Emanuel Silva após o fim de carreira: «Os elásticos estão a rebentar e as máscaras a cair»
Emanuel Silva terminou a carreira aos 38 anos, depois de 27 ligados à canoagem

ENTREVISTA A BOLA Emanuel Silva após o fim de carreira: «Os elásticos estão a rebentar e as máscaras a cair»

MODALIDADES26.04.202409:00

Canoísta que foi vice-campeão olímpico em 2012 despediu-se da alta competição esta semana

Emanuel Silva despediu-se oficialmente da alta competição na quarta-feira, após quase 30 anos dedicado à canoagem, com vários títulos mundiais e europeus no currículo que tem como ponto alto a medalha de prata que alcançou em Londres2012, no K2, junto de Fernando Pimenta.

Nesse mesmo dia, o bracarense de 38 anos deu uma entrevista exclusiva a A BOLA, na qual aceitou percorrer o percurso vitorioso que protagonizou no desporto mundial. Além dos muitos pontos altos, o atleta não esconde alguma mágoa, apesar de entender que este não é o momento para falar de situações menos positivas. Mas admite que depois de ter falhado o apuramento para os Jogos Olímpicos de Paris2024, que seiram as suas sextas olimpíadas, isolou-se e precisou de ser «tirado de um buraco».

Foi também por isso que no domingo decidiu fazer a última prova sem avisar ninguém além da família e de alguns amigos. Em Montemor o Velho, onde tanta alegrias viveu, aproveitou os últimos 500 metros da carreira para viver , junto dos seus, um momento de celebração.

- Depois de quase 30 anos na canoagem, anunciou o fim de carreira. Acredito que tenha sido um dia muito emotivo.

- Sim, hoje foi muito emotivo, para além do dia de domingo, quando fiz a minha despedida no grande palco: a competir. Fiz tudo para marcar presença numa das finais da Taça de Portugal de regatas em linha, para poder contar com a minha família lá em Montemor-o-Velho, para fazer a minha última regata enquanto atleta de alto rendimento.

- E só o Emanuel e a família sabiam que iria ser a despedida…

- É verdade. Não avisei ninguém. Foi propositado, porque queria chorar aquele momento com a minha família. Queria mesmo muito estar com eles. Eu sei que algumas pessoas podem ter ficado um bocado desiludidas, por eu não ter dito nada. Porque poderiam querer fazer algo diferente, mas acho que aquele momento era mesmo meu e da minha família, e senti necessidade que fosse dessa forma.

Só a família de Emanuel Silva sabia que o canoísta iria fazer a última prova da carreira na Taça de Portugal de regatas em linha

- Uma despedida que só nesta quarta-feira tornou oficial.

- Sim. Além de domingo, este dia também é marcante para o resto da minha vida. Confesso que ao colocar aquele post nas redes sociais estava realmente a chorar e a reviver todos aqueles momentos que vivi enquanto atleta de alto rendimento. Porque isso jamais será esquecido

- Sente que alguém pode ter ficado chateado por se ter despedido sem avisar ninguém?

- As pessoas no local começaram a perceber o que que estava a acontecer, até porque a minha família foi trajada de uma forma diferente: foram buscar ao baú todas aquelas camisolas Atenas 2004, Pequim 2008, Campeonato do Mundo 2006. Aquelas camisolas que as famílias fazem para apoiar os na receção nos aeroportos, e eles envergaram essas camisolas e então toda a gente começou a perceber o que se iria passar. Depois, viram-me num registo totalmente diferente daquele que toda a gente conhece, que é vir a competir e a bater-me de igual para igual com os adversários.

- Não foi assim?

- Não. Vinha sozinho. Acompanhado [no K2] por um grande amigo, o Artur Pereira, a quem eu devo muito, porque foi a pessoa que me ajudou e deu-me a mão para sair do buraco depois do Campeonato do Mundo do ano passado. Então fiz essa despedida em slow motion, a usufruir daqueles últimos 500 metros, que foram os meus últimos no alto rendimento. Por isso peço desculpa a quem se possa sentir desiludido, porque provavelmente queriam prestar-me uma homenagem. Mas não faltarão oportunidades, e acredito que a minha justificação é compreensível, porque naquele momento era meu e da minha família.

- Ou seja, quis esticar ao máximo aqueles 500 metros?

