianni tiques de individualismo.

REI

João Almeida

O décimo lugar na etapa que culminou na subida da Sierra de La Pandera mostrou-nos como os quilómetros que tem vindo a acumular lhe estão a fazer bem. Numa Vuelta horrível para a UEA, João Almeida tem vindo de menos a mais, dando esperança de que o pior tenha passado…

DUQUE

Miguel Oliveira

O que se passa? Ainda é demasiado novo e talentoso para se falar no ocaso de uma carreira que já lhe rendeu cinco vitórias na categoria-rainha do motociclismo, o MotoGP. É falta de confiança? São más escolhas quanto às equipas? Há uma legião de admiradores que quer o Falcão de volta. 

CAPA

As sombras mandam na Cidade-Luz

O que se passa com o bi-campeão europeu, a escassos dias de iniciar a luta pelo tri na Champions, proeza que só Real Madrid (duas vezes, Di Stefano e CR7), Ajax (de Cruyff) e Bayern (de Beckenbauer) lograram? Depois de dois empates, à terceira jornada a equipa de Luís Enrique perdeu com o Mónaco no Parque dos Príncipes, lançando dúvidas quanto às alterações introduzidas. Na derrota com o Mónaco, dos ‘novos’, estiveram Akliouche como titular e Ferrán Torres e Godts, como suplentes utilizados. Só.

O que se passa com o bi-campeão europeu, a escassos dias de iniciar a luta pelo tri na Champions, proeza que só Real Madrid (duas vezes, Di Stefano e CR7), Ajax (de Cruyff) e Bayern (de Beckenbauer) lograram? Depois de dois empates, à terceira jornada a equipa de Luís Enrique perdeu com o Mónaco no Parque dos Príncipes, lançando dúvidas quanto às alterações introduzidas. Na derrota com o Mónaco, dos ‘novos’, estiveram Akliouche como titular e Ferrán Torres e Godts, como suplentes utilizados. Só.

FOTOLEGENDA

SOLIDÁRIOS

Há quem diga que o melhor do futebol são os jogadores. Infelizmente nem sempre é assim (o match-fixing é a mais recente tentação…), mas é-o em suficientes ocasiões para que se aceite o pressuposto. Adversários no segundo anterior, dragões e cónegos uniram-se em torno do infortúnio de Froholdt, que teve de abandonar em maca o relvado do anfiteatro portista e passar a noite no hospital. Há uma dimensão (por enquanto) de pureza que resvala para ingenuidade, que junta quem se combate dentro das quatro linhas, quando o que está em causa vale mais que o futebol. Uma lição não só para os adeptos, mas também para a sociedade.  

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