Seleção de Portugal cumpre pausa para hidratação (foto: IMAGO)
Seleção de Portugal cumpre pausa para hidratação (foto: IMAGO)

A aposta da FIFA em reduzir os tempos mortos neste Mundial parece revelar-se certeira. Um estudo da BBC revela que não só o tempo útil aumentou, como os períodos de desconto baixaram significativamente.

Longe vai a loucura do Mundial do Catar, em que raro foi o jogo que não passou dos 100 minutos. Se excluirmos os hydration breaks — uma das enésimas cedências do futebol ao capitalismo, mas esta travestida de medida pelo jogo —, temos mais jogo e menos pausas.

Jogadores e regras vivem num permanente jogo de gato e rato: a evolução do futebol é a história de como contornar regras ou usá-las em favor próprio. No entanto, o único pontapé de baliza revertido em canto aconteceu no encontro entre Portugal e a RD Congo. As pausas por lesão parecem em queda — o fantasma de jogar com 10 é um travão relevante —, e os jogadores substituídos têm cumprido os dez segundos obrigatórios para sair do campo.

Começam, assim, a surgir consequências. O número de golos a ocorrer nos últimos 15’ é, neste momento, de 30%. Nas três competições anteriores, os números não tinham chegado a 25%. Podemos afirmar que a diferença é pouco relevante, claro. Principalmente, precisamos de uma análise que envolva toda a competição. Talvez volte a este tema noutro dia, mas o padrão para golos após os 76’ ronda os 20% na alta competição: está estudado que os últimos minutos são terreno fértil para o golo. A fadiga é um acelerador de erros? O rigor táctico perde-se com o passar do tempo? Assumem-se mais riscos na iminência do fim do jogo?

Também o aumento do número de equipas trouxe discrepâncias assinaláveis. Se alguns dos jogos têm um vencedor anunciado, isso tem trazido dilemas de construção de uma identidade colectiva a algumas selecções. Portugal, por exemplo, faz dois jogos muito diferentes, mas estarão arrumados todos os problemas colectivos? As dúvidas surgem porque o adversário é das equipas mais fracas da prova, mas também porque as mudanças na ideia vieram a reboque de alterações individuais.

É um atalho: muda o jogador e a táctica é outra. E ao mudar um jogador, muda a dinâmica colectiva. O jogo melhora com Félix, por exemplo. É o paradoxo da escolha a que se sujeita quem tem muitas e boas soluções do meio-campo para a frente. Ainda assim, louve-se a agressividade e a capacidade acrescida na reacção à perda. A competitividade aumentou, claro.

Contudo, como será quando o nível subir nas fases que se seguem? Mais que isso, a que identidade se agarrará a equipa quando não chegar mudar os intervenientes para trazer coisas novas?

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