- Verdade, estiquei-os ao máximo. Eu consigo fazer os 500 metros 1m40, ou 1m45, fiz e, 2m30 [risos]. Foi tentar esticar ao máximo, respeitando os timings, porque a seguir vinha a final que garantia os títulos da Taça de Portugal, então não podia ir a passo de caracol, porque a regata seguinte ia logo acontecer. Mas foi o suficiente, deu para me despedir da forma como eu tanto ambicionava, dentro deste molde. Porque aquilo que eu mais desejava e sonhava era mesmo despedir-me em Paris, num registo mais rápido, obviamente. Se fosse competir em Paris tinha de dar tudo por tudo. Assim, disse adeus com a minha família, os meus amigos, as pessoas que gostam de mim, as pessoas que me admiram, as pessoas que sempre estiveram comigo e que estão comigo presentes na bancada, aplaudir-me não só pelo resultado que eu pudesse conquistar em Paris, mas sim por tudo aquilo que eu alcancei.

Emanuel Silva, junto de Artur Pereira e da mãe

- Disse que o Artur o ajudou a sair do buraco depois dos Mundiais. O que lhe aconteceu?

- É verdade, depois do campeonato do mundo, como toda a gente sabe, o K4 não apurou, e eu fiquei completamente desiludido. Confesso que entrei em isolamento. Comecei a sentir o fracasso por não ter conseguido atingir o objetivo que eu tanto desejava. Isso durou de agosto até dezembro. Eu tenho um alojamento local no Gerês, ia para lá passar algum tempo, trabalhar, aproveitar para desanuviar, e olhava para a barragem, um plano de água espetacular, onde a equipa nacional faz os estágios, e eu não sentia vontade nenhuma de treinar. Não sentia qualquer motivação para colocar o caiaque no rio e começar a remar, começar a treinar, procurar o Emanuel que tanto gostava de treinar.

- Como é que esse Emanuel voltou a surgir?

- Porque o Artur, aos poucos, aparecia e dizia: ‘vamos começar a remar’. E eu respondia, ‘vamos mas, vamos de K2’. E lá entrávamos no K2, fazíamos um treininho, uma coisa muito simbólica. Depois, pegávamos no caiaque, colocávamos em cima do carro, eu pegava na pagaia, metia-a dentro do carro dele, e ele perguntava se eu não queria ficar com a pagaia? Mas eu queria e dizia-lhe que só voltaria a remar quando ele voltasse novamente. Porque não tinha vontade de voltar a ir para o K1. E passados dois dias, lá voltava ele a desafiar-me para treinar. E foi aí que comecei a acreditar que podia ainda sonhar com o Paris.

- Neste caso, teria de ser no K2…

- Sim. Mas, felizmente tenho pessoas boas à minha volta. Nas palestras que dou digo que sou como um lobo solitário. Felizmente, e como qualquer lobo solitário, tenho uma boa alcateia por trás. E se eu já sentia isso, neste momento ainda senti mais. A minha família continuou a apoiar-me. ‘É isso que tu queres, ir até a seletiva nacional? Ainda queres tentar roubar, entre aspas, a vaga ao João [Ribeiro] e ao Messias [Baptista]. E eu disse que sim. Que ia fazer mais um esforço. Estava consciente do que poderia acontecer. Eu só comecei a remar em dezembro, num registo totalmente diferente do que estava habituado, só fazia uma sessão de água por dia, depois ia ao ginásio, continuava a trabalhar no meu alojamento… Sabia e estava consciente de tudo o que poderia acontecer. Mas, felizmente, tenho as pessoas certas à minha volta, E neste momento - lamento dizer isto, mas é verdade - os elásticos estão a rebentar, e as máscaras estão a cair.

Momentos de desencontro com Fernando Pimenta? Antes da minha última prova ele disse-me: ‘tenho muita pena de não poder estar ali na margem a aplaudir-te’

- Porque diz isso?

- Os telefonemas que vou recebendo, e as mensagens que vou recebendo, mostram quem sempre esteve comigo e continua a estar. Porque às vezes na alta competição, acontece isto: quem nós pensamos que está sempre connosco, nem sempre está. São aprendizagens que eu levo para a vida, tornam-me mais forte, mais seguro, mais firme, e as coisas não acontecem por acaso. Por isso não saio daqui magoado ou triste de uma eventual mensagem ou telefonema que possa não ter recebido de A, B ou C. Se não fizeram é porque não podiam. Não há problema.

