A Coca-Cola de Pessoa
Há quem defenda, e eu não discordo, que a primeira grande tentativa de popularizar o ‘soccer’ nos Estados Unidos, em meados da década de setenta do século passado, quando clubes detidos por entidades fortíssimas (o Cosmos de Nova Iorque era da Warner) contrataram vedetas planetárias – Pelé, Eusébio, Cruyff, Beckenbauer, Best, e uma lista outras de estrelas deveras impressionante – falhou por falta de adaptação de um desporto ‘europeu’ na génese, à mentalidade norte-americana. Trocando por miúdos, as televisões locais queriam mais tempo para publicidade, e os adeptos não aceitavam que os jogos acabassem empatados. Para o segundo problema, foi inventado o ‘shootout’, em que o marcador partia com a bola controlada a 30 metros da baliza e tinha cinco segundos para tentar fazer golo, quer chutando, quer driblando o guarda-redes. Era esquisito, mas dava emoção, retirando interesse contabilístico, pelo risco envolvido, a quem jogava para empatar. Onde não houve sucesso foi na criação de jogos de quatro partes, à imagem do que sucede no basquetebol. O International Board manteve-se irredutível e o ‘soccer’, por falta de intere$$e televisivo, entrou em hibernação. Hoje, a MLS, que regista médias de espetadores muito apreciáveis, é vista sobretudo por população de ascendência latino-americana.
A invenção das pausas para hidratação de três minutos no Mundial surgiu assim como uma espécie de ovo de Colombo, que mete centenas de milhões de dólares (são 208, ao longo da competição) nos bolsos dos detentores dos direitos televisivos, e corremos o risco de, por razões que o dinheiro explica, virmos a normalizar essa situação, na Europa, o que, ao quebrar o ritmo aos jogos logo que é ultrapassado o encaixe das equipas e começa a haver uma definição da tendência dominante, cria uma nova forma de abordar o futebol. As estratégias que se estabelecem passam a estar segmentadas em quatro vezes 22m30s, e podemos estar perante ‘contagens de proteção’ artificiais, que evitam o KO e vão criar condições para muitas mais decisões aos pontos, isto usando uma metáfora do boxe.
Gosto? Não. Penso que há uma possibilidade forte de num futuro próximo passar a ser assim? Sim. Depois, é como a Coca-Cola, vista por Pessoa: primeiro estranha-se, depois entranha-se.
*Eusébio da Silva Ferreira jogou no México (CF Monterrey), nos Estados Unidos (Boston Minuteman, Las Vegas Quicksilvers e New Jersey Americans) e no Canadá (Toronto Metros-Croatia). O Mundial de 2026 disputar-se-á por terras onde o ‘King’ espalhou o fulgor derradeiro da sua magia…