Sebastián Coates: o exemplo de 'El Patrón'
Num futebol cada vez mais acelerado, emocional e efémero, Coates representa exatamente o contrário: estabilidade, carácter e compromisso. Durante nove temporadas ao serviço do Sporting, o uruguaio tornou-se muito mais do que um defesa-central. Tornou-se uma referência institucional. Um símbolo de resistência nos momentos difíceis e de liderança nos momentos de glória.
Talvez a melhor forma de compreender quem é Sebastián Coates seja regressar ao início de tudo. Nascido em Montevidéu, cresceu numa cooperativa habitacional chamada Jardines de la Cruz, um daqueles bairros onde a rua funcionava como escola de vida e onde uma bola de futebol estava sempre por perto. Como ele próprio recorda, no Uruguai o futebol faz parte da identidade cultural do país. Está presente nas famílias, nas conversas, nas amizades e nos sonhos das crianças: Recorda:
− Quando éramos pequenos, o primeiro presente era quase sempre uma bola de futebol.
A família teve um papel decisivo nesse percurso. Sempre presente, sempre disponível para apoiar, sem retirar a alegria do jogo. Mais tarde surgiu o Nacional, o clube onde começou a compreender verdadeiramente o significado de representar uma instituição histórica e a assumir responsabilidades cada vez maiores.
Desde cedo aprendeu algo que o acompanharia durante toda a carreira: o talento abre portas, mas são os valores que sustentam uma trajetória.
A sua ascensão foi rápida. Destacou-se no Club Nacional de Football, conquistou a Copa América de 2011 pelo Uruguai e foi eleito o Melhor Jovem Jogador da competição. O reconhecimento internacional levou-o para Inglaterra e para o Liverpool.
Mas a carreira de Coates nunca foi uma história construída apenas sobre sucesso imediato. A passagem pelo futebol inglês trouxe desafios importantes. Lesões, períodos de menor protagonismo e a necessidade constante de adaptação obrigaram-no a crescer enquanto jogador e enquanto homem.
Coates nunca foi feito de atalhos. Foi construído na superação. As dificuldades vividas em Inglaterra, as lesões, os empréstimos e os momentos menos visíveis ajudaram a moldar uma personalidade resiliente, equilibrada e preparada para liderar. Talvez por isso tenha encontrado em Alvalade o palco perfeito para afirmar aquilo que verdadeiramente era.
Quando chegou ao Sporting, em janeiro de 2016, inicialmente por empréstimo do Sunderland, poucos imaginavam o impacto que viria a ter no clube. O que começou como uma oportunidade de mercado transformou-se numa das maiores histórias de liderança da história leonina.
Coates não conquistou os adeptos através de discursos fortes e inflamados. Conquistou-os através da consistência. Da disponibilidade. Da fiabilidade. Da sensação permanente de segurança que transmitia a colegas, treinadores e adeptos.
Em Alvalade ganhou o nome de El Patrón. E não foi por acaso. Ao longo dos anos foi assumindo um papel cada vez mais central no balneário leonino. Quando hoje fala sobre liderança, admite algo curioso: nunca procurou ser líder:
− É estranho, mas nunca me impus esse papel. Foi algo natural. Aprendi com jogadores experientes no Nacional, cresci muito em Inglaterra e, em Portugal, acabei por consolidar tudo isso.
A sua visão sobre liderança ajuda a perceber porque foi tão respeitado ao longo da carreira:
− Com o tempo percebi que liderar não é apenas falar ou usar uma braçadeira. É estar presente para os companheiros todos os dias, dar o exemplo no trabalho e assumir responsabilidades nos momentos importantes.
Esta definição encaixa perfeitamente naquilo que representou no Sporting.
A consagração desse percurso aconteceu de forma definitiva na temporada de 2020/21. O Sporting não conquistava o campeonato nacional há 19 anos. Uma geração inteira de adeptos nunca tinha celebrado um título de campeão. A pressão era enorme. As expectativas eram moderadas. Poucos acreditavam que aquela equipa pudesse terminar a época no topo.
Coates pegou na braçadeira e ajudou a acabar com uma geração inteira de frustrações. Liderou dentro do campo, protegeu os mais jovens, deu estabilidade ao processo e transformou-se no prolongamento natural do treinador dentro das quatro linhas. A sua influência fazia-se sentir nos momentos de maior tensão, quando era necessário manter a serenidade, reforçar a confiança do grupo e recordar a todos o caminho que estava a ser percorrido. O próprio reconhece que o contexto daquela época era especial:
− Sabíamos perfeitamente o que aquele título representava para o clube e para os adeptos. Havia uma carga emocional muito grande. Como capitão senti uma enorme responsabilidade, mas também um enorme orgulho.
Depois da eliminação precoce das competições europeias, poucos acreditavam na candidatura leonina ao título. Dentro do balneário, porém, a história foi diferente:
− Talvez ninguém esperasse que conseguíssemos ser campeões. Mas aquele grupo foi-se construindo ao longo da época e tornou-se muito forte.