- Está a falar de colegas que remaram consigo, que estiveram consigo em alta competição?

- Sim. Estamos a falar de colegas que remaram comigo, treinadores… treinadores, infelizmente, Mas vou pensar que essas pessoas estão focadas em objetivos a curto prazo, e não se querem desviar com momentos emocionais. Vou ver o copo meio cheio. O Emanuel não guarda rancor de ninguém, felizmente dou-me bem com muita gente, e provavelmente se eventualmente me cruzar com essas pessoas, elas pessoas vão dar-me os parabéns, estender a mão e parabenizar-me por aquilo que eu fiz. Tenho essa crença.

- Tem alguma ideia do porquê disso ter acontecido?

- Só eles podem dizer. Não consigo encontrar uma razão, até porque dou-me tão bem com tanta gente. Aliás, até costumo dizer, por brincadeira, que só não gosta de mim quem tem inveja. Por isso, não há problema. Se as pessoas são firmes e seguras, não há problema. Desejo o maior sucesso para essas pessoas e não guardo rancor de quem quer que seja. As redes sociais estão aí para serem vistas, quem partilha, quem não partilha, quem faz homenagem, quem não faz homenagem. O Emanuel está atento, as pessoas que me seguem também estão atentas a quem faz a devida homenagem. A vida é mesmo assim, uns vão, outros vêm e temos de aceitar.

- Apesar de dizer o contrário, noto aí alguma mágoa.

- Poderei ter alguma mágoa, mas é temporária. É o calor da emoção. Estou numa fase em que as emoções estão ao rubro, mas é como uma onda, tanto está lá em cima, como depois as coisas vão serenar e tudo volta à normalidade.

- Mas sente que há algo pendente, por resolver?

- Não, não, não. Estou completamente tranquilo, realizado e feliz. Tenho a minha família que me apoia ao máximo e os meus amigos à minha volta. Sempre disse o que me preocuparia neste tempo era chegar a casa e não ter um abraço da minha filha, que é uma das mulheres da minha vida. isso é o que me preocupa. Tudo aquilo que eu fiz e faço, principalmente no que diz respeito ao desporto, fiz para que um dia a minha filha tenha orgulho no pai que tem. E ela tem imenso orgulho no pai que tem e isso é o que me deixa bastante satisfeito: ser um exemplo para ela, e que ela possa pegar no meu exemplo e aplicar no dia a dia, para criar objetivos para ela. Eu sabia que quando entrasse em casa tinha a minha esposa e a minha filha. Também tenho os meus pais de braços abertos, como sempre estiveram, a dizer que eu sou o melhor. Não posso pedir mais.

- Tenho de perguntar concretamente, porque ao longo dos últimos anos houve alguns momentos em que andaram mais desencontrados: o Fernando Pimenta é uma dessas pessoas de que fala?

- Não, de todo! O Fernando não é, de todo, uma dessas pessoas. Até posso partilhar, que antes da final A - eu fui à final B, que foi antes - o Fernando disse-me: ‘tenho muita pena de não poder estar ali na margem a aplaudir-te’. E eu simplesmente respondi-lhe, ‘obrigado, agora concentra-te naquilo que tens a fazer’. Ele ia competir, ia disputar uma final, e eu agradeci e disse para se focar.

- O contrário também aconteceu: receber mensagens de quem não esperava?

- Sim, também aconteceu. Recebi imensas mensagens. Felizmente, pessoas que não imaginava que pudessem ter tanta admiração por mim, e têm. É uma surpresa que provavelmente pode colmatar a diferença daquelas pessoas que eu pensava que estariam e não estão. Umas sucedem às outras, é como na vida. As amizades às vezes perdem-se, outros ganham-se, e aquelas que são verdadeiras, há que estimá-las para que durem muito tempo.

Ponto alto da carreira de Emanuel Silva foi a medalha de prata conquistada nos Jogos Olímpicos de Londres 2012, junto a Fernando Pimenta

- Ganhou cinco diplomas olímpicos, uma medalha, vários títulos mundiais, vários títulos europeus. O que diria o puto Emanuel, de 11 anos, se lhe dissessem que era isso que o esperava?

