De quatro em quatro anos a cena repete-se: por razões políticas, a FIFA convoca para os Mundiais árbitros de todas as Confederações, muitos deles sem qualidade para estar num certame desta natureza. Invocam os responsáveis que assim é possível manter motivados os árbitros das zonas menos evoluídas futebolísticamente, e dar razões para que surjam, nessas paragens, mais candidatos à função.

Depois da pouca vergonha que foi a arbitragem no Mundial de 2002, realizado na Coreia do Sul e no Japão - ocorreram alguns verdadeiros casos de polícia - o cuidado passou a ser maior e, mais recentemente, com a chegada do VAR, a ajuda exterior (quase sempre, mas nem sempre) permite minimizar os danos. Porém, na fase de grupos, continuamos a ver alguns trabalhos confrangedores, uma espécie de dízima que as equipas têm de pagar em nome da globalização do setor, que não concorre, do ponto de vista desportivo, para a credibilidade do torneio.

A Portugal, para já, calhou um árbitro do Qatar, na partida com o Congo, que andou mais tempo à procura do jogo do que a controlá-lo, sentindo-se que o Princípio de Peter estava ali a funcionar em grande força. No segundo jogo, fomos de mal a pior. O árbitro marroquino tremeu como varas verdes, falhou em lances claros e óbvios que estavam fora do protocolo do VAR, e foi preciso que a tecnologia o fizesse reverter aquele que seria o golo do Uzbequistão, após ter feito vista grossa a uma falta sobre João Cancelo, que até os astronautas que estavam em contacto com Houston, onde o encontro se realizou, devem ter visto.

Para a terceira partida, com a Colômbia - aquele que deve ser o jogo mais difícil de dirigir do Grupo K - a escolha recaiu num árbitro australiano, iraniano de nascença e formação, que tem no currículo, ainda enquanto natural do Irão, a final dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016.

Dirigir a FIFA, e para isso é preciso garantir os votos suficientes para ganhar eleições, é uma missão em grande parte política, que exige manter em grau de satisfação a generalidade dos votantes. Algumas das escolhas para sede das competições mostram isso mesmo (e ainda mais, o FBI que o diga), mas, em minha opinião, onde se nota mais este ‘handicap’ é precisamente na arbitragem, até chegar a fase a eliminar. 

* Eusébio da Silva Ferreira jogou no México (CF Monterrey), Estados Unidos (Boston Minuteman, Las Vegas Quicksilver e New Jersey Americans) e Canadá (Toronto Metros-Croatia). O Mundial de 2026 joga-se onde o ‘King’ espalhou o que lhe restava de magia…

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