A «aura inquebrável» que voltou a pôr a Capital do Fumeiro no mapa do futebol nacional
O primeiro campeão distrital da época 2025/26 ficou conhecido em… fevereiro. O Vinhais empatou 0-0, em casa, com o Argozelo e conquistou a Divisão de Honra da AF Bragança, a quatro jornadas do fim da contenda, voltando a pôr a Capital do Fumeiro no mapa do futebol nacional.
Em conversa com A BOLA, o treinador Marco Móbil afirmou, no entanto, que, neste momento, nem quer ouvir falar em Campeonato de Portugal: «É um não-assunto nas nossas cabeças. Não pensamos nisso, estamos focados apenas no que queremos e na forma como queremos acabar o ano.»
A formação vinhaense ergue agora outros dois objetivos: terminar o campeonato sem derrotas (leva 13 vitórias e dois empates) e ganhar a Taça da AF Bragança, um sonho antigo do presidente Manuel Rodrigues (Pik), como confessou ao nosso jornal: «Tenho o desejo de ganhar a Taça. Tenho sete finais e nunca consegui ganhar. Há essa coisa que gostava de cumprir.»
Voltando ao técnico, que descreve o seu conjunto de jogadores como tendo uma «aura inquebrável», Marco Móbil, de 45 anos, garantiu que a equipa está unicamente focada no que resta da temporada e, depois, sim, «haverá tempo para a direção falar» sobre o ano que vem. «Eu próprio não sei se fico, nem é coisa que me preocupe neste momento. Estou apenas focado em acabar a época e tentar ganhar a taça», acrescentou o treinador.
Primeiro, há que terminar o campeonato. Depois, virá a Taça (com o Vinhais nos quartos de final). Por fim, em maio, haverá eleições no clube, nas quais Manuel Pik espera ser reeleito. Se assim for, será para dar continuidade ao projeto, claro é, com Marco Móbil ao comando. «Ainda não sabemos se vamos ser eleitos, mas, se continuarmos, ao que tudo indica, será para estar no nacional, 21 anos depois (...) da última vez, em 2005/06, era eu jogador», recordou, antes de confirmar que, para o ano, quer ficar com o mister, «claro que sim».
Marco Móbil chegou àquela vila, com pouco mais de 2.000 habitantes, no início da temporada 2023/24, para dar início a um projeto ao qual só os tubarões do distrito, Bragança e Mirandela, conseguiram fazer frente. «Há três anos, quando cheguei, o Vinhais tinha ficado em 10º [num campeonato com 12 equipas]. Chegámos e as nossas contratações foram a equipas que tinham ficado do meio da tabela para baixo, ou seja, que não tinham disputado nem o título nem andavam nas ditas melhores equipas», lembrou.
«No primeiro ano, apanhámos o Bragança. Sabíamos que era muito difícil combater porque não tínhamos as mesmas armas. O que é facto é que, nesse ano, só o Bragança nos superou: ficou em primeiro e ganhou-nos a taça. Mas formámos uma base e, no segundo ano, conseguimos ser ainda mais competitivos, apesar de termos apanhado o outro gigante do distrito, o Mirandela. Em dois anos, fomos a única equipa que conseguiu competir com os dois gigantes do distrito. Por isso, este ano [com Bragança e Mirandela no CP] as pessoas tinham a expetativa de que fôssemos campões», revelou.
«Chuva, geada, neve… Falar de fora é fácil»
Ainda assim, o ex-jogador do Bragança (de onde é natural) afastou a ideia de que, este ano, a sua equipa apenas foi campeã, porque não apanhou pela frente os tais gigantes: «Conquistámos o que conquistámos fruto de muito trabalho e competência da equipa, da base que foi criada. Os miúdos estão há três anos connosco e este ano foi dar continuidade ao trabalho, com muito esforço e dedicação da parte deles. É um privilégio e um orgulho ter o grupo de jogadores que tenho.»
«Só quem está lá dentro sabe aquilo que passámos: chuva, geada, neve… Falar de fora é fácil: 'Ah, como foi em fevereiro, foi fácil'. Nada foi fácil. Conquistámos o que conquistámos com muito trabalho totalmente dos meus jogadores, volto a frisar, não me canso de dizer isso. Já não tenho adjetivos para os qualificar», acrescentou.
O comandados de Marco Móbil tiveram uma evolução que foi, naturalmente, merecendo o respeito dos rivais ao longo dos anos. E o técnico exemplifica: «Dá-nos imenso gozo ver os adversários a empatar connosco e a festejar como se fosse uma vitória. Quando no início deste projeto, há três anos, as equipas ficavam chateadas quando empatavam contra nós.»
Clube conta com a Junta de Freguesia
Manuel Pik enalteceu o papel do poder local na conquista: «Tem estado sempre ao nosso lado. Este ano, deram-nos mais uma ajuda no orçamento, porque já sabiam qual era o projeto.»
Admitindo que sem a Câmara e da Junta de Freguesia ao lado «não é possível fazer nada», o presidente do clube vinhaense afirma que «está tudo bem encaminhado», para que, para o ano, a presença no Campeonato de Portugal seja uma realidade.
Lólis e Miguel são o orgulho de uma terra
Ganhar um título e subir aos nacionais é ainda mais especial quando se logra com o emblema do clube da terra ao peito. Foi o caso dos capitães de equipa, Lólis (27 anos) e Miguel Gonçalves (23).
«Está a ser uma época incrível e muito especial, claro. Poder voltar a pôr o Vinhais nos nacionais é um motivo de muito orgulho. Da última vez que tinha lá estado, eu tinha 6 anos. Já via futebol, mas ainda não ligava muito ao Vinhais», admitiu o mais velho, merecendo a concordância do caçula.
Miguel Gonçalves saiu do conforto de Vinhais para ir atrás do sonho e completar a formação no Bragança e Chaves. Em 2017, após o Torneio Lopes da Silva, o lateral chegou a integrar um estágio de observação da seleção sub-15, na Cidade do Futebol, onde se bateu com craques como Francisco Conceição, Fábio Silva, Tomás Araújo e Eduardo Quaresma.
Depois de alguns azares (e lesões) na sua curta carreira, em 2022/23, o menino decidiu voltar a Vinhais para ser, novamente, feliz. Desde então, conta que nunca lhe foi exigido nada por parte da direção, o que terá sido fundamental para a conquista do tão esperado título: «Internamente, no grupo de jogadores, sabíamos que queríamos ser campeões e fazer o melhor possível, mas a direção nunca nos impôs nada. Ter esse conforto também nos deu total à vontade ao longo da época.»
«A direção nunca nos pediu para sermos campeões. Nós pensamos jogo a jogo e a verdade é que correu bem. Estarmos invictos e já sermos campeões deve-se ao facto de termos muita união e sermos muito trabalhadores», disse, por seu turno, Lólis, que conseguiu ser campeão pelo seu Vinhais, ao fim de dez anos.
«Também beneficiámos do facto de termos mantido um bom núcleo dos anos anteriores, porque não foi começar do zero. Já tínhamos ali uma base boa», acrescentou Miguel, atestando a ideia do mister.