O valor para lá da janela
Durante mais de 20 anos, a primeira sexta-feira de setembro significava para mim acompanhar os dados do emprego não agrícola nos Estados Unidos. Um indicador capaz de alterar expectativas e movimentar mercados. Mudei de setor. Não mudei a forma como o observo.
A primeira semana de setembro conduz-me agora ao fecho do mercado de transferências do Futebol Profissional. Também aqui importa saber o que observar, quando e porquê. Sobretudo porque esta janela não fecha num único momento: primeiro, o prazo europeu; depois, o prazo geral; por fim, o novo período especial para jogadores sub-23 formados nos clubes.
Três datas que traduzem uma visão abrangente. As competições não são disputadas apenas pelas cinco equipas presentes na Europa, mas por 36 equipas (incluindo as equipas B), com necessidades distintas.
A extensão dos prazos nacionais permite reagir a saídas no limite dos principais mercados europeus, recompor os plantéis com maior ponderação e proteger a capacidade competitiva. O período dedicado aos jovens formados localmente favorece a sua afirmação e valoriza um dos principais ativos do futebol português: a formação.
Durante semanas, porém, o futebol parece disputar-se fora das quatro linhas. Multiplicam-se rumores, viagens, valores e assinaturas. Uma contratação provoca celebrações e uma venda expressiva surge como prova de competência. Identificar, desenvolver e transacionar talento é determinante para a sustentabilidade das Sociedades Desportivas.
Portugal não compete com as maiores ligas pelo poder de compra. Compete pela capacidade de descobrir talento mais cedo, desenvolvê-lo melhor, dar-lhe palco e acrescentar-lhe valor. O desafio não é impedir que os jogadores saiam, mas criar condições para que evoluam mais, permaneçam mais tempo e sejam transferidos pelo valor que representam.
Esse objetivo não depende apenas dos clubes. Uma competição mais forte, com maior distribuição internacional, melhores conteúdos e maior notoriedade, amplia a exposição perante adeptos, compradores de direitos e investidores. É esse o trabalho que a Liga Portugal tem vindo a desenvolver: valorizar o produto coletivo para aumentar também o valor dos ativos de cada Sociedade Desportiva.
A centralização dos direitos audiovisuais é o passo seguinte desse caminho, agora assente numa chave de distribuição aprovada com mais de 80% dos votos, que promove maior equidade no acesso a receitas e exposição. Os clubes fazem os negócios. À Liga Portugal cabe continuar a criar as melhores condições para que os façam.
Portugal não precisa de ganhar a corrida do dinheiro. Pode afirmar-se como a melhor plataforma europeia para descobrir, desenvolver, mostrar e valorizar talento. A janela fechou, mas o trabalho para aumentar o valor da próxima já começou.