Quando o campeonato foi conquistado, o impacto ultrapassou largamente o plano desportivo. O mundo vivia ainda sob os efeitos da pandemia. Muitas pessoas enfrentavam dificuldades, incertezas e ansiedade. Recordou-me:
− Quando vimos a felicidade dos adeptos percebemos que aquilo ia muito para além do futebol. Foi devolver uma alegria enorme a pessoas que tinham passado momentos muito difíceis.
E isso é algo reconhecido por várias figuras do futebol.
Rúben Amorim definiu-o diversas vezes como um «líder natural», destacando a importância da sua experiência e da sua tranquilidade competitiva nos momentos de maior pressão. Para o treinador português, Coates representava muitas vezes o equilíbrio emocional da equipa.
Também Luis Suárez, companheiro de seleção durante vários anos, destacou publicamente a sua importância no balneário uruguaio, descrevendo-o como «um jogador respeitado por todos e um exemplo de profissionalismo».
Já Diego Godín, outra referência histórica da defesa uruguaia, resumiu a sua liderança numa frase particularmente feliz:
− Há jogadores que falam muito. O Coates lidera pela forma como compete.
Talvez nenhuma definição seja mais adequada.
Numa era em que a liderança é frequentemente confundida com exposição mediática, Coates representa uma ideia cada vez mais rara: a liderança serena, consistente e confiável. Nunca precisou de protagonismo excessivo. Nunca viveu da imagem. Viveu da atitude, do compromisso diário com a equipa, com o clube e com a responsabilidade de liderar.
Também pela seleção uruguaia construiu uma carreira de enorme respeito, participando em Campeonatos do Mundo, Jogos Olímpicos e Copas América. Sempre dentro da tradição competitiva uruguaia, onde a liderança não se proclama: demonstra-se.
O futebol moderno mudou muito nos últimos anos, e Coates acompanhou essa transformação:
− Hoje um defesa-central tem de dominar muitas coisas. Defender continua a ser a base, mas também é preciso saber construir, interpretar espaços e adaptar-se a diferentes sistemas.
Mas para ele continuam a existir aspetos que nunca perdem importância:
− A concentração, a personalidade e a comunicação continuam a ser fundamentais. Um central tem de transmitir segurança, organizar e dar tranquilidade à equipa.
Curiosamente, essa descrição acaba por ser um retrato fiel da sua própria carreira.
Os números ajudam a perceber a dimensão da sua passagem por Alvalade: 369 jogos, múltiplos títulos nacionais, duas ligas conquistadas, Taças da Liga, Taça de Portugal e Supertaça. Tornou-se o jogador estrangeiro com mais jogos da história do Sporting. Mas os números contam apenas uma parte da história. Porque o verdadeiro legado de Coates nunca foi apenas estatístico. Foi emocional. Foi institucional. Foi identitário.
Quando lhe perguntei o que gostaria que os adeptos recordassem ao ouvir o seu nome, a resposta foi simples e profundamente reveladora:
− Sempre tentei representar o Sporting com respeito, compromisso e dando tudo pelo clube. Se se lembrarem de alguém que defendeu este símbolo com orgulho e honestidade, para mim já significa muito.
E acrescentou:
− Mas acima de tudo quero que saibam que o carinho foi mútuo. Foram nove anos em que aprendi a viver, a respeitar e a amar este clube. O Sporting marcou-me muito e terá sempre um lugar especial na minha vida.
Talvez seja precisamente essa frase que explique porque Coates deixou de ser apenas um jogador do Sporting para se tornar uma parte da sua história. Porque os grandes capitães não pertencem apenas aos clubes. Pertencem à memória coletiva dos adeptos.
Ao regressar ao Club Nacional de Football, o clube onde tudo começou, encerra-se um ciclo extraordinário. Um daqueles ciclos que dificilmente se repetem, porque jogadores com esta dimensão humana e profissional não surgem com frequência e muito menos com a capacidade de se transformarem em referências num mundo que precisa cada vez mais destes exemplos.
Nem todos os clubes têm a sorte de encontrar alguém capaz de ser, em simultâneo, líder competitivo, referência emocional e símbolo institucional. Sebastián Coates foi e, até ao final da sua carreira, é tudo isso. Defesa que organizava. Capitão que protegia e que dá o exemplo. Líder que inspirava.
É o El Patrón. E há alcunhas que não se escolhem. Conquistam-se.
Nota final: Um muito obrigado ao Coates por ter colaborado com este artigo.
«Liderar no Jogo» é a coluna de opinião em abola.pt de Tiago Guadalupe, autor dos livros «Liderator - a Excelência no Desporto», «Maniche 18», «SER Treinador, a conceção de Joel Rocha no futsal», «To be a Coach», «Organizar para Ganhar» e «Manuel Cajuda – o (des)Treinador».