- Se me dissessem agora, que ia ter de passar por tudo novamente para ter o sucesso que tive, eu assinava por baixo. Voltava a fazer tudo aquilo que fiz até hoje. Muito satisfeito. Nós às vezes costumamos dizer ‘só queria ter novamente 20 anos, com esta experiência’. Provavelmente, mudaria algumas coisas, para melhor. Mas tudo aquilo que alcancei, com tão pouco fiz tanto, ou neste caso com tão pouco fizemos tanto, fizemos tanto pela canoagem… E ninguém sabia o que era canoagem até 2004. Eu costumo contar, que a minha primeira massagem desportiva foi nos Jogos Olímpicos Atenas2004. Porque até lá eu não sabia o que era uma massagem. Não havia, não havia financiamento. Hoje há aposta e ainda bem que as coisas evoluíram para melhor e os atletas têm mais condições. Temos um centro de alto rendimento, uma residência, um departamento médico. Estes miúdos só têm de aproveitar. É muito importante agarrar estas condições e estes miúdos. Há muitos miúdos com talento. É muito importante a Federação fazer um bom trabalho agora no próximo ciclo Olímpico de Los Angeles de 2028, para que estes miúdos não se percam.

- Mas não me disse qual seria o sentimento do Emanuel de 11 anos.

- Talvez de muita emoção. Quando me iniciei na canoagem, pertencia ao Clube Náutico de Prado e havia dois atletas Olímpicos [Rui Fernandes e Silvestre Pereira]. E esses atletas Olímpicos recebiam cartas do Comitê Olímpico. Eu olhava para aquelas cartas que estavam afixadas num placar de cortiça e só queria ter uma carta daquelas endereçada a mim. Mas até hoje eu não consigo ter essas cartas, porque agora vêm por email. Mas, lembrando essas emoções do miúdo de 11 anos, ao recordar tudo isso, penso: ‘eu consegui lá chegar e consegui ganhar uma medalha’. Infelizmente, tive um 4.º lugar no Rio de Janeiro a curtas milésimas do bronze. mas, acima de tudo, consegui realizar quase todos os meus desejos.

- Faltou ser campeão Olímpico…

- Sim, um deles era ser campeão Olímpico. Muitas pessoas ‘és vice-campeão Olímpico’. Mas eu queria mesmo ser campeão Olímpico. Sonhava com isso. É como quando fazemos um bolo em casa e vamos colocar a cereja no topo do bolo, ali no centro mesmo. E fazemos a raiz quadrada, não sei o quê, para ficar mesmo, mesmo no meio. A minha medalha de vice-campeão foi a cereja a cair ligeiramente ao lado. Foi quase, mas não ficou no centro do bolo. É a cereja no topo do bolo que eu não consegui colocar. Mas toda a gente gosta do bolo na mesma.

- O ponto alto foi a medalha de prata olímpica em 2012?

- Sim. Até porque foi a única medalha de Portugal em Londres. Foi o ponto máximo. Eu e o Fernando gostávamos muito de canoagem, gostávamos muito de competir, gostávamos muito de representar Portugal e apostámos neste K2. E durante os treinos para os Jogos Olímpicos, sentíamos que a medalha era possível. Sentíamos o cronómetro bater a nosso favor e foi só acreditar até o último metro e o resultado ficou à vista de todos. Por pouco não éramos campeões Olímpicos.

- O Fernando foi o colega quem teve uma ligação desportiva de maior complementaridade?

- Senti com todos aqueles com quem partilhei as tripulações seja K2, ou K4. Mas claro, no que diz respeito a Londres 2012 íamos para uns Jogos em que quase ninguém pensava que nós éramos favoritos mas nós sabíamos que íamos ser medalhados. Posso dizer isto desta forma agora: sabíamos que se tudo corresse normalmente, nós íamos ganhar uma medalha. Então a aquela cumplicidade ainda foi mais minuciosa. Não é desvalorizar os outros momentos, mas nós sabíamos que éramos candidatos.

- Sente que a sua carreira teve o reconhecimento que merece?

- Sim, sim, não me posso queixar. Não me posso queixar dos patrocinadores, do apoio do Comité Olímpico, da FPC, o IPDJ, clubes, municípios. Não posso dizer que poderia ter mais um bocado. Só posso agradecer.