A bola, la reina outra vez
Se para muitos o Campeonato do Mundo já é passado, para outros é altura de analisar o que realmente aconteceu nos States, México e Canadá. À primeira vista, o torneio não trouxe grandes novidades. Se nos anos 80 e 90 era na montra da grande competição que estas surpreendiam e influenciavam o resto do planeta, hoje o grau de informação é tão grande que passou a ser o Mundial aquele que reflete o que se passa no dia a dia e não o contrário. Não houve revoluções, porém reforçaram-se tendências.
A Espanha sagrou-se campeã 16 anos depois da festa na África do Sul, levando a bola a sentar-se novamente no trono. Com raízes no modelo que dominou o futebol de 2008 a 2012, inspirado no Barcelona de Guardiola e de La Masia, e com a verticalidade acrescentada por Luis de la Fuente que já tinha conquistado o Europeu, La Roja mostrou-se compacta e muito difícil de ultrapassar. Não só atacou de forma organizada, como se posicionou para reagir rapidamente quando perdia a bola, recuperando-a quatro ou cinco segundos depois. A sua rest defence esteve apurada e, como tal, foram poucas as jogadas que realmente chegaram perto da sua baliza, de onde Unai Simón também saía com coragem para controlar a profundidade, tornando-se o líbero ideal da linha defensiva subida.
A Argentina foi ainda mais paciente na posse e o bloco por vezes também baixou um pouco mais, sobretudo em situações de vantagem no marcador. Nem sempre conseguiu criar transições letais, já que, com um Messi envelhecido e Julián Álvarez e Lautaro Martínez a ter de recuperar a forma durante a competição, lhe faltou contundência, no entanto, respondeu quase sempre quando encostada às cordas. Subiu linhas, intensificou a contrapressão e até esteve perto de empatar a final, apesar do muito pouco criado até aí.
Embora nem sempre um estilo muito apreciado por todos, os argentinos valorizaram a pausa, a posse lenta e o relacionamento intuitivo entre os jogadores, à espera do momento certo para encontrar Lionel Messi com espaço e no espaço certo para ameaçar a baliza. Ou simplesmente descobrir um caminho alternativo por um dos médios, ou por Álvarez ou Lautaro.
A larga maioria das seleções presentes fugiu ao parking the bus, mesmo que o Paraguai tenha conseguido o feito de eliminar assim a Alemanha. O 4x5x1 de Gustavo Alfaro garantiu apenas 23% de posse em 120 minutos e o apuramento só surgiu nos penáltis, todavia, chegou para deixar a Mannschaft pelo caminho nos 16 avos de final. Também se pode olhar da mesma forma para Cabo Verde na estreia diante de Espanha e até para a Argentina na final perante a futura campeã. Na larga maioria das vezes, simplesmente não foi suficiente.
As caminhadas espanhola e argentina contaram com meias-finais complicadas diante de França e Inglaterra. Tornaram-se confrontos de estilos que inclinaram totalmente o Mundial para o lado da posse de bola em contraste com o da vertigem, da fisicalidade e transição ofensiva. Se a Albiceleste ainda sofreu, contudo, soube ultrapassar o autocarro de dois andares montado por Tuchel assim que se viu a vencer, La Roja não deu qualquer hipótese àquela que desde o início era aclamada de grande favorita.
O alargamento para 48 seleções trouxe naturalmente espaço a jogadores que normalmente nunca pisariam uma fase final e deu lugar ainda a duelos com pouco interesse mediático. Na prática, a democratização do torneio, que poderá sofrer novo alargamento em 2030 para 64 equipas, é sobretudo a sua vulgarização, ainda que tenha acrescentado algum exotismo com equipas como o Uzbequistão, Curaçau, Haiti, Jordânia e Panamá, entre outras. Na verdade, a mostra serviu para nos apercebermos todos da evolução do jogo: mesmo na seleção mais frágil havia conceitos de organização coletiva, que reduziram as distâncias para as melhores e só o talento individual nestas, claramente superior, ou uma maior profundidade nas ideias pôde voltar a cavá-las.
O mal de haver vencedores tão idealistas é que rapidamente as suas ideias se tornam moda. Multiplicaram-se rapidamente as vozes a argumentar que o que tinha faltado à seleção dos Três Leões era ter bola e que Phil Foden e Cole Palmer teriam ajudado se tivessem integrado a convocatória de Tuchel, mais virada para a transição.
Os ingleses apontam agora para uma Inglaterra mais à Guardiola, tal como a Alemanha e Portugal, desde a chegada de Roberto Martínez, têm tentado ser. A Argentina não caiu no erro. A identidade está lá, desde a pelota e a matreirice potrera ao cinismo e fisicalidade, ainda que o fim de ciclo, já provavelmente sem Messi nem Scaloni, possa colocá-la em rota de colisão com uma montanha de dúvidas.
Pode até ganhar mais vezes, mas quem quiser imitar a Espanha terá muitas dificuldades em batê-la enquanto esta continuar a gerar talento, este perfil de jogadores e, sobretudo, este futebol em alguns clubes. Por alguma razão, o Brasil não se pode reinventar a partir do jogo europeu, mas sim do seu ADN. E talvez o próximo passo seja olhar para a formação, de jogadores, mas também de técnicos. O caminho não é ser igual a Espanha, mas ser o mais forte dentro do seu estilo, não alheando a bola. Mesmo que a França o seja e não tenha conseguido bater a Roja na meia-final. Às vezes, simplesmente não é possível!
O melhor jogador do torneio terá sido, e a uma boa distância, Lionel Messi. Não estou a dizer que Rodri esteve mal ou não foi influente na Espanha, mas até nessa acredito que o mais regular em termos do que entregou em cada partida tenha sido Dani Olmo. Já o 10 argentino foi o pensamento e muitas vezes a execução, aos 39 anos. Consensual como nunca, com todos atrás, mas sem ninguém à sua altura, voltou a ver o que mais ninguém via, no momento certo e entregou-se de corpo e alma. Jogou e fez jogar. Ganhou e fez ganhar. Fez crescer uma Argentina com alguns jogadores medianos, exatamente como Maradona em 1986, e perdeu, também como o Pelusa, quando o adversário obrigava a algo que já não conseguia, quatro anos depois. Merecia outra despedida? Talvez, mas nunca será por isso que o deixaremos de idolatrar por décadas e décadas vindouras.
P.S. Deixo estas últimas linhas para Trump e Infantino, sobretudo o último. Porque o primeiro sabemos o que é, mas no segundo deixámos de ver a forma original assim que mostrou não ter coluna vertebral no caso Balogun. É a FIFA e o poder. E estar próximo disso é sempre tóxico para os